Henry
Curioso para saber se era ela mesma que andava de um lado para o outro, levantei da cama, mas antes de eu ir até a porta ela bateu.
— Entra, Melissa — falei, observando a porta abrir lentamente. Ela entrou de mansinho.
— Deu o horário do seu remédio — disse ela. Olhei para ela, incrédulo.
— Sério! — falei, frustrado. Jurava que ela viria falar sobre nós, ou perguntar se eu estava chateado, sei lá. Minha cabeça andava pensando de menos, ou seria demais? Isso não importava; só sei que me frustrou ouvi-la falando sobre o remédio.
— Sério por quê? Tem que tomar — ela falou, como se não percebesse o que eu queria.
— Eu sei, mas não gosto.
— Não tem que gostar, tá bom? É só colocar na boca, tomar água e pronto; não vai fazer mal nenhum.
— Envenenou a água por eu te dar trabalho demais? — brinquei, e ela fez careta.
— Você é igualzinho à Bárbara, hein. Pare com isso, beba logo — ela me entregou o remédio. Sou chato mesmo, mas acho uma frescura ter que ficar tomando remédio. E outra, essa porra dá um sono danado; é bom para dormir, é claro, mas não gosto. — Que filme é esse? — ela perguntou, olhando para a TV.
— Não vai gostar; sei que não curte filme de lutas. Mas se quiser ficar aqui, podemos trocar de filme — falei direto. Queria ela por perto, nem que fosse para ficarmos calados vendo filme.
— Você é demais. Mas queria falar sobre Angra; atrapalho o seu filme?
— Sabe que não, fale.
— Percebi que não gostou de saber que o Rômulo foi convidado, e me sinto até tal com isso — ela sentou-se na cama.
— Não tem como negar, não gostei mesmo, mas não posso fazer nada; não sou eu o dono da festa — tentei ser razoável, mas, vai por mim, é da boca para fora. — Sei que conversam com ele, mas não acha que é um pouco demais? — argumentei, já que até um tempo atrás ela só o cumprimentava; agora estão marcando de ir em viagem.
— Demais o quê?
— Não acha muita intimidade chamar ele para ir a uma festa que durará não só um dia? É longe, ninguém vai embora para dormir; todos vão ficar lá.
— Foi cancelada a viagem — argumentou, mexendo nos dedos. Ela ainda evitava me olhar nos olhos.
— Eu sei, mas se não fosse meu mal-estar, neste exato momento vocês já estariam lá, e ele iria também. Iria com vocês? — demonstrei meu incômodo.
— A Bárbara que sabe dos detalhes, Henry; quem convidou foi ela, não eu.
— Sei bem com quais intenções ela convidou ele: para flertar com você, ou o Lennon? — falei com implicância. Enfim, ela me olhou, mas estava nervosa.
— Henry, para com isso. Se vai discutir, vou para meu quarto — esboçou levantar, mas peguei em sua mão. — Desculpa, falei sem pensar. Mas vamos combinar que estou certo: minha irmã estava com raiva de mim e resolveu chamar qualquer um para ver se dava certo com você — tentei não ser tão chato, já sendo.
— Não vou discordar; sabe como ela é.
— Sabia. Foi ele que te deu a cesta?
— Henry, não, pode parar. Para, o que é isso? De um assunto você puxa o outro que não tem nada a ver. Deita, vai; volta a ver seu filme. Não vim aqui despertar seu sono.
Segurei sua mão e pedi:
— Fica! — Ela assentiu e sentou-se na cama.
— Não quero discutir com você, por favor. Se for para conversar na boa, eu fico. — Respirei fundo, buscando tranquilidade. Ela se recostou na cabeceira, e, sem pensar duas vezes, deitei a cabeça em seu colo, com o rosto voltado para ela, não para a TV. Senti-me tranquilo enquanto ela acariciava meus cabelos.
— Desculpa ficar perguntando as coisas sem você ter que me dar satisfações. Às vezes, perco o controle. — Ela sorriu, deixando-me aliviado.
— Não se desculpe, mas deite virado para a TV. — Sorri, apreciando a proximidade, já que estava quase com o rosto em seus seios.
— Não posso deitar assim? Gosto mais.
— Henry, deixa de lerdeza. — Virei-me para deixá-la mais à vontade.
— Deita aqui, vem, tá quentinho debaixo da coberta.

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