Romão
Acordei antes do galo cantar, ninguém tinha levantado ainda. Fui até o estábulo, peguei o Ferrari e cavalguei até o moinho de vento, que ficava em uma montanha um pouco distante da fazenda. Precisava ficar sozinho com os meus botões e admirar a paisagem. O pôr do sol daqui de cima era espetacular! Gostava de vir aqui para pensar, ou tomar alguma decisão. Essa história de ser herdeiro de sei lá o quê, me fez ficar acordado a noite inteira. Nem conversei com a mamãe sobre isso, ela nunca me falou desse cara, talvez ela tenha seus motivos e eu não queria pressioná-la para me dizer.
O sol começou a aparecer no azul do céu, nem pareceu que choveu ontem à noite. Se não fosse pela terra que ainda estava molhada, isso passaria despercebido. Os raios de sol começaram a iluminar a fazenda. De longe dava para ver a plantação, o pomar e um pedaço da horta. Não podia aceitar que nos tirassem a fazenda, talvez eu pudesse usar o dinheiro dessa herança, para poder pagar a dívida que o sócio do papai fez e salvar a fazenda.
Senti o sol aquecer a minha pele, o dia estava raiando e precisava começar os meus afazeres. Montei em cima do Ferrari e voltei para a fazenda, para tomar meu café da manhã e começar o meu dia. Prendi o meu cavalo no toco, próximo da casa e entrei indo direto para a cozinha. Hoje era sábado os peões só trabalham a partir do meio dia.
— Você viu quem está aí? — disse Marta.
— Não, quem? — perguntei curioso.
— Aquele advogado, o Robson.
Robson era o advogado de papai, foi ele quem arrumou o Geraldo para entrar de sócio com o papai.
— O que esse filho da égua está fazendo aqui?
— Eu não sei, ele acunhou com seu pai e sua mãe para dentro do escritório.
— Ah, mas vou tirar essa história a limpo.
Levantei-me “aporrinhado,” era por causa desse cara que estamos quase perdendo a fazenda. Entrei no escritório e agarrei esse “cabra safado” pelo colarinho.
— Olha aqui, seu filho da égua, não precisamos mais de você, vamos resolver os problemas da fazenda sem a sua ajuda, porque até agora você só fez merda.
— Calma, Romão! Eu não tive culpa pelo que aconteceu, o Geraldo enganou seu pai e o fez assinar folhas em branco, para fazer o empréstimo e jogar a responsabilidade nas costas do seu pai.
— É verdade, filho. A culpa foi minha! Eu não deveria ter assinado nada — papai falou num tom de arrependimento.
— Mas, onde você estava que não impediu o papai de fazer isso? Isso é a sua função.
— Eu não sou advogado exclusivo de vocês, tenho outros clientes e é por isso que estou aqui. — Soltei o colarinho dele e olhei confuso.
— O que você quer dizer com isso?
— Francisco Nogueira Ferraz, era um dos meus clientes. — O cara que dizem ser meu pai. — Eu trabalho para seu pai há algum tempo, na verdade, eu só comecei a trabalhar para seu pai, porque eu trabalhava para o Ismael na quitanda.
— Como assim? — mamãe perguntou confusa.
— Eu conheço o seu marido desde moleque. Me formei em advocacia e Ismael herdou a fazenda do pai dele, seu Joaquim. Ismael me colocou para trabalhar com ele na quitanda, assim que eu me formei, para ajudá-lo na parte burocrática. Não sei como, mas o Francisco soube que eu trabalhava para o Ismael e me chamou para trabalhar com ele também. Isso fez alavancar a minha carreira. Trabalho para FazenTéc, a fábrica de máquinas agrícolas, em que o pai do seu filho é um dos sócios.
— Eu só tenho um pai e o nome dele é Ismael.
— Eu compreendo, mas não podemos ignorar que você é o único herdeiro de Francisco Nogueira Ferraz e você tem o direito de administrar a fábrica, junto com as herdeiras do sócio do seu pai.
— E porque só agora, eu estou sabendo desse cara, que não quis saber de mim?
— Eu só fiquei sabendo que você é filho do Francisco há poucos meses atrás, quando ele me pediu para fazer o seu testamento. Ele me pediu para não contar nada para você. — Olhei para mamãe e ela abaixou a cabeça, o que será que esse cara fez para ela, quando eram jovens? — Você precisa vir comigo, para a cidade e tomar posse da sua herança.
— Por mim, tudo bem! — disse papai e nos abraçou forte.
— Bom, vou ajudar a Marta arrumar a mesa para o café, vocês e o Robson têm muito o que conversarem — disse mamãe saindo do escritório.
Saímos logo em seguida e fomos para a cozinha, chamamos o Robson para se ajuntar a nós. Tomamos café e conversamos sobre o testamento. Evitei ao máximo de perguntar qualquer coisa sobre o meu pai biológico, para não ter que chatear mamãe.
— Você disse que vou administrar a empresa com mais duas pessoas, espero que essas pessoas saibam administrar uma empresa, pois, eu não tenho ideia do que fazer.
— Pode ficar tranquilo, elas sabem e conhecem muito bem a empresa, elas praticamente cresceram vendo o pai delas trabalhando.
— São irmãs? — papai perguntou curioso.
— Sim, Alexia e Patrícia Bitencourt, são irmãs por parte de pai, inclusive a Patrícia é sua prima.
— Uai! Eu tenho uma prima? — falei empolgado por saber dessa notícia.
Meus pais eram filhos únicos, a novidade de que tinha um parente de sangue e que iria administrar essa tal empresa comigo, era bom demais da conta.
— Ela sabe sobre o meu filho? — mamãe perguntou apreensiva.
— Ainda não, o enterro do pai delas será essa tarde e o testamento será aberto depois do enterro em uma das salas de reuniões da empresa. E falando nisso, tenho que pegar a estrada para poder chegar a tempo da leitura do testamento. — Ele se levantou e se virou para mim. — Gostaria que você se juntasse a mim na segunda-feira, para conhecer a empresa e te apresentar para suas futuras sócias. Aqui está o meu endereço. — Ele me entregou um cartão com o número de celular e endereço da sua casa.
— Claro! Eu estarei lá.

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