Bernardo continuou a observá-la com serenidade.
Foi nesse momento que a voz de Noelia ecoou do lado de fora:
— Cora, Cora, cadê você?
As palavras carregavam o indício de um choro prestes a desabar.
Cora reagiu num rompante:
— Estou aqui, não chore.
Com isso, ela correu para o lado da pequena.
Bernardo não perdeu um único movimento de vista.
Pensou que qualquer um, ao testemunhar tamanha ternura, não duvidaria do forte elo entre ambas.
Por uma fração de segundo, a hipótese insólita que rondava a sua mente ganhou ares de convicção.
Bernardo manteve-se inerte no lugar.
Cora já estava ao lado de Noelia, embalando-a com suavidade.
— Eu estou aqui, não precisa ter medo — a mão de Cora pousou instintivamente na testa da menina. — Olha, a febre passou. Daqui a pouco o Tio Doutor vem te examinar.
Quando doente, Noelia ficava caprichosa e grudava em Cora como um carrapato.
E Cora cedia a esses mimos sem a menor ponta de irritação.
— Cora, a minha barriga tá roncando — Noelia resmungou com denguice.
Antes que Cora pudesse responder, Noelia notou Bernardo se aproximando com o café da manhã.
Ele havia trazido um mingau de painço simples, acompanhado de massa frita e picles de mostarda, petiscos que faziam a alegria das crianças.
Noelia piscou os olhos curiosamente:
— Bernardo, você comprou pra mim?
Bernardo assentiu:
— Comprei. Você precisa comer para ficar forte e sarar logo, não é?
Noelia concordou obedientemente com a cabeça.
Cora observava a cena, paralisada.
De súbito, o papel de confortar a menina fora transferido para Bernardo.
E Noelia demonstrava uma doçura exemplar na presença dele.
Até mesmo o mal-estar passou despercebido enquanto ela comia em silêncio.
Diante dessa imagem, Cora não articulou uma palavra sequer.
Só quando Noelia terminou e abriu um sorriso largo para Bernardo, o silêncio se quebrou.
Bernardo permaneceu inerte, sem esboçar qualquer movimento para impedi-las.
Não havia pressa.
Ele tinha certeza absoluta que mais cedo ou mais tarde a Cora ia correr atrás dele.
Após certificar-se de que Cora e Noelia haviam entrado no elevador, Bernardo caminhou sem pressa até o seu.
Ao entrar em seu apartamento, largou o paletó displicentemente sobre o sofá.
Desabotoou a camisa e arregaçou as mangas em um gesto trivial.
Em seguida, discou novamente o número de Sérgio Lira.
— Cara, você sabe que horas são? — a irritação transbordou na voz de Sérgio.
— Dez e quarenta da manhã — Bernardo retrucou de imediato.
Sérgio revirou os olhos:
— Aqui em Paris são quatro e quarenta da madrugada! Tenha um pouco de compaixão!
Havia se deitado às três da manhã e fora arrancado da cama às quatro e quarenta pelo chamado inoportuno.
Qualquer um enlouqueceria com isso.
— Preciso de um favor — Bernardo foi conciso.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Encurralada pelo Meu Ex-Marido Obsessivo
Não entendi nada pq o diálogo dessa negociação mudou para essa linguagem nórdica....