Ao ouvir sua resposta, Vitória soltou um riso frouxo, quase delirante.
Ela ria da própria trajetória. Até mesmo um homem como Cícero fora capaz de abrigar um afeto genuíno, mas ela apostara todas as suas fichas, entregara toda a sua vida nas mãos de alguém que nunca valeu a pena.
Vitória permaneceu ajoelhada diante da almofada por um longo, longo tempo.
— Em um mundo onde o forte devora o fraco, ninguém se importa com a morte dos perdedores. Eu não pedi perdão pelo que aconteceu com seus pais, e também não pedirei perdão a você. — Sua voz soou plana e desprovida de emoção. — O vencedor leva a coroa; o perdedor, a ruína. Fui destruída por alguém que eu mesma criei. Eu aceito o meu destino.
— Mas te peço apenas uma coisa, Cícero.
— Valentina e Amélia são inocentes. Deixe-as em paz.
Havia policiais batendo à porta. Vitória levantou-se sem pressa, ajeitando a postura. — Você sabe exatamente o que eu quero dizer. Poupe a Amélia e liberte a Valentina.
O sol brilhava lá fora.
A luz da manhã era espetacular e, embora o ar estivesse gélido, podia-se ouvir o canto dos pássaros.
Repassando toda a sua existência, Vitória surpreendeu-se ao constatar que sua última lembrança era a de estar no quintal com Valentina, plantando uma romãzeira. Era um momento banal: ela tomava seu chá enquanto Valentina, pequenininha em seu vestido amarelo, usava uma pá de brinquedo para cavoucar a terra, exclamando "mamãe".
Era algo tão trivial que Vitória sequer entendia por que havia guardado aquele instante com tanto carinho.
— Valentina... já sofreu demais. Ela nunca deveria ter sido arrastada para essa bagunça. Liberte-a o quanto antes e devolva o Tadeu a ela.
Dessa vez, parado no mesmo lugar, Cícero não hesitou.
— Eu o farei.
Vitória abriu a porta e caminhou para fora, pronta para encarar as consequências.
—
O Grupo Pacheco perdeu subitamente o seu eixo.
Devido aos inúmeros projetos assumidos e aos recentes escândalos, os prazos de entrega não puderam ser cumpridos.
Credores e representantes de diversas empresas sitiaram a sede do grupo. A entrada estava completamente bloqueada por pessoas exigindo pagamentos, além de uma horda de jornalistas sedentos por notícias.
Como a situação lá fora estava crítica, ele precisara implorar pela ajuda de Gualter e acabou abrindo o jogo.
De qualquer forma, já não havia mais motivos para manter segredo.
— Está com pena de mim? — perguntou Cícero, voltando a atenção para Gualter.
— E como não estar?! — Gualter fungou, soluçando a ponto de embolar as palavras. — Se eu soubesse que a sua vida era tão miserável, não teria pegado no seu pé quando éramos moleques. Minha mãe estava certa, você sempre foi um garoto de ouro, engolindo sapos para fazer justiça pelos seus pais...
— O Hugo só te contou essa parte? — indagou Cícero, com frieza. — Pelo visto, ele omitiu os outros detalhes.
Hugo se apressou em justificar: — Eu não tive tempo, Sr. Cícero...
Antes que Hugo terminasse a frase, Gualter já estava transbordando de compaixão, dizendo que seu coração sangrava por Cícero.
Com os olhos marejados, Gualter perguntou: — Tem mais alguma tragédia? Conta pra mim.
Ele tinha a expressão de quem estava prestes a assistir aos cem capítulos do drama "O Órfão dos Bessa", a saga de um menino que suportou tudo para vingar a morte dos pais.

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