༺ Amara Wild ༻
Acordei com o sol invadindo o prédio abandonado, as paredes velhas deixando os primeiros raios de luz se espalharem pelo chão sujo.
Me sentei, esfregando os olhos e sentindo o corpo dolorido da noite mal dormida. Minha cabeça ainda estava uma bagunça, relembrando a cena da noite anterior com aqueles quatro homens, mas a realidade logo bateu na porta, como sempre.
Meu estômago começou a roncar, insistente, fazendo questão de me lembrar de outra prioridade do dia.
— Calma, amigo… — murmurei, colocando a mão na barriga. — Vou arrumar alguma coisa para comermos. Só tenha paciência, as coisas estão difíceis.
Soltei um suspiro e me levantei, tentando ajeitar a touca no cabelo sujo, que teimava em escapar por alguns fios.
Enquanto me preparava para enfrentar mais um dia, por um segundo, lembrei da conversa que os quatro haviam tido. Era confusa, mas algo sobre me dar um banho, cortar meu cabelo quase risível.
— Quem eles pensam que são? — digo baixinho, tentando conter a risada. — Um banho e um corte de cabelo e pronto, nova vida? Como se fosse fácil assim…
Passei as mãos pelas roupas, tentando tirar a poeira que parecia parte de mim. Fazia quatro anos que a rua era meu lar. Desde que perdi tudo, desde que perdi minha mãe.
A última pessoa que me restava no mundo. Ela lutou até o fim, mas no final, não conseguimos pagar o suficiente para salvar sua vida.
Havia vendido tudo o que possuímos. O que era meu, dela, tudo foi embora para tentar cobrir as despesas de hospital e, no final, fiquei sem nada, além de um vazio e uma vontade incontrolável de sobreviver.
Com mais um suspiro, saí do prédio, pronta para encarar mais um dia, em busca de qualquer coisa que pudesse me manter de pé. Afinal, o que me restava era essa persistência.
Segui pela calçada, sentindo o frio da manhã me envolver. Algumas pessoas passavam por mim com o rosto fechado, evitando qualquer contato visual, mas ainda assim, mantive minha educação intacta.
— Bom dia! — disse a uma senhora que, em resposta, acelerou o passo com uma expressão desconfiada.
Suspirei, mas continuei meu caminho, sem deixar a falta de gentileza deles me afetar. A vida na rua deixava marcas, porém, sempre preferi lembrar do que minha mãe me ensinou: “educação não custa nada.”
Andei mais um pouco pelas ruas de Nova Jersey, até avistar meu velho amigo, Cal. Ele estava do outro lado da calçada, mas ao me ver atravessou a rua para vir ao meu encontro.
Cal era muito mais velho do que eu, talvez tivesse uns cinquenta anos, e desde que o conheci e comecei a andar por esse lado do centro da cidade, ele sempre foi uma espécie de protetor.
Fazia 3 anos que o conhecia, e ele já tinha dividido o pouco que conseguia comigo tantas vezes que até perdi a conta.
Ele me olhou de cima a baixo, as sobrancelhas franzidas em preocupação.
— Onde você passou a noite, garota? Está tudo bem? — perguntou, meio ranzinza, mas com um tom que sempre trazia um toque de carinho paternal.
Por um segundo, observei Cal e pensei no quanto ele era gentil comigo. Apesar de tudo, sempre me protegia, me avisava dos perigos e até dividia comida quando conseguia algo. Ele era uma espécie de família aqui na rua.
Sacudi a cabeça, voltando ao presente.
— Ah, estou bem, Cal. Ontem foi só... uma noite esquisita. Quatro caras apareceram do nada enquanto eu revirava uma lata de lixo. Eles estavam discutindo, aí, do nada, começaram a falar de eu tomar banho, cortar o cabelo… essas coisas. Acabei saindo correndo e me escondi em um dos prédios abandonados.
Cal balançou a cabeça, preocupado, enquanto suspirava aliviado.
— Graças a Deus que não aconteceu nada! Já pensou se esses caras resolvem fazer alguma coisa com você? Isso poderia ter acabado muito mal, garota.
Concordei com a cabeça, sentindo o peso do que ele dizia.
— É, mas já passou. Agora, é só lembrar de evitar aquele lugar por um tempo — falei, tentando tranquilizar a mim mesma.
— O que está acontecendo, menina? — ele perguntou, arqueando uma das sobrancelhas.
Suspirei, desviando o olhar para o chão.
— Ah, sei lá, Cal só estou pensando na vida… Quando é que vou sair dessa, sabe?
Ele balançou a cabeça, com um olhar de compreensão. Ele estava na rua há mais de 20 anos, e conhecia essa sensação de impotência melhor do que ninguém.
— É difícil mesmo, menina. Depois de tudo que a gente passa, levantar é complicado. Eu já estou nessa vida há tanto tempo que… bem, julgo que vai ser assim até o fim — disse ele, sem rodeios.
Olhei para Cal, sentindo uma pontada de esperança crescer dentro de mim, mesmo que ele parecesse já ter perdido a dele.
— Você vai ver, Cal. Um dia eu ainda vou tirar a gente dessa vida. Sairemos daqui juntos. Prometo.
Ele soltou uma risada baixa, como se não acreditasse, mas seus olhos tinham uma ponta de carinho.
— Se conseguir, vou ficar feliz de ver. Mas, por mim… já fiz as pazes com essa vida aqui. Penso que esse vai ser o meu lugar até o dia que me for.
Revirei os olhos e, mordendo o pão com frango, rebati, convicta:
— Você vai ver, Cal. Ainda vamos rir de tudo isso aqui. Ainda tenho muita fé.
Ele me lançou um sorriso, balançando a cabeça, talvez se perguntando de onde eu tirava tanta esperança.
Mas, lá, no fundo, sabia: ainda tinha uma chance de fazer diferente. E se eu conseguisse, ele viria comigo.

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