Mansão Serra Sul, número onze.
Após Abel receber alta e voltar para casa, Alex Azevedo simplesmente não conseguiu convencê-lo a comer nada, e não teve escolha a não ser informar a situação à Família Rocha.
Ao saber que o filho havia sido internado com espasmos estomacais e que estava em greve de fome, a Família Rocha ficou desesperada e correu imediatamente para a Mansão Serra Sul.
Por mais que a família tentasse persuadi-lo, Abel continuou recusando comida e água.
Já não bastasse a falta de apetite, o telefone não parava de tocar com problemas da empresa. Ver Abel arrastando seu corpo doente para lidar com questões de trabalho partiria o coração de qualquer pai.
Sem alternativas, e sabendo que Inês estava morando na Mansão Nove, Branca Rocha Martins decidiu ir pessoalmente até lá para pedir que ela convencesse seu filho.
Mas, ao chegar, deparou-se com seguranças e cães. Impedida de entrar, começou a gritar, tentando chamar a atenção. Em vez de Inês, quem apareceu foi uma babá furiosa que avançou sobre ela com um esfregão em punho.
O ataque não só a deixou exalando um cheiro terrível, como suas roupas foram rasgadas pelos dois cachorros. A sua jaqueta de inverno, que custara milhares de reais e já a acompanhara por dois invernos, teve o enchimento de plumas espalhado pelo ar logo no terceiro.
Uma excelente jaqueta totalmente arruinada.
Branca voltou resmungando xingamentos. Ao ver que não havia ninguém com ela, Geraldo Rocha soube imediatamente que a tentativa falhara.
— Inês se recusou a vir? Ela é tão cruel assim?
— Ela não devia estar em casa. A essa hora da noite, sabe-se lá com que vagabundo ela está se esfregando. — Branca estava tão acostumada a criticá-la que, por um instante, ainda a tratou como nora da Família Rocha. Só depois de xingar é que se deu conta de que Inês não era mais nada deles. Não importava com quem ela estivesse se envolvendo; a Família Rocha não tinha mais nenhum controle sobre ela.
Branca torceu os lábios, contrariada.
Ver o filho tão destruído por causa de Inês a enchia de indignação. Ela pretendia continuar xingando-a para aliviar sua raiva.
— Uma mulher divorciada como a Inês... Duvido muito que algum homem a queira de verdade.
— Mãe, por que a senhora continua ofendendo a Inês pelas costas? — indagou Abel, que acabara de voltar de uma ligação e ouvira o comentário.
— Não é isso... O mingau já está pronto. Posso trazer um pouco para você? Coma pelo menos umas colheradas — disse Branca, dando um sorriso sem graça ao ser pega no flagra.
Geraldo não disse nada. O filho parecia acabado, mas, pelo menos, não estava negligenciando sua carreira. Isso lhe trazia algum conforto.
Ele decidiu que a família inteira se mudaria para lá e ficaria ao lado do filho. Se algo de ruim acontecesse, eles seriam os primeiros a saber. Outra medida seria continuar procurando Inês.
Uma doença da alma só pode ser curada pelo remédio do coração.
Se não desse certo na primeira vez, tentariam na segunda.
Se uma pessoa falhasse, outra iria no lugar.
Ele se recusava a acreditar que Inês não tinha mais sentimentos por seu filho, e que a reconciliação não tinha nenhuma margem de manobra.
Ele sabia muito bem o quanto Inês havia se sacrificado por seu filho ao longo daqueles anos.
Laços tão profundos não se rompem facilmente; por trás de todas as feridas, ainda deveria restar um coração. Ele duvidava que quatro anos de amor pudessem ser apagados de forma tão limpa e definitiva.

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