Felipe
Eu não conseguia ficar parado.
Andava de um lado para o outro na sala do meu apartamento, o celular na mão, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito. A foto da ultrassom ainda estava sobre a mesa de centro, aquele pontinho minúsculo que já tinha virado meu mundo de cabeça para baixo.
Um filho. Nosso filho.
Eu queria esse bebê. Queria com uma força que eu nem sabia que existia dentro de mim. Mas o medo… o medo era maior. Maior do que qualquer coisa que eu já tinha sentido na vida.
Peguei o telefone e disquei o número do Dr. Martins. Ele atendeu no terceiro toque, a voz calma e profissional.
"Doutor, é o Felipe. Desculpe ligar a essa hora, mas… a Aelyn me contou. Sobre a gravidez."
Houve um segundo de silêncio do outro lado.
"Entendo. Você quer falar sobre os riscos."
"Quero entender tudo. Tudo mesmo. Eu li bastante coisa hoje, mas preciso ouvir de alguém que realmente conhece o caso dela."
O médico respirou fundo, como se soubesse que a conversa seria longa.
"A gravidez em transplantadas cardíacas é considerada de alto risco, Felipe. O coração dela precisa trabalhar muito mais. O volume sanguíneo aumenta em até 50%, a pressão arterial sobe, o corpo inteiro fica sob estresse. Existe risco real de rejeição aguda, insuficiência cardíaca, arritmias graves… Em alguns casos, a mãe não sobrevive. Em outros, o bebê nasce prematuro, com complicações ou não sobrevive."
Eu parei de andar. Encostei na parede, sentindo o chão sumir sob meus pés.
"E se ela quiser continuar?"
"Podemos tentar. Vamos ter que trocar vários medicamentos imunossupressores porque alguns causam malformações graves no feto. Vamos precisar de acompanhamento semanal, possivelmente internações preventivas a partir do segundo trimestre. Mas não posso mentir: é uma gestação extremamente perigosa. Se as coisas saírem do controle, e elas podem sair rápido, vamos ter que discutir a interrupção para salvar a vida dela."
Eu fechei os olhos com força.
"Então existe a possibilidade de eu ter que escolher entre ela e o bebê?"
"Infelizmente, sim. É uma conversa que nenhum de nós quer ter, mas que precisamos estar preparados para ter."
A ligação durou quase vinte minutos. Cada palavra do médico era como uma facada. Quando desliguei, eu me sentei no sofá e apoiei a cabeça nas mãos.
Eu não queria perder nenhum dos dois. Não queria escolher. Não queria viver num mundo sem ela.
Mas também não conseguia imaginar tirar dela a chance de ser mãe. Não depois de tudo que ela já tinha passado.
"Felipe… o que está acontecendo?"
"A gente se desentendeu", falei, a voz falhando. "E eu… eu surtei. Não surtei do jeito certo. Eu tenho medo pra caralho de perder ela, Serena. E agora ela mentiu pra mim. Ela não quer ficar perto de mim."
Serena me puxou para dentro de casa e fechou a porta.
"Senta. Respira. Ela deve estar precisando de um tempo pra processar. A Aelyn é forte, seja o que for ela só precisava pensar. Dá um tempo pra ela."
Eu me sentei no sofá, passando as mãos no rosto com força. Meu peito doía. Eu queria voltar no tempo, voltar para o momento em que ela me contou e reagir diferente. Queria ter dito que ia lutar com ela, não que estava com medo.
Mas o medo ainda estava lá. Gigante. Sufocante.
Eu só queria proteger a mulher que eu amava. E agora parecia que, para protegê-la, eu tinha que ir contra o que ela mais queria.
Fiquei ali, olhando para o celular, esperando que ela me ligasse de volta. O silêncio da casa parecia gritar.
Eu não ia desistir dela. Nem do nosso filho.
Mas eu também não sabia como impedir que o amor que sentíamos um pelo outro acabasse nos destruindo.

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