Sempre parecia que Deise Paiva estava rangendo os dentes ao dizer aquilo, e Fagner Sequeira deu um sorriso amarelo:
— Por que tanta preocupação? A reputação dele já está arruinada e a empresa está prestes a falir. Como ele ainda poderia se recusar a te dar o divórcio nessas condições?
De qualquer forma, Fagner nunca havia visto um homem tão desavergonhado em toda a sua vida.
— Além disso, ele te traiu e até teve uma filha fora do casamento. Mesmo que o caso vá parar nos tribunais, você com certeza consegue o divórcio, não é?
— Hum...
Deise assentiu levemente com a cabeça.
Por causa da existência de Beatriz, um simples laudo de exame de DNA seria o suficiente para entrar com uma ação de divórcio na justiça.
No entanto, aquilo seria fácil demais para ele.
Deise queria que Palmiro Marques saísse do casamento com uma mão na frente e a outra atrás, com a reputação completamente destruída.
E agora, ela finalmente havia conseguido.
Apesar disso, por alguma razão inexplicável, uma inquietação silenciosa tomava conta do fundo de seu coração.
Se até Fagner, que estava no País X, havia escutado sobre a traição de Palmiro, a falência iminente e a enxurrada de críticas na internet, como o próprio pai dela, que vivia ali mesmo em Cidade Nova, não ficaria sabendo?
Logo após desligar a ligação de Fagner, como era de se esperar, Deise recebeu uma chamada de Rafael Paiva:
— Venha para cá imediatamente.
Foi apenas essa frase, em um tom de ordem inquestionável. Ficava evidente que Rafael estava de péssimo humor.
O bom humor que Deise sentia minutos atrás evaporou.
Enquanto dirigia a caminho de Vilas à Beira do Lago, a chuva começou a cair.
Era um temporal intenso, tão forte que as gotas batiam no asfalto criando bolhas d'água.
Com a chegada do outono, cada nova tempestade trazia consigo um frio mais cortante.
Dentro do carro, Deise não conseguiu evitar um leve calafrio.
Por sorte, ela tinha um guarda-chuva de reserva no veículo.
Após estacionar, ela abriu o guarda-chuva e caminhou sob a tempestade em direção à mansão de seu pai.
Em meio à penumbra e à cortina de água, ela vislumbrou uma silhueta diante da casa.
Sob um temporal daquela magnitude, sem guarda-chuva ou capa de chuva, a pessoa já estava encharcada até os ossos.
E mais do que isso: ele estava de joelhos.
Ajoelhado no chão duro, bem em frente ao portão principal da mansão, aceitando passivamente o castigo do vento e da chuva.
Naquele exato instante, seu pai saiu da residência, acompanhado por Paulo, que segurava um guarda-chuva para protegê-lo.
Os olhares de Deise e Rafael se cruzaram.
A expressão de Deise era severa.
A de Rafael era ainda pior.
Um relâmpago cortou o céu sobre os dois, parecendo rasgar a escuridão da noite ao meio.
— Agora você está satisfeita?
A dura repreensão de Rafael soou junto com o estrondo do trovão, ecoando de forma ensurdecedora nos ouvidos de Deise.
A mão de Deise apertou o cabo do guarda-chuva com mais força.
Naquele momento, a pessoa que estava ajoelhada sob a chuva torrencial na porta de Rafael não era outra senão Palmiro.
— Você já não causou problemas suficientes?!
Rafael rugiu, batendo a bengala no chão com força excessiva.
— Mesmo que esse tal laudo de DNA seja verdadeiro, havia necessidade de armar aquele escândalo e exigir o divórcio no meio da festa de comemoração do Grupo Marques?
— Roupa suja se lava em casa. Como eu, Rafael, pude criar uma filha tão rebelde e inconsequente? Havia algo que não pudesse ser resolvido a portas fechadas? Era preciso arruinar a vida e a reputação do rapaz desse jeito?
— E veja o resultado: seu marido faliu, a família dele está sofrendo as consequências, e sua sogra até foi parar no hospital! Seu sogro ainda está tentando limpar a bagunça que você provocou. Você está orgulhosa disso?
— Deise, eu não quero ser duro com você, mas... os homens, de vez em quando... às vezes cometem alguns erros.
— Mas você precisa dar a eles uma chance de redenção! Como diz o ditado, nunca queime todas as pontes, pois o amanhã é imprevisível.
— O Palmiro já está de joelhos aqui há mais de uma hora, tomando chuva, engolindo o próprio orgulho... Se ele foi capaz de chegar a esse ponto, acho que a sua raiva já deveria ter passado, não concorda?
Ao disparar todas aquelas frases, Rafael sentiu que estava sendo perfeitamente sensato, apelando tanto para a emoção quanto para a razão.
Na cabeça dele, Deise fatalmente absorveria parte daquele conselho.
Mas o resultado foi outro: Deise riu.
Mesmo com o barulho incessante da chuva, sua risada fria e sarcástica ecoou perfeitamente audível.
Foi um riso capaz de causar arrepios na espinha.
É claro que, desde o começo, Deise já esperava que o pai não ficasse do seu lado e reprovasse o divórcio.
No entanto, o que Palmiro fez não foi um simples deslize. Ele manteve uma amante por anos e ainda teve uma filha em segredo com ela.
O exame de DNA havia sido a sua maior arma.
Foi justamente por isso que, no dia do banquete, ela imprimiu uma cópia e enviou direto para as mãos do pai.

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