Felipe
Eu ainda estava atordoado.
Sentado no sofá da minha sala, com a foto da ultrassom tremendo na minha mão, eu tentava processar o que Aelyn tinha acabado de dizer. Um bebê. Nosso bebê. Gerado naquela única noite em que eu tinha me deixado levar pelo desejo.
"Mas você não toma remédio?", perguntei, a voz saindo mais rouca do que eu pretendia.
Aelyn segurou minhas mãos, os olhos ainda brilhando com aquela mistura de medo e animação que me desmontava.
"O médico disse que os imunossupressores podem ter anulado o efeito do anticoncepcional. Eu tomei tudo certinho, mas… aconteceu."
Eu concordei devagar, ainda em choque. Ela se inclinou e me abraçou forte, depois segurou meu rosto entre as mãos, obrigando-me a olhar pra ela.
"Eu ainda não sei direito o que pensar… mas, Fê… eu estou tão animada. Um pedacinho nosso. Nós criamos um milagre aqui dentro de mim." ela se afastou e colocou as mãos sobre a barriga e estiquei a minha colocando sobre as mãos dela.
"Nosso pedacinho..." ela concordou com os olhos brilhando. Minha mente estava tentando colocar tudo na mesma página. Era muita informação.
Nós mal começamos a namorar, e de repente tudo parece ter se chocado contra nós.
Eu olhei pra ela. Realmente olhei. E vi o brilho nos olhos dela, aquele amor enorme que sempre teve por mim. A ficha começou a cair devagar, pesada como chumbo. Um filho. Um filho nosso. Mas também o risco. O risco enorme.
"Eu quero conversar com o Dr. Martins o quanto antes", disse, tentando manter a voz firme. "Quero fazer tudo certo pela sua segurança e pela do bebê."
Ela concordou, pegou o celular e discou, levantando-se para agendar, e marcou a consulta para o dia seguinte. Enquanto ela falava com a secretária, eu discretamente peguei meu próprio celular e fiz uma pesquisa rápida: “gravidez após transplante cardíaco”. Os títulos que apareceram me deram um frio na espinha. Risco alto de rejeição. Insuficiência cardíaca. Mortalidade materna elevada. Mortalidade fetal.
Eu apaguei a tela rapidamente quando ela se aproximou.
"Eles podem nos receber amanhã às 10h", disse ela, sorrindo.
"Ótimo. Vamos juntos."
Ela se inclinou e pegou a foto da ultrassom que estava no sofá e a olhou sorrindo, como se fosse o bem mais precioso do mundo.
"Só passei aqui pra te contar a novidade. Queria poder ir pra sua casa agora e comemorar, mas tenho um paciente em meia hora."
Eu me levantei também e a abracei forte, beijando o topo da cabeça dela.
"A noite a gente comemora. Dorme lá em casa hoje?"
"Durmo sim. Meu pai vai ficar irritadinho, mas quando ele souber que temos esse presente, ele vai entender."
"Não vamos contar nada a eles ainda." ela sorriu.
"Me desculpa, senhor, eu só... ela saiu feliz, achei que estava tudo bem." Olhei sério para ela, para ver se ela entendia o que eu tinha dito.
Ela se desculpou rapidamente, mas o tom não me convenceu. Colocou a xícara na mesa e saiu. Quando a porta fechou, eu me recostei na cadeira e fiquei olhando para o vazio.
Será que Aelyn tinha razão sobre essa mulher? Eu sempre achei que era só ciúme dela, mas o jeito como Liana se aproximava, o olhar, as desculpas para ficar sozinha comigo… estava começando a me incomodar de verdade.
Mas eu não conseguia pensar nisso agora. Só conseguia pensar na foto da ultrassom que Aelyn tinha deixado na mesa. Naquele coraçãozinho minúsculo.
Um filho.
Nosso filho.
E o medo de perdê-la por causa disso estava me consumindo vivo.
Eu peguei o celular novamente e abri a pesquisa que tinha feito antes. Li mais alguns artigos. Cada linha aumentava o peso no meu peito. Risco de morte materna de até 30% em alguns casos. Necessidade de acompanhamento intensivo. Possibilidade de ter que escolher entre a vida dela e a do bebê.
Eu fechei os olhos e apoiei a cabeça nas mãos.
Como eu ia proteger as duas pessoas que eu mais amava no mundo se uma gravidez podia tirar as duas de mim?

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