Henry
Saí cedo da casa do meu pai e fui direto para o meu apartamento. Lá, troquei de roupa e vesti algo mais despojado. Finalmente, uma trégua do terno. Pelo menos esse benefício eu teria hoje. Peguei meus óculos escuros, já que meus olhos estavam vermelhos demais — resultado de uma noite completamente em claro. Precisava parecer minimamente apresentável para o encontro com Ricardo na concessionária.
Como meu antigo celular havia molhado, peguei um modelo reserva que estava guardado e coloquei meu chip. Assim que liguei o aparelho, fui bombardeado por mensagens. A maioria delas era da minha mãe, incluindo algumas onde ela me xingava de filho desnaturado e irresponsável pelo meu sumiço. Parece que não se pode nem respirar ou ter um momento sozinho sem alguém dramatizar.
Suspirei fundo e liguei para ela. Atendeu rápido.
LIGAÇÃO
— Oi, mãe.
— Irresponsável! — Sua voz saiu falha, carregada de drama. — Isso é o que você é, Henry Stuart. Eu não sei mais o que fazer com você, rapaz. — Ela começou, e eu só respirei fundo. Já sabia como seria.
— Não precisa fazer nada, mãe. Só me deixa em paz, já é o bastante. A vida é minha, e faço o que quiser com ela.
— Eu que te coloquei no mundo, Henry. Olha lá como você fala comigo!
— Já quer me estressar logo cedo?
— Não, filho, mas você me deixa louca sem notícias. Você sabe como fico preocupada. Meu filho, por favor.
— Estou bem, mãe.
— Está na hora de voltar para a presidência da ST Technologic. Basta dessas “férias” forçadas. E, por favor, traga minha neta. Preciso vê-la.
— Mais tarde levo a Mia, e conversamos.
— Está bem, filho. Vou te esperar.
— Ok. Até mais tarde. — Desliguei.
Não estava nem um pouco ansioso para essa nova rotina. Na verdade, durante a noite passada, considerei se não seria uma boa ideia voltar para os EUA e tentar recomeçar. Mas a ideia de ficar longe da minha filha torna essa possibilidade completamente inviável.
A ida à concessionária é minha tentativa de um recomeço, algo novo. Gosto da ideia de trabalhar no ramo automotivo, que sempre foi uma paixão minha. Mas, com tudo o que estou passando, não consigo sentir animação para nada. Meu corpo dói, meus olhos queimam e abrir as pálpebras é quase um sacrifício. Ainda assim, firmei um compromisso com Ricardo, e vou cumpri-lo.
Antes de sair, mandei uma mensagem para Melissa perguntando se poderia buscar a Mia mais tarde e levá-la para minha mãe. Como sempre, ela permitiu, e decidi fazer isso antes que Melissa chegasse em casa. A última coisa que quero é atormentá-la com minha presença.

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