O breu do anoitecer envolvia todo o escritório, deixando o ambiente denso e obscuro. Apenas o abajur sobre a mesa emitia um feixe de luz fragmentado.
Sentado na cadeira de madeira, o homem, já de certa idade, mantinha as costas retas como uma tábua. Suas sobrancelhas estavam profundamente franzidas, e a aura ao seu redor exalava uma frieza impiedosa.
Isabella pisava leve, com o coração na boca, e murmurou:
— Pai.
As feições duras de Ricardo pareceram relaxar de propósito.
— Aonde você foi até uma hora dessas?
— Eu...
Ela não podia contar a verdade.
Se o pai soubesse que ela fora se ajoelhar e implorar piedade a Henrique Xavier, ele teria um ataque de fúria.
As famílias Xavier e Âncora mantinham uma paz de fachada, mas, nos bastidores, a guerra já havia começado.
— Eu estava me sentindo mal, então fui dar uma volta.
Ricardo acendeu a luz principal do teto.
O ambiente iluminou-se num piscar de olhos.
— Seu irmão entrou em contato?
Isabella balançou a cabeça, triste.
— Não.
A expressão de Ricardo oscilou antes de voltar à calmaria implacável de sempre.
— Venha cá, Isabella. Preciso falar com você.
Ela olhou para ele, com medo de se aproximar.
Percebendo que sua carranca a assustava, Ricardo suavizou a voz.
— Eu ando de cabeça quente ultimamente e acabei te negligenciando. O papai pede desculpas.
Quanto mais ele agia assim, mais Isabella ficava apavorada.
Ricardo sempre fora carinhoso com ela.
Mas nunca, jamais, havia pedido desculpas.
Ela andou até ele e sentou-se ao seu lado.
Ricardo pegou a mão dela.
— Isabella, eu não acabei de falar que precisamos pensar no bem maior da família? Você não ouviu?
Isabella engoliu a raiva que subia pela garganta e tentou apelar para a razão.
— Pai, você sabe do estado de saúde dela. Se virarmos as costas agora, ela vai desmoronar por completo.
— Pai, não podemos fazer isso. Nós somos uma família. Aconteça o que acontecer, temos que ficar unidos.
— Pai...
— Cale a boca! — A paciência de Ricardo tinha limite. — Você é muito ingênua!
— A cidade inteira de Rio Belo já sabe! Sua mãe tentou atropelar a nora da família Xavier!
— Todo mundo sabe que ela fez isso por vingança, que queria levar alguém pro túmulo junto com ela!
— Se Naiara fosse uma zé-ninguém, eu resolveria isso num estalar de dedos. Mas ela não é! Além de nora dos Xavier, ela é protegida diretamente pelo Comando Militar do Sul!
— Se agirmos por impulso agora, todo o império que a família Âncora construiu com suor e sangue nesta cidade será destruído da noite para o dia!
Isabella não era burra. Ela compreendia a lógica por trás daquilo.
Era o clássico embate entre a moralidade e a realidade nua e crua.
Lavar as mãos, jogar toda a culpa nas costas da mãe, e declarar à imprensa que ela havia agido por conta própria, eximindo o restante da família.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Emprestar o Meu Marido pra Ter um Bebê
A história foi ótima. Só não gostei da morte da Quitéria. Ela sofreu tanto e quando estava começando a ser feliz, foi assassinada....
O livro termina nesse capitulo??...
Cadê as atualizações?...
Não vai mais atualizar os capitulos?...
Como consigo os capítulos completos?...
como consigo ler todos os capitulos...