Aelyn
Eu entendia o Felipe. Entendia o medo dele, o pânico nos olhos, o jeito como ele me apertava como se eu pudesse desaparecer a qualquer momento. Mas ao mesmo tempo, eu sentia que precisava lutar. Por esse bebê. Pelo nosso filho.
Nós tínhamos saído da minha sala e descido até o estacionamento quase em silêncio. O ar entre nós estava pesado, carregado de coisas não ditas. Quando paramos ao lado do meu carro, eu respirei fundo e falei:
"Eu não vou poder dormir na sua casa hoje."
Felipe franziu a testa, confuso.
"Por quê?"
"Serena marcou uma coisa comigo e eu tinha esquecido completamente. Ela ligou mais cedo dizendo que, se eu furasse, podia esquecer que tinha irmã."
Era mentira. Uma mentira ruim, dita com a voz trêmula. Mas eu precisava de um tempo sozinha. Precisava pensar, respirar, planejar. Não conseguia fazer isso com ele me olhando como se eu já estivesse morrendo.
Ele passou a mão no cabelo, visivelmente frustrado, mas não discutiu.
"Tudo bem… mas me avisa se precisar de qualquer coisa, tá?"
Eu assenti. Ele me puxou para um abraço longo, apertado, daqueles que parecem querer parar o tempo. Quando nos separamos, segurei o rosto dele com as duas mãos.
"Eu sei que você quer esse bebê, Fê. Eu sei que você está com medo. Eu também estou. Mas eu não consigo ver nosso filho como um erro. Eu o quero mais que tudo no mundo."
Ele abriu a boca para responder, mas eu o calei com um beijo. Um beijo calmo, profundo, cheio de tudo que eu não conseguia colocar em palavras. Quando me afastei, completei:
"Espero que você entenda que eu vou seguir com essa gravidez."
Felipe me olhou em choque. Os olhos dele se encheram de algo que parecia dor pura.
"Eu nunca ia te pedir para interromper… a não ser que fosse realmente necessário."
Eu dei um passo para trás, sentindo um aperto forte no peito.
"Nem que fosse necessário. Eu vou dar um jeito. Vou fazer tudo que for preciso para que ele ou ela nasça saudável. Mesmo que isso me custe."
As palavras saíram firmes, mas por dentro eu tremia. Felipe ficou pálido. Ele abriu a boca, fechou, passou a mão no rosto com força.
"É exatamente nisso que eu quero que você pense, Aelyn. No quanto isso pode custar."
Eu engoli seco. O aperto no peito aumentou, mas eu me mantive firme.
"Eu… eu não posso me atrasar para o encontro com a Serena. Então… a gente se vê amanhã?"
Dirigi até o apartamento dele e do Luciano com a cabeça girando. Quando cheguei, Tales me recebeu com um abraço forte e me puxou para o sofá. Ele não fez perguntas difíceis de cara. Só me deixou chorar no ombro dele enquanto preparava o chá.
"Ele quer o bebê… mas tá morrendo de medo de me perder", contei, a voz embargada. "E eu entendo, Tales. Eu tenho medo também. Mas eu não consigo pensar em não ter esse filho. Eu já amo ele. Ou ela. Com toda a força que eu tenho."
Tales ficou em silêncio por um tempo, só passando a mão nas minhas costas.
"É uma escolha impossível, né? Amar alguém a ponto de ter medo de trazer uma vida nova ao mundo por causa desse amor."
Eu assenti, limpando o rosto.
"Eu vou lutar. Vou pesquisar os melhores especialistas em gestação de transplantadas. Vou fazer tudo certo. Mas eu preciso que o Felipe esteja comigo… não contra mim."
"Ele vai estar", Tales disse com convicção. "Ele te ama demais pra te deixar passar por isso sozinha. Só dá um tempo pra cabeça dele processar. Ele ainda está absorvendo toda essa novidade e eu entendo o medo dele. Mas, ao mesmo tempo, ele tem que te entender também."
Eu sorri fraco, encostando a cabeça no ombro dele.
"Eu espero que sim."
Ficamos ali, em silêncio, enquanto o chá esfriava na mesa. Naquele momento, desde que descobri a gravidez, eu senti que não estava completamente sozinha nessa batalha.
Mas o medo ainda estava lá. E ele era grande.

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