Henry
Ao sair da casa da Melissa, eu queria sumir. Não só desaparecer, mas desaparecer do mundo, da minha realidade. Dirigindo com músicas tocando ao fundo, fui até uma adega próxima à praia, comprei algumas bebidas e segui caminhando até a areia. Precisava apagar meus pensamentos e me concentrar nas lembranças boas do meu casamento. Dizem que são essas que precisamos guardar, não é? Era o que eu tentava fazer, revivendo memórias antigas e felizes: o nascimento da Mia, nosso casamento... Um casamento só nosso, quando trocamos alianças, mas que logo foi seguido pelo casamento “de verdade,” o qual minha mãe fez questão de não comparecer. Ainda assim, aquele dia foi feliz.
Enquanto bebia, peguei o celular e comecei a digitar algumas mensagens. Escrevi declarações de amor, mas logo apaguei. Depois, digitei o quanto estava decepcionado com o que vi, mas apaguei de novo. Não tenho coragem de enviar nada. Fiquei nesse vai e vem, digitando e apagando, tentando ver se isso ajudava minha mente a raciocinar. Prefiro resolver as coisas olho no olho, mas, pelo jeito que estamos, duvido que tenhamos uma oportunidade de sentar e conversar de verdade sobre o nosso relacionamento, que, como ela mesma disse, já nem existe mais.
Ainda bebendo, já não sentia as gotas de chuva que caíam nas minhas costas. O celular estava molhando, e duvido que ele dure duas horas assim. Tirei o chip e o deixei ali na areia, pelo menos assim não mandaria mensagens das quais poderia me arrepender.
Estava na praia havia horas, mas não saberia dizer quantas. Levantei cambaleante, mas logo caí de volta na areia. Resolvi ficar ali, até ser cutucado. Com os olhos fechados, senti um chacoalhão e, pela voz grave, reconheci meu pai.
— O que você pensa que está fazendo, rapaz? — Foi tudo o que ouvi antes de o sono me vencer. Senti meu corpo ser erguido e vi que era meu pai e Ricardo me carregando. Depois disso, só me lembro de acordar deitado em um quarto estranho, com meu pai ao meu lado, me olhando com o semblante fechado.
— Pai! — Falei, surpreso.
— O que acha que está fazendo, Henry? — Ele cruzou os braços e percebi sua irritação. Era tudo o que eu não queria: mais gente envolvida na minha desgraça.
— Tô na sua casa?
— Aqui também é sua casa, filho — disse ele. Nesse momento, a esposa do meu pai entrou, sorrindo e colocando um prato de sopa na mesa ao lado.
— Meu filho, você ainda mata seu pai do coração. Não sabe o quanto ele ficou apavorado. Esse velho te ama demais, não assuste ele assim.
— Perdão, pai. — Ele assentiu, ainda sério. — Obrigado pela estadia, mas logo vou embora. Não quero incomodar.
— Você não incomoda, Henry. Queremos que fique bem e que fique aqui o tempo que precisar. Seu pai até pensou em algo que pode ajudar.
— Não vai a lugar nenhum, Henry. Deixa eu conversar com esse cabeça-dura — disse meu pai, impaciente.
— Tudo bem, mas por favor, Henry, ouça o que ele tem a dizer. Ele ficou muito preocupado — disse Ana, saindo do quarto.
— Pode deixar, Ana. Vou ouvir o velho.
— Ah, vai mesmo! Não vou deixar você se acabar assim na minha frente, marmanjo. — Já previ o sermão que viria. — Senta aí e come.
— Pai, eu não tô…
— Senta e come, Henry — ele ordenou, e eu assenti, fazendo o que pediu. — Você pode ser grande e forte, mas ainda sou seu pai e serei para o resto da sua vida. O que falo é para ser obedecido. — Assenti. — Depois, vai tomar um banho. Precisamos conversar direito sobre o que está acontecendo e por que tem sido tão irresponsável. — Ele saiu, me deixando sozinho, mas logo voltou.
— Ricardo arrumou essas roupas para você. Toma banho e logo volto. Sua mãe deve estar preocupada.

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