Valentina abraçou gentilmente o corpinho de Tadeu e o observou, em silêncio por alguns instantes.
— Tudo bem.
O escritório de Cícero costumava ser um espaço compartilhado pelos dois no passado.
Por isso, havia duas cadeiras posicionadas frente a frente.
Só que, naquela época, Valentina estava focada em sua especialização, então a mesa vivia atulhada de grossas apostilas médicas que, agora, estavam todas guardadas na estante ao fundo.
Entre a estante e a mesa principal, havia uma meia parede dividindo o ambiente.
Valentina passou uma boa meia hora ali dentro e, por fim, acabou saindo com um livro qualquer de medicina nos braços.
Encarando o olhar de Cícero, ela murmurou: — Às vezes é bom sentir um pouco de nostalgia.
Cícero não voltou a erguer a cabeça. Manteve os olhos baixos, focado no trabalho em seu notebook. Era como se o que ela decidisse tirar dali não tivesse a menor importância para ele.
Sabendo que as chances de achar algo útil na estante eram mínimas, o olhar de Valentina recaiu sobre a mesa de Cícero, e ela caminhou até lá.
O pesado livro de medicina pousou sobre a madeira com um baque surdo.
Em seguida, ela apoiou os dedos na borda da mesa. Suas mãos eram claras e delicadas, exibindo um anel que reluzia de forma quase agressiva sob a luz.
Aquele perfume suave e familiar se aproximou novamente.
Valentina pareceu inclinar-se ainda mais em sua direção, estudando a tela do computador com um tom de voz que beirava uma curiosidade casual: — No que está tão ocupado?
A voz dela roçou a orelha dele, macia como uma névoa a envolvê-lo.
Seus longos e sedosos cabelos roçaram no ombro de Cícero, e o brilho do monitor refletia nas íris dela.
Uma mecha fina escorregou silenciosamente, caindo bem diante dos olhos dele.
Como um fio de seda.
Impossível de afastar, impossível de cortar, brilhando e provocando sua visão.
Cícero se levantou, a voz carregada de um tom insondável.
— Se você quer que eu saia, é só dizer.
Dito isso, caminhou diretamente para fora do escritório, o tecido da camisa e da calça social marcando a contração rígida de seus músculos a cada passo.
Valentina observou as costas dele enquanto se afastava. Com a maior naturalidade do mundo, sentou-se na cadeira dele e, aproveitando a oportunidade que lhe caiu no colo, pegou o mouse e começou a vasculhar cada pasta do computador.
Cícero era louco, mas ela não era.
Se a chance batia à sua porta, seria um desperdício não investigar.
...
Naquela noite, Cícero tomou uma dose alta de seus medicamentos.
O excesso de remédios o fez sonhar. Sonhou com Valentina usando o mesmo vestido de tricô daquele dia, enquanto ele a puxava pela cintura, prendendo-a contra si, por trás.
Os cabelos macios como tinta escorriam pela nuca dela. Ele se inclinava, tomado por uma devoção doentia, colando o rosto na curva de seu pescoço.
Inalando seu cheiro. Beijando sua pele. Roçando os lábios nos fios de cabelo dela.
Era um sonho, e Cícero sabia disso.
Por isso, permitiu-se ser ainda mais ousado. Seguiu a linha clara e delicada do queixo dela, subindo até que sua mão apertasse levemente o rosto de Valentina, abaixando a cabeça para tomá-la em um beijo profundo. Ele a observava soltar suspiros curtos e entrecortados enquanto a beijava, ouvindo o som úmido do contato de suas bocas.
Os lábios dela eram tão macios que, em pouco tempo, ganharam um tom avermelhado.


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