POV CELESTE
— Ele é tão adorável — sussurrou minha irmã Lillian, referindo-se a Wade, que estava brincando com seus blocos de Lego no chão. Kriss estava com ele, ajudando a construir um castelo.
Lillian pegou um pedaço de pizza da mesa de centro da sala e deu uma mordida generosa. Ela tinha chegado esta manhã com seu novo namorado, Kriss.
— Quem? O Kriss ou o Wade? — perguntei brincando.
Ela franziu a testa e coçou seu cabelo longo e ondulado azul acinzentado com mechas prateadas. Mamãe e eu ficamos assustadas assim que vimos o cabelo dela. Não nos importávamos que ela usasse perucas e fantasias de anime.
— Você sabe que estou falando do Wade — disse ela sorrindo, com um brilho nos olhos que me fez suspeitar do que estava tramando com Kriss.
— Você está muito apaixonada. Dá pra ver.
— Aham... — deu outra mordida grande na pizza e olhou para Kriss. Eu vi que Kriss olhou de volta e piscou para ela.
Tomei um gole do meu suco de laranja recém-feito e esfreguei a barriga. Olhei para o relógio de parede: já eram 17h30. Eros chegaria em poucos minutos, de helicóptero. Tinha ido para o escritório em Nova York de manhã. Não podia se ausentar por muito tempo.
— Adivinha... Vou dar o meu... — sussurrou Lillian. Na hora olhei pra ela de olhos arregalados.
— O seu o quê?
— Hum... esquece — disse ela, sorrindo e mordendo de novo a pizza.
Ela estava falando da virgindade dela? Ah, não.
— Lillian. O que foi?
— Shh. Depois.
— Seja o que for, não faz isso! Você ainda é nova, acabou de fazer dezoito.
— Justamente. Tenho dezoito e sei o que estou fazendo, tá... — revirou os olhos e bebeu a lata de refrigerante.
— Ah, não, Lillian.
— Ah, sim — disse ela, pegando alguns Cheetos e comendo.
Eu não conseguia aceitar isso. Não, não podia permitir.
— Quando vai dar?
— Eh... talvez hoje à noite.
— Hoje à noite?! — Não, não podia ser. Kriss deveria ir embora hoje. — A mamãe vai ficar furiosa se souber disso.
— Não vai, não. Eu já contei pra ela. E ela concordou. Já está na hora.
— O quê?! Tem certeza?
Eu estava esperando a resposta da Lillian quando Kriss se sentou ao lado dela no sofá grande e passou o braço pela cintura dela, fazendo cócegas. Ela ria muito nos braços dele... até que caiu, rolando no chão. Kriss foi atrás e começaram a se fazer cócegas de novo.
— Eu também, eu também! — Wade se juntou aos dois. Lillian fez cócegas nele também, e ele riu. Mas eu não deixei de ver os beijos que Kriss roubava da Lillian de vez em quando.
Eu estava incomodada. Muito incomodada com esses dois.
Convidei Lillian para vir à Geórgia e passar a noite com a gente. Queria que ela ficasse comigo e Wade, já que Eros viajaria sozinho pra Nova York. Não esperava que ela trouxesse o Kriss; pensei que ele estivesse na Grécia.
Eros chegou na hora do jantar. Parecia exausto. Nem se incomodou em trocar de roupa.
— Estou morrendo de fome. O dia no escritório foi puxado, muitas reuniões. E ainda chegou um investidor italiano e não tive tempo de almoçar. Comi um sanduíche lá pelas duas — disse Eros, dando uma mordida no bife. — Hmm... está delicioso. Foi você que fez, amor?
— Sim. Que bom que gostou —. Agora eu adorava cozinhar para o Eros. Desde que nos casamos, andava praticando receitas diferentes. Assistia vários programas de culinária no YouTube e na TV.
— Você é um homem de sorte. Minha mulher devia aprender a cozinhar, porque eu sou um desastre na cozinha. Só sei ferver ovo — disse Kriss, olhando para Lillian e piscando. Ela colocou a mão sobre a dele e apertou.
— Igual à sua mãe. Sua tia queimava até ovo cozido — disse Eros, e todos riram. Menos eu. Eu estava de olho nos dois. Eles estavam de mãos dadas, palma com palma. Eu vi Kriss acariciando lentamente a palma da Lillian... de forma sensual.
— Ei, Kriss. Por que não fica aqui hoje à noite? Podemos jogar xadrez depois. Vai que você dá sorte e me ganha — sugeriu Eros.
Ah não! Eros, NÃO. Eu não podia deixar Kriss dormir aqui, em um dos quartos de hóspedes... com Lillian no quarto ao lado.
— Claro. Eu adoraria — respondeu Kriss na hora. — Vou te ganhar.
— Mas... mas você disse que o Taylor viria cedo amanhã e que ia buscá-lo no aeroporto — falei, virando para Kriss.
— Ele ligou faz pouco. Não vai poder vir. Não pode deixar a Shirley sozinha na Nova Zelândia.
— AH — Eros tinha me contado que Taylor e Shirley estavam se dando muito bem. Depois de anos se odiando, perceberam que estavam apaixonados. Fiquei feliz por eles. Shirley estava agora com Taylor na Nova Zelândia.
— Ótimo! Não vou deixar você me vencer — disse Kriss. Eros riu.
— Amor, o helicóptero está pronto, esperando pra levar Kriss de volta pra Nova York — falei para Eros.
— É mesmo. Esqueci. Vou ligar pro Max, pra ele ir embora agora.
Mas o plano de Eros e Kriss jogarem xadrez não aconteceu. Kriss estava brincando de queda de braço com Lillian, e dava pra ver que ele deixava ela ganhar. Eros estava brincando de LEGO com Wade, montando uma nave espacial. E eu estava ali, só olhando.
Não conseguia tirar os olhos de Kriss e Lillian. Eram muito grudados. Brincando e se tocando. Rindo e se tocando. Conversando e se tocando.
Depois de uma hora, Eros se levantou e pegou minha mão, puxando-me para a escada. Queria que fôssemos dormir cedo e deixássemos os outros lá embaixo. Mas eu estava com receio de subir. Não queria deixar Lillian sozinha com Kriss.
— Vai você. Eu fico aqui. Ainda não estou com sono — falei para Eros.
— Eu também. Não estou com sono — disse Wade. Ele estava brincando com o cachorro.
— Tá bom. Vamos ficar mais um pouco então — disse Eros, voltando pro sofá e encostando a cabeça na almofada.
Kriss e Lillian continuavam brincando. Wade estava com eles, imitando os movimentos. Estavam se divertindo muito. Eu também estava gostando de ver.
Ouvi alguém roncando alto. Era o Eros, que já tinha pegado no sono ali do meu lado.
Ai, que insensível eu sou. Ele estava tão cansado. Já era hora de subir e dormir.
*
—Amor, não acho que seja uma boa ideia o Kriss passar a noite aqui hoje.
—Por quê não? — Eros tinha acabado de sair do banho. Estava vestindo uma calça de moletom cinza e uma camiseta branca.
—A Lillian está aqui, e ele é o namorado dela. E se, no meio da noite, eles invadem o quarto um do outro?
—Kriss não vai fazer isso. Vai se comportar — disse ele, já deitado na cama ao lado do corpo adormecido de Wade, com o braço sobre a testa.
—E se ele não se comportar? Eu não confio nele, amor.
Eros se levantou e foi até a porta, meio cambaleando.

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