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Enamorar-se pelo oposto de mim romance Capítulo 5

Romão

P

assei o dia inteiro mostrando ao Jorge como funcionava a fazenda. Ele era um cara esperto e inteligente, aprendeu tudo direitinho. No final da tarde voltamos para casa, ele esperava muito ver a Cidinha, ele era apaixonado por ela desde quando ela tinha quinze anos, mas nessa idade ela ainda brincava de boneca.

O tempo foi passando, ela se transformou em uma mulher linda e mamãe insistiu para que nós namorássemos. Namoramos quando ela tinha dezoito anos, mas o namoro durou menos um ano, porque ela mudou desde que começou a estudar na cidade.

Um dia descobri que ela ficava com outro cara, terminei tudo, aliás, eu já queria terminar antes de descobrir sua traição, porque minha mãe e a Marta, nossa cozinheira e tia dela, já estavam planejando o casamento. Dei graças a Deus por ter sido corno, senão agora estaria casado.

Chegando na casa da fazenda, tomei banho no chuveiro externo e subi para meu quarto, me trocar e pegar uma muda de roupa limpa para emprestar para o Jorge. Depois de me trocar, desci para levar a roupa para ele e vi a Cidinha conversando com ele, à distância. Parecia que ele ficou “abestalhado” pela presença dela. Não queria interromper o casal, então, chamei a Cidinha para entregar a roupa para ele.

— Maria Aparecida!

Ela olhou para mim e abriu um sorriso.

— Oi!

Ela correu em minha direção.

— Entrega essas roupas limpas para o Jorge e a toalha.

Ela pagou as roupas e a toalha da minha mão e saiu em direção ao chuveiro externo. Conferi se eles estavam conversando no mesmo entusiasmo, antes de chamar a Cidinha para lhe entregar as roupas, parecia que minha presença passou despercebida.

Fui para o refeitório e a mesa já estava posta, os peões já encerraram seus trabalhos e já estavam tomando café para poderem ir para suas casas, antes que escurecesse. Sentei ao lado de mamãe que parecia agoniada com alguma coisa, ela quase não tocou na sua broa de milho.

— O que foi mamãe? Está “aperreada” com alguma coisa?

— Seu pai ainda não me ligou, ele não é de fazer isso — disse mamãe.

Achava lindo o amor que um tinha pelo outro. Sempre tão preocupados.

— Não deve ser nada de mais, lembra que ele jogou o celular na parede, não deve ter sobrado um contato vivo para contar história. Relaxa, ele vai estar aqui, logo, logo. — Coloquei café na xícara e cortei um pedaço de bolo de milho.

— É, você tem razão.

— Como é? Eu tenho o que? — Gostava de ter razão.

— Não abusa garoto, você pode ser “acavalado,” mas ainda posso te dar umas chineladas.

Caí na gargalhada e beijei o “cocuruto” da mamãe.

— Espero que um dia eu encontre uma esposa igualzinho a senhora, arretada. — Ela fez careta para mim.

— Espero que quando isso acontecer, ela possa te colocar cabresto e possa te fazer se interessar pela vida na cidade.

— Mamãe, eu não preciso dessas modernidades, está bom do jeito que está.

— Você é inteligente pode se dar muito bem na cidade, poderíamos até aumentar quitanda. Você poderia ter uma vida melhor e não ter que passar por todo esse sufoco.

— Eu vou ajudar papai na quitanda, não precisa se “aporrinhar.”

— Você poderia morar na cidade, fazer vida lá e morar com a Cidinha.

— Ora! Está parecendo até a Cidinha falando, foi ela que deu a ideia, não é?

— Ela está certa! Ela faz faculdade de administração, para quê? Administrar as galinhas?

— O que tem as galinhas? A Gabriela e a Gisele, são tão formosas.

— Mas faz tempo que elas não dão pintinhos.

— E eu tenho culpa se o Genésio não está dando no coro?

— Esse galo já está velho, já passou até do ponto de cozinhar, tem que arrumar um galo novo.

— Eu não vou sair dessa fazenda, eu quero ter os meus pés no chão, um dia vou me casar com uma mulher nascida e criada em uma fazenda, sem essas frescuras de modernidade, das moças da cidade grande.

— Diacho! Então, pelo menos, compre um galo novo.

— Quando papai voltar de viagem, eu resolvo isso.

Quando mamãe colocava alguma coisa na cabeça, não havia ninguém que tirasse.

— Pensa direitinho no que eu te falei, você pode ter uma vida melhor na cidade.

— Ora! Eu não vou ter essa conversa com a senhora, minha vida na fazenda está boa do jeito que está.

Jorge e Cidinha se ajuntaram a nós, eles pareciam interessados um pelo outro. Só esperava que Jorge conquistasse o coração de Cidinha e a fizesse largar do meu pé.

— Será que vieram me prender, por causa do Geraldo?

— Não, não pode ser, aquele canalha não teria coragem de fazer isso — falei “aperreado.”

— Eles não vieram ver o senhor Ismael, vieram ver o Romão. — Cidinha me deixou surpreso com a notícia.

— Eu? O que eles querem comigo? — perguntei preocupado.

— Será que é coisa do Geraldo? — perguntou papai.

— Eu não sei. De qualquer forma, eu vou saber o que está acontecendo — falei saindo do escritório.

— Eu vou com você filho!

Papai me seguiu até o terreiro onde estavam os oficiais. Mamãe veio atrás, mas ficou esperando na soleira porta.

— Você é Romão da Cunha Coelho?

Eu sei, trocadinho infame! Eu tinha o sobrenome daquele roedor que eu tanto detestava, mas fazer o quê?

— Sim, sou eu.

— Viemos informar sobre o falecimento do seu pai. — Quem picou a mula?

— Filho, o que está acontecendo? — Até meu pai, que estava do meu lado, não entendeu nada.

— Eles estão falando que o senhor morreu.

— O senhor é pai dele? — perguntou o policial.

— Sou pai de criação — respondeu papai.

— Então, o seu verdadeiro pai, o senhor Francisco Nogueira Ferraz, faleceu agora pouco.

— E o que isso tem a ver comigo? — perguntei curioso.

— Eu falei com o advogado dele para saber se tinha algum parente vivo e no testamento dizia que você é o único herdeiro dele — disse o policial

— Herdeiro de que?

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