Aelyn
A tarde estava calma na clínica. Eu atendia a Sra. Helena, uma cliente antiga que vinha toda semana fazer tratamentos para a pele. Ela estava deitada, relaxada, enquanto eu retirava com cuidado a máscara de argila verde que tinha aplicado depois do peeling.
"Você está radiante hoje, Aelyn. O que mudou? Namoro novo?"
Eu ri baixinho, passando os dedos com delicadeza para retirar os últimos resquícios da máscara.
"Não, eu finalmente estou com o amor da minha vida… as coisas estão boas."
"Ah tão bom isso, quando encontramos quem nos completa." Sorri, concordando.
"Ele demorou para perceber, mas eu fui paciente." Ela deu risada.
Terminei de limpar o rosto dela e comecei a aplicar os cremes pós-procedimento, um hidratante calmante, um com niacinamida e por último o protetor solar. Enquanto massageava o produto, senti uma onda de emoção tão forte que precisei parar por um segundo.
Ela se sentou na cadeira e me olhou de verdade.
"Seja o que for que você e seu namorado tem, não deixe perder nunca. O que você está sentindo, mesmo com os problemas da vida adulta, são contornáveis." eu concordei e me despedi dela.
Voltei para a minha mesa e me sentei, levando as duas mãos à barriga ainda reta e sussurrei, quase para mim mesma:
"A mamãe está tão feliz…"
Era tão estranho falar e pensar sobre isso. Mas a ideia já tinha tomado todo o meu corpo.
Eu queria contar ao mundo, mas não ainda. Os riscos e os medos me acompanhariam a gravidez inteira, então eu queria preservar esse momento de paz por mais um tempo, em que só eu e o Felipe sabíamos.
Terminei de anotar as recomendações na ficha dela, marcando o próximo retorno. Foi quando a recepcionista bateu de leve na porta entreaberta.
"Aelyn, o Felipe está aqui. Ele disse que precisa falar com você."
Meu coração deu um salto. Ele não costumava aparecer no meio do expediente sem avisar.
"Pode deixar ele entrar."
Felipe entrou segundos depois. Assim que o vi, soube que algo estava errado. O rosto dele estava sério, quase fechado. Nada daquele sorriso aberto que ele tinha me dado de manhã.
Eu me levantei rapidamente e fui até ele.
"O que foi? Você está com uma expressão que está me deixando com medo."
Ele não respondeu com palavras. Apenas me puxou para um abraço apertado, quase desesperado, enterrando o rosto no meu cabelo. Eu senti o corpo dele tenso, os músculos rígidos.
Felipe fechou os olhos por um segundo, como se a pergunta tivesse doído fisicamente.
"Eu quero esse bebê mais do que você imagina. Eu já amo ele… ou ela. Mas eu também te amo. E os artigos que eu li… Aelyn, o risco é real. Tem casos de mães que não resistiram. Casos em que o coração não aguentou o esforço. Eu não consigo parar de pensar que posso te perder. Que posso perder vocês dois."
As lágrimas que eu estava segurando desde a consulta desceram de uma vez.
"Então o que você quer que eu faça? Que eu tire nosso filho de mim como se fosse um erro?"
"Não!" A voz dele saiu mais alta, desesperada. Ele me puxou de volta para os braços, apertando forte. "Eu não sei o que eu quero. Eu só sei que eu não aguento a ideia de te perder. Eu passei anos te amando de longe, Aelyn. Agora que finalmente te tenho… a possibilidade de te perder por causa disso está me matando."
Eu chorei encostada no peito dele, sentindo o coração dele bater forte e descompassado.
"Eu tenho medo também", confessei. "Mas eu sinto que esse bebê é um milagre. Depois de tudo que passamos, depois de tudo que eu vivi… talvez esse seja o nosso milagre."
Ele não respondeu. Apenas me abraçou mais forte, como se pudesse me proteger do mundo inteiro só com a força dos braços dele.
Ficamos assim por um tempo longo, no meio da minha sala de atendimento, com o cheiro de argila e cremes no ar. Dois corações batendo juntos... três, na verdade.
E pela primeira vez desde que descobri a gravidez, eu senti o peso real do que estava por vir.

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