O camarote mergulhou em um profundo silêncio.
Após alguns instantes, Sylvia abriu um sorriso falso.
— Do que você está falando? A Deise é minha irmã... Mesmo que não tenhamos o mesmo sangue, ainda somos família.
Enquanto falava, ela observava a reação de Victória, brincando de leve com uma mecha de cabelo.
— Eu não estou na sua situação. Você perdeu até o teto por causa dela. Por mais que as coisas estejam difíceis, eu ainda sou a segunda filha da Família Paiva, não tenho motivos para me arriscar tramando contra a minha própria irmã.
Aquela postura cínica e teatral de Sylvia fez com que Victória revirasse os olhos mentalmente.
— Sylvia, não precisa fingir comigo. Você pode ser a herdeira da Família Paiva hoje, mas quem garante que não será jogada no olho da rua amanhã?
Sem paciência para os joguinhos da outra, Victória foi direto ao ponto:
— Você disse que eu perdi até o teto... Mas já parou para pensar que eu posso ser apenas um reflexo do seu próprio futuro?
Aquelas palavras fizeram a expressão no rosto de Sylvia mudar drasticamente.
— No ritmo em que as coisas caminham, a Saúde Paiva Ltda. vai cair nas mãos da Deise mais cedo ou mais tarde. E aquele Sr. Branco que você tanto deseja... também será dela.
A imagem do rosto bonito de William surgiu na mente de Sylvia, logo seguida pela visão de Deise ao lado dele. Ela rangeu os dentes, tomada pela raiva.
Victória curvou levemente os lábios.
— E então, ainda não quer se aliar a mim?
Sylvia encarou Victória com cautela e perguntou:
— Como você pretende lidar com ela? Truques baratos não vão servir de nada e ainda podem acabar sobrando para nós.
Sylvia odiava admitir a superioridade da rival, mas tinha que reconhecer que Deise era muito sortuda. Houve várias ocasiões em que ela e a mãe haviam planejado tudo minuciosamente, apenas para no fim acabarem favorecendo Deise.
O camarote ficou silencioso mais uma vez.
Nenhuma das duas disse uma palavra.
Após um longo tempo, Victória quebrou o silêncio, sua voz carregada de um ódio glacial.
— Teremos que cortar o mal pela raiz... de uma vez por todas.
Sylvia arregalou os olhos.
— Você quer... matá-la?
Victória deu um sorriso sombrio, sem negar.
— O que foi? Ficou com medo? Achei que a Sra. Paiva tivesse mais coragem e ambição, mas vejo que me enganei...
— Não tente usar psicologia reversa comigo. Não é medo... É que eu não sou como você, que já não tem mais nada a perder. Vou deixar as coisas bem claras: aconteça o que acontecer, a mente por trás de tudo isso é você. Eu não vou afundar junto.
Sabendo que Sylvia só queria colher os frutos sem sujar as mãos, Victória revirou os olhos.
— Tudo bem, não vou envolver a Sra. Paiva. Só faça exatamente o que eu mandar. E o mais importante... você terá que me dar dinheiro.
O fato é que, assim que a verdade veio à tona, foi convocado por sua mãe em casa para ouvir um sermão e, logo em seguida, foi chamado à empresa pelo pai para receber mais uma enxurrada de críticas.
— Você não conseguiu entregar a bolsa, o projeto das soluções nutritivas não avançou em nada... Você é um inútil que só sabe estragar as coisas!
Caminhando pela calçada, a mente de Palmiro era um eco das duras palavras de Gregory Marques.
Mas nada disso se comparava à ansiedade que o consumia por saber que em breve estaria assinando os papéis do divórcio com Deise.
Ele não queria se divorciar!
Será que não havia mesmo nenhuma forma de evitar aquela separação?
Palmiro pegou o celular para ligar para Deise, mas, ao erguer os olhos, viu a mulher caminhando lado a lado com um homem em direção à entrada de uma loja, a poucos metros dali.
Uma dor excruciante atravessou seu peito, como se tivesse levado um soco forte. Seu rosto se contorceu de agonia.
Sem pensar duas vezes, ele correu a toda velocidade até a entrada do estabelecimento.
Dentro da loja, Deise estava retirando um pedido.
Quem a acompanhava, naturalmente, era William.
— A Sra. Paiva está satisfeita com esta bolsa feita sob medida? — perguntou o gerente da loja, com profunda reverência.
— Sim, estou muito satisfeita. — Deise retribuiu com um sorriso educado.
Em seguida, virou-se para William para agradecê-lo.

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