Num movimento automático, Bernardo tentou agarrar o braço dela mais uma vez.
Mas Cora se esquivou com agilidade.
Com um passo rápido, a figura imponente de Bernardo a prensou contra o canto da parede.
Ele a encarava de cima, as palavras transbordando crueldade.
— Você fugiu de casa só para bancar a difícil e chamar minha atenção? — Bernardo manteve a expressão de pedra, apoiando as mãos na parede ao redor dela.
Cora empurrou o braço dele.
— Você está imaginando coisas.
— Cora, esta é a última vez que eu falo. Chega de drama. Volte para casa comigo e eu vou ignorar o que aconteceu. Como eu disse... — O tom de Bernardo denunciava que sua paciência estava no fim.
— Eu não vou voltar. — Cora cortou a frase dele, com uma recusa inabalável.
O silêncio reinou entre os dois.
Bernardo apenas a encarou.
Aquela versão de Cora o fazia sentir como se estivesse olhando para uma completa desconhecida.
E aquilo estava esgotando cada pingo de sua paciência.
Os lábios dele se apertaram, todos os músculos de seu corpo retesaram, e foi exatamente nesse instante que o celular vibrou.
Ambos viram no visor: era uma ligação de Adelina.
Bernardo atendeu sem hesitar.
— Bernardo, estou me sentindo um pouco mal... — a voz melosa e frágil de Adelina ecoou. — Você pode vir ficar comigo? Não estou com vontade de comer nada, não paro de enjoar, o bebê está muito agitado. Sabe do que eu lembrei? Daquele prato de macarrão com carne lá da zona sul.
Cora e Bernardo estavam muito próximos, então ela pôde ouvir cada palavra perfeitamente.
Num instante, o toque áspero de Bernardo desapareceu, e sua voz se tornou dócil:
— Daqui a pouco eu chego aí, vou passar lá e levar a comida para você.
— Ah, obrigada! — Adelina respondeu. — É que eu me sinto tão culpada... Você passou tanto tempo comigo. Não acha melhor ir ver a Cora? Tenho medo de que ela fique com raiva de mim, afinal, ela é que é a verdadeira Sra. Pereira.
Enquanto falava, Adelina fez questão de soar novamente como uma vítima.
Cora teve que se segurar para não bater palmas para aquele espetáculo.
A atuação era tão boa que, se Cora entrasse no clima, até começaria a acreditar que era mesmo uma vilã atormentando a pobre Adelina.
Mesmo sendo a única prejudicada na história, todos ao redor sempre acabariam acreditando na inocência da outra.
Ele agarrou o colarinho da blusa dela, erguendo-a do chão sem o menor esforço.
— Não abuse da sorte! Se eu estou tentando ser legal, você deveria agradecer. Quem você pensa que é para se comparar a ela?! — Ele explodiu, perdendo o controle de vez.
Cora deu um sorriso silencioso e carregado de ironia. Puxou a mão dele para longe e caminhou em direção ao elevador sem expressar mais nenhuma emoção.
Bernardo ficou plantado no mesmo lugar.
A porta do elevador se fechou.
Cora abaixou os olhos, mergulhando em um silêncio profundo.
Ela se arrependeria? Não sabia dizer.
Mas tinha a absoluta certeza de que, se continuasse naquela relação doentia, acabaria perdendo a sanidade.
Ela precisava se libertar de Bernardo e da Família Pereira.
Esse desejo a sufocava com cada vez mais intensidade.
Sua respiração tornou-se pesada.
Ao entrar no apartamento, Cora caminhou até a janela e chegou a tempo de ver o carro de Bernardo sumir em alta velocidade no horizonte.

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