Melissa
Fiquei muito feliz ao ver o Henry aqui logo cedo. Acho difícil encontrar um pai mais dedicado do que ele. Adoro o jeito como ele assume o papel de paizão, talvez porque eu mesma nunca tive um pai presente. Desde que descobrimos a gravidez, Henry prometeu que seria o melhor pai do mundo. Como homem, ele já me decepcionou, mas como pai, não tenho nada a reclamar. Ele é presente, paciente e amoroso, exatamente como toda criança merece.
Eu me sentia bem com ele por perto e não queria que ele fosse embora daquele jeito. Percebi que ficou chateado por não conseguir me convencer de que era melhor eu não ir nessa viagem. Ele é superprotetor, e eu entendo isso. Até acho válido, já que em Angra tem praia, e sei que bebidas e praia não combinam. Mas considerei a viagem como uma distração, não para beber. Afinal, quando Mia está comigo, sei que sou a responsável por ela, e nunca bebo nessas condições. Mesmo assim, a preocupação de Henry fazia sentido, e eu entendia.
Descemos as escadas de mãos dadas, e Bárbara nos viu. Como sempre, ela começou a cochichar algo no ouvido de Mia. Eu sabia que estava brincando com minha pequena, mas, pelos olhares dela, podia imaginar o que dizia.
— Nossa, que tudo, de mãos dadas! Prevejo uma reconciliação? — Bárbara disse, sempre espirituosa. Fechei os olhos e pedi a Deus para ela calar a bendita boca. Henry, como sempre, levou na brincadeira e sorriu. Não esperava, porém, que ele me abraçasse. Meu coração disparou, como se fosse uma bateria de escola de samba.
— A baixinha quer me obrigar a tomar chá. — Ele comentou, beijando minha testa antes de me soltar. Henry era impulsivo e agia sem se importar, como se ainda fôssemos um casal. Só podia ser irmão da louca da Bárbara mesmo.
— Baixinha não. — Sorri, enquanto ia para a cozinha. Ele foi até Bárbara e pegou Mia de seus braços. Coloquei água no fogo e, da porta da cozinha, ouvia os dois conversando.
— Me conta, mano, rolou algo? — Bárbara perguntou, sem nenhuma vergonha, falando alto o suficiente para eu ouvir.
— Até parece que você não conhece a Melissa. — Henry respondeu, entrando na brincadeira.
— Estou ouvindo isso! — Avisei, tentando conter o sorriso.
— Estou elogiando sua dedicação em me ignorar.
— Nossa, Henry, vou te contar, viu? — Brinquei, rindo. Apesar da situação inusitada, estava feliz de vê-lo descontraído. Mas Bárbara, como sempre, não ajudava nem um pouco. Às vezes, parecia faltar um parafuso na cabeça dela.
Fiz o chá e servi para os dois. Bárbara se recusou a beber, mas insistiu que Henry tomasse. Contrariado, ele foi bebendo devagar. Estava tossindo demais, e aquela tosse não parecia nada normal para mim.
— Só sairá daqui depois de terminar. — Disse, firme.
— Estou no lucro, então. Posso até aposentar a xícara e ficar por aqui. — Ele respondeu, brincando.
— Henry, tem que beber enquanto ainda está quente. Faça esse favor. — Falei, enquanto brincava de longe com Mia, que estava toda animada no colo dele.
— Está bem, calma. — Ele respondeu, bebendo lentamente. Assim que terminou, ouvimos a campainha. Dora foi atender e voltou dizendo que Lennon estava no portão. O clima mudou instantaneamente. Bárbara percebeu e foi atender Lennon. Henry me lançou um olhar desconfiado antes de se levantar.
— Já deu o meu horário. Estou indo. Obrigado pelo chá. — Ele disse, dando um beijo em Mia.
— Não precisa agradecer. Sempre que quiser um chá bem amargo, é só vir aqui que faço para você. — Brinquei, sorrindo, enquanto ele me entregava Mia.
— Obrigado pelo cuidado. O papai te ama, boneca linda. Depois volto mais. — Ele beijou Mia com carinho, e meu coração se apertou. A proximidade dele era sufocante, no bom sentido. O cheiro dele, másculo e maravilhoso, sempre me desarmava. Sorri ao ver o amor que ele tinha por nossa pequena, que retribuía chacoalhando os bracinhos no meu colo.
— Vê se procura um médico. Essa tosse não está nada normal.

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