Henry
Após o encontro com Renata, segui direto para a loja, onde Ricardo já me aguardava. Como de costume, me atrasei um pouco, mas não o suficiente para causar grandes problemas. Ao chegar, parecia que meu estado de abatimento era evidente. Ricardo, sempre atento, levantou meus óculos para olhar meus olhos. A claridade me incomodou tanto que fechei um dos olhos instintivamente.
— O que aconteceu? Que cara é essa? — Ele perguntou, preocupado.
— Não dormi nada à noite. Tô moído, mas ainda vivo. Vamos em frente.
— Por que não avisou? Poderíamos ter deixado isso pra outro dia, quando estivesse melhor.
— Tô fugindo da minha vida, Ricardo. Preciso ocupar a mente. Se não fizer isso, tudo só vai piorar. Já basta como está.
Ricardo assentiu, mas logo fez uma de suas piadas, tentando aliviar o clima.
— Cara, me faz um favor? Me lembra de uma coisa pro resto da minha vida.
— Fala. — Já sabia que vinha alguma bobagem.
— Me lembra de nunca me apaixonar. Olha o estado em que você tá! — Ele soltou uma risada, e acabei sorrindo, mesmo cansado.
— Me lembra disso também. — Respondi com um sorriso fraco, e seguimos para dentro da loja.
Já fazia um bom tempo desde minha última visita. A empresa da minha família me consumia tanto que deixava a loja completamente nas mãos do Ricardo. Porém, ao entrar, fiquei surpreso com o estado impecável do lugar. Até já tinha em mente qual carro trocar.
— Cara, tô começando a achar que isso aqui funciona melhor sem mim. Tô quase desistindo da ideia de assumir. — Brinquei, olhando ao redor.
— De onde tirou isso? — Ricardo perguntou, sério.
— Ultimamente, parece que tudo em que coloco minhas mãos eu destruo.
— Para com isso, Henry. A empresa da sua mãe só tá de pé por causa do seu desempenho.
— Não exagera. A empresa já tinha sua estrutura, eu só segui o que estava pronto.
— Irmão, pelo menos tenta. Quem sabe assim você sai dessa fossa.
— Obrigado por me lembrar que tô na fossa. — Ironizei, mas não tinha como negar a verdade.
— Cara, não desejo o que você tá passando nem pro meu pior inimigo. Isso não é vida.
— Vamos logo, antes que eu desista de vez. — Subi com ele para o escritório da administração, onde me atualizou sobre o básico. Eu já tinha conhecimento dos trâmites, então absorver as informações foi fácil. Depois, descemos para eu ser apresentado formalmente aos funcionários e vendedores.
Deixei a apresentação com Ricardo; minha paciência não estava para discursos longos. Quando ele terminou, tomei a palavra.
— Espero que possamos formar uma excelente equipe. Como já ouvi muitos dizerem, repito: “A persistência é o caminho do êxito.” Conto com o empenho de todos vocês para alcançarmos o sucesso que nos espera. Estarei aqui diariamente. Qualquer necessidade, podem me acionar. — Recebi algumas palmas, e Ricardo, sempre brincalhão, me deu um abraço.

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