POV CELESTE
—O que aconteceu com seu olho? — Me surpreendi ao ver o olho direito de Wade tão vermelho. Ele estava com a roupa suja e o cabelo bagunçado.
Eu estava na cozinha experimentando uma nova receita quando ele entrou pela porta, segurando seu skate.
—Não é nada, mãe — disse ele, e saiu correndo da cozinha.
—Ei! Nada disso. Volta aqui — gritei.
Ele voltou, encolhido. Estava com a cabeça baixa e evitava me encarar.
Sequei as mãos e fui até ele. Levantei seu queixo e examinei seu rosto. O olho direito estava vermelho e a pele ao redor estava roxa, ficando cada vez mais escura.
—Você está com um olho roxo!
Ele afastou o rosto das minhas mãos e se distanciou.
—Não é nada, mãe — disse, me lançando um olhar de cachorrinho, o que me deixou com pena. —Nem está doendo.
—Sério mesmo, superman? Vem aqui, vamos colocar gelo nesse olho.
Ele se sentou em um banquinho e esperou.
—Quem fez isso com você?
Ele não respondeu e continuou evitando meu olhar.
—Wade. Quem fez isso com você? — perguntei de novo. Tinha certeza de que ele tinha brigado com os meninos da vizinhança, e isso era bem preocupante. Deixávamos ele andar pelo bairro porque era o mais seguro de Nova York. Havia guardas e câmeras por todo lado. Ele tinha dez anos e precisava de um pouco de liberdade pra crescer.
—Ninguém, mãe.
—Como assim ninguém? Você não leva um soco no olho se ninguém te bateu.
—Você vai contar pro pai? — disse ele, nervoso.
Suspirei.
—Claro. Ele precisa saber.
—Ele vai ficar bravo — disse, com o rosto cheio de preocupação.
—Não. Ele não vai ficar bravo. Seu pai é o homem mais compreensivo.
—Espero que sim.
—Então, quem fez isso?
—Ninguém. —Deu de ombros e desviou o olhar de novo. —Eu bati numa árvore.
Estava mentindo.
*
Eros chegou naquela noite exausto. Tinha tido um dia cheio. Estávamos sentados à mesa prontos pra jantar.
—Hmm… isso parece delicioso. Receita nova, amor? — disse ele, me olhando com brilho nos olhos.
—Sim.
—O cheiro me deu fome.
—Pra mim também! — disse Esmeralda, tentando chamar nossa atenção.
O sorriso de Eros sumiu de repente.
—Onde está o Wade?
—Ahm… está no quarto. Disse que não estava com fome — respondi.
—Está doente?
—Não.
O rosto de Eros mudou. Ficou sério, os olhos endureceram e ele apoiou as mãos na mesa. Eu conhecia bem aquela expressão. Ele fazia isso quando algo o incomodava.
—Temos uma regra: comemos juntos — disse.
—E comemos legumes! — gritou Esmeralda.
—Sim, querida — respondeu Eros, voltando o olhar pra mim. —O que ele fez dessa vez?
—Te conto depois do jantar, tá bom?
Ele soltou um suspiro forte.
—Não. Manda ele descer ou eu mesmo vou buscá-lo.
—Amor, deixa ele. Ele está mal agora.
—Tô falando sério — disse Eros.
—Eu também!
—Ih... estão brigando? — perguntou Esmeralda, com os olhos arregalados.
—NÃO — respondemos juntos.
—É por causa do olho roxo do Wade? — disse Esmeralda inocente.

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