Vitória a observou com uma dor profunda; seus cílios tremeram de forma incontrolável, carregando um peso indescritível.
Aqueles tinham sido os dias mais entorpecentes de sua vida.
Sem expectativas, sem esperança, sem absolutamente nada.
O tempo ocioso parecia infinito. Ela apenas existia, sem propósito, perdida em pensamentos e recordações.
Lembrando-se de toda a sua trajetória.
Tentava recordar do marido, mas a imagem dele lhe parecia apenas patética. Ao tentar pensar na filha, a única coisa que lhe vinha à mente era o rosto frio e distante de Amélia.
E então... então ela se lembrou de Valentina. Lembrou-se daquela menininha que a seguia como um cachorrinho peludo.
Na juventude, Vitória e Ignácio não cultivavam um afeto profundo. Na verdade, discutiam com frequência. A personalidade implacável dela sempre ofuscava qualquer imposição dele.
A única época em que a convivência foi genuinamente harmoniosa foi durante a infância de Valentina.
Vitória se recordava de vê-la correndo pelo quintal com o cabelo preso em duas marias-chiquinhas. Mais tarde, no ensino fundamental, vestindo o uniforme escolar, com um rabo de cavalo alto e a mochila nas costas. Todos os dias, ao voltar para casa, ela comprava lanches sem nenhum valor nutricional, como espetinhos e ovo de codorna no palito. Quando a menina acabou contraindo uma infecção intestinal, Vitória a proibiu de comer aquelas coisas.
Mas, pelo visto, ela continuava comendo às escondidas.
Depois, quando o Grupo Pacheco começou a enfrentar problemas, Vitória se sobrecarregou de trabalho e não pôde mais dar tanta atenção à garota.
Certa noite, já tarde, Vitória ouviu um barulho e desceu as escadas. Deparou-se com Valentina pálida de dor, encolhida nos braços de Cícero. Seus cabelos estavam úmidos de suor, e ela mal tinha forças para falar, a voz soando rouca.
Naquela época, Cícero havia acabado de entrar no ensino médio e ainda trabalhava como tutor para outras crianças, chegando em casa às três da manhã. Ele queria levá-la ao hospital, mas Valentina balançava a cabeça com dificuldade, implorando para que não contassem à mãe, dizendo que aquelas cólicas logo passariam se ela aguentasse um pouco mais.
No fim, Cícero a levou ao hospital mesmo assim.
E, inevitavelmente, Vitória acabou descobrindo.
Sentada ao lado do leito, vendo o rostinho pálido de Valentina, Vitória sentiu um aperto no peito impossível de descrever.
— Amélia...
— A Valentina é inocente. O Tadeu é inocente. E eu? — retrucou Amélia.
A lágrima que tremulava em seus olhos não chegou a cair, talvez por achar que a mulher à sua frente não merecia o seu choro.
— Por acaso eu não sou inocente? Os meus pais não eram inocentes? Eles eram as melhores pessoas do mundo, mas acabaram daquele jeito por sua causa, por causa daquele homem que agora está lá deitado, achando que tudo acabou.
Amélia a odiava. Odiava tanto que a queria morta.
— Se não fosse por vocês, eu nunca teria me tornado isso. E o meu irmão também não teria...
— Vocês me trouxeram de volta para esta família, mas nunca me deram valor.
— A verdade é que eu não odeio a Valentina, apenas não gosto dela. Quem eu realmente odeio são vocês... Odeio o fato de terem dado todo o amor a ela e não me terem deixado nada além de migalhas.

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