Faz sentido, a Família Rocha preza pelas aparências.
Abel não ousaria mencionar o ocorrido da noite passada na frente de Dona Cláudia, afinal, o temperamento dela não era dos melhores.
— Estou na casa da Sra. Novais, ocupada com a limpeza, não atendi as ligações dele.
— Eu o expulsei e avisei ao porteiro para não deixar o carro dele entrar mais. Mas vi que ele estava muito ansioso para te encontrar, aconteceu alguma coisa?
— Não sei, ele tem estado meio descontrolado ultimamente. — De qualquer forma, não parecia o mesmo Abel com quem convivera por quatro anos.
— Deixa para lá, não ligue para ele. — Dona Cláudia demonstrou preocupação. — Trabalhou até agora sem comer, né? Pedi para o Sr. Vieira encomendar comida para você.
— Obrigada, Dona Cláudia. — Inês sorriu com gratidão.
Assim que desligou, a campainha tocou.
— Tão rápido. — Inês desceu de chinelos e abriu a porta. Quem estava parado ali era, surpreendentemente, Rodrigo.
Já tinha trocado de roupa, mas continuava impecável de terno, com a gravata perfeitamente alinhada.
Mantinha a postura ereta, uma mão no bolso, olhando para ela com aquele olhar ligeiramente baixo, profundo e cheio de uma autoridade natural.
— Diretor Simões, o senhor está indo para alguma conferência importante?
Rodrigo a encarou.
— Diretor Simões, eu não posso fazer hora extra hoje à noite.
Rodrigo: ...
— Ninguém pediu para você fazer hora extra. — Rodrigo entrou, olhando ao redor. A mobília estava completa, mas o ambiente ainda parecia vazio.
O homem franziu a testa:
— Quem mandou você se mudar para cá?
— A professora. — Inês deixou a porta aberta e parou a uma certa distância de Rodrigo. — O Diretor Simões veio aqui para passar alguma tarefa?
— Não vi você realmente interessada em trabalho. — Senão não teria pedido demissão.
Inês apertou os lábios e ficou em silêncio.
— Você é muda? — Rodrigo só tinha ouvido a família xingá-lo assim; nunca imaginou que um dia usaria essa frase com outra pessoa.
Inês: — Não.
— Vai morar aqui por quanto tempo?
As mensagens continuavam chegando.
[Você pode atender o telefone? Responder a mensagem?]
[Eu sei que você não está dormindo.]
[Estou muito preocupado com você.]
[Inês, se você não responder, vou ficar aqui na Mansão Oliveira esperando...]
A mensagem era longa e foi cortada, mas como Abel mencionou a Mansão Oliveira, Inês, que estava servindo a água, preocupou-se e esticou uma mão para tocar na mensagem.
Antes que pudesse clicar, a chaleira inclinou e a água fervente derramou sobre o peito do seu pé.
— Ah! — Inês soltou um grito breve e abafado.
— O que foi? — Rodrigo ouviu e largou o celular imediatamente, caminhando em direção à cozinha.
A tela do seu celular permaneceu aberta no bloco de notas.
[Vista-se bem para vê-la; ela achou que eu a chamei para fazer hora extra, que ingrata]

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