— Pode dizer que eu fui um idiota cego, mas no começo... Eu realmente amava a Victória. Eu não tive escolha... Tudo o que eu fiz foi pela minha história de amor com ela. O problema é que, no final, ela acabou mudando...
Antes mesmo que terminasse a frase, Marcelo começou a bater palmas de modo irônico.
— É impressionante como você tem desculpas para tudo...
O olhar de Marcelo ao fitar Palmiro estava carregado de repulsa.
— Palmiro, você é apenas um moleque egoísta e mesquinho. Tanto a Deise quanto a Victória nunca passaram de instrumentos para enaltecer a sua imagem e inflar o seu ego... Você nunca amou ninguém além de si mesmo.
— Cala essa boca!
Suportando a intensa dor pelo corpo inteiro, Palmiro se forçou a ficar de pé.
Leonardo notou que os olhos do amigo estavam vermelhos.
Uma veia de pura tensão pulsava em sua cabeça, apavorado com a possibilidade de os dois voltarem a brigar ali.
Palmiro lançava um olhar furioso para Marcelo, trincando os dentes de pura raiva.
— Marcelo, não fale como se conhecesse o meu íntimo... Eu, Palmiro, posso até ter errado com a Deise, com a Victória, mas foi tudo por força das circunstâncias. Eu não encontrei a pessoa certa na hora certa... Mas você tem que admitir que eu não sou um ingrato. Quando aquela cobra me picou, foi a Victória que chupou o veneno, gole a gole, do meu sangue. Se não fosse por ela, eu não teria sobrevivido...
— Mesmo que... Você diga que eu nunca a amei, minha vontade de retribuir esse sacrifício é mais do que verdadeira!
Vendo que Palmiro ainda tentava ostentar uma fachada de mártir devotado, Marcelo simplesmente balançou a cabeça em sinal de nojo.
Neste exato momento, Leonardo, que estava ali ao lado, soltou um murmúrio quase inconsciente:
— Se a Victória chupou aquele veneno todo gole a gole... Ela própria não ficou envenenada?
Ele murmurou a pergunta e, em seguida, deu de ombros de modo displicente.
Só que, ao levantar os olhos, percebeu que tanto Palmiro quanto Marcelo o observavam, completamente estarrecidos e sem piscar.
A boca de Leonardo tremeu, nervosa.
— O que foi? Estão olhando o que pra mim? Continuem a briga de vocês! Ou, se já terminaram, cada um pro seu canto!
Leonardo já não aguentava mais aquilo.
Todas aquelas intrigas não tinham a menor relação com ele!
Ele apenas sofria por ser bonzinho demais.
O silêncio na sala tornou-se perturbador.
Palmiro e Marcelo, que segundos antes pareciam prontos para se matar, agora estavam completamente mudos.
De início, pensou apenas em Beatriz.
Todavia, lembrou-se do que o advogado havia dito: Palmiro entregaria Beatriz para adoção.
Beatriz ainda era muito pequena. Os pais adotivos jamais trariam Beatriz para visitá-la naquele lugar.
Mas, com exceção da filha, não lhe restava mais ninguém neste mundo —
Abandonada por todos, sem eira nem beira.
Sempre que constatava essa dura realidade, Victória não conseguia evitar uma risada amarga.
Ria da própria desgraça.
O tempo que passou na prisão a fez assimilar a nova realidade, trazendo-lhe um certo estado de resignação letárgica.
Diante de tudo aquilo, não havia alternativa a não ser seguir vivendo.
Assim, caminhou como um zumbi para fora de sua cela, sem o menor pingo de expectativa a respeito de quem estaria ali.
Mas qual não foi sua surpresa...
Era Palmiro Marques.

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