POV WADE
Eu estava com os fones de ouvido, cantarolando a música do Justin Timberlake — Can't Stop the Feeling.
— Hoje o senhor está de bom humor — disse Erickson, me olhando pelo retrovisor do carro com um sorriso.
Tirei os fones para ouvir o que ele dizia.
Erickson era um dos motoristas da nossa família, tinha uns trinta anos. Estava conosco há muitos anos, então era quase da família. Na maioria das vezes, era ele quem me levava e buscava da escola.
— É o último dia do trimestre. Vamos ter duas semanas de férias — respondi, depois que ele repetiu o que tinha dito.
— E não vai precisar acordar tão cedo — respondeu Erickson.
— Alguns dias sim. Vou colocar o kickboxing em dia de manhã com meu pai.
— Que cansativo.
— Já estou acostumado. E além disso, só duas vezes por semana — falei, olhando as crianças indo para a escola de patinete.
— Que bom. Seu aniversário está chegando, né? Vai ter seu próprio carro, finalmente.
— Sim, vou.
— Isso significa mais liberdade pra você.
— Tomara. Bom... Vou poder ir onde quiser — sorri ao pensar nisso. Talvez saísse da cidade para fazer uma road trip ou fosse nadar.
— E vai poder levar a namorada junto — ele riu.
— Não tenho namorada — guardei os fones e o celular na mochila.
— Ah, vai... E aquela garota que me mostrou no celular? Muito bonita.
— Não. Não estamos namorando.
— Achei que estavam — vi ele franzir a testa no espelho dianteiro. — Quando eu tinha sua idade, saí com muitas garotas.
Assenti, rindo.
— É, você já me contou. Eu não sou assim, Erickson. Não quero machucar ninguém.
— Você não machuca ninguém. Só está sendo generoso, dividindo seu tempo com elas.
— Dividir — não consegui evitar sorrir quando saí do carro.
— Oi. Como foi o dia? — Apagar. Apagar. Apagar.
— O que você está fazendo? — Apagar. Apagar. Apagar.
— Está mandando mensagem pra quem? — perguntou Leonidas enquanto comia frango com manteiga. — É pra uma garota nova?
— NÃO. É pra minha mãe?
Ele franziu a testa e limpou a boca cheia de molho laranja.
— Está me perguntando?
Tossei e falei firme:
— Quer dizer... pra minha mãe.
Leonidas assentiu e terminou de comer em silêncio.
— Rápido, galera, vamos nos atrasar — disse Ismael algum tempo depois, acabando o refrigerante.
— Vão vocês. Tenho que ir no banheiro tirar essa mancha laranja da boca. Estou parecendo uma cenoura falante — disse Leonidas e saiu.
Ismael e eu estávamos indo pra sala quando vimos Carla. Hoje ela estava diferente. Sem franja.
Queria falar com ela, mas era impossível com Ismael por perto. Ele sabia que não era do meu jeito cumprimentar garotas no corredor e ser muito amigável. Ia desconfiar e entender tudo errado.
Ismael e Leonidas iam descobrir meu segredo de qualquer jeito. Mas eu ainda não estava pronto. Ia contar quando começassem os ensaios.
*
— Você está linda... — Apagar. Apagar. Apagar.
Estávamos na sala mandando mensagens, esperando o professor. Ismael fazia o dever da próxima aula.
— Oi, Carla. Adorei seu cabelo hoje.
— Ei! Tá mandando outra mensagem pra sua mãe? — Leonidas me cutucou no ombro.
Me pegou de surpresa e acabei enviando a mensagem sem querer. Merda!
Virei o celular com a tela pra baixo. Ele estava atrás de mim. Me perguntei se tinha visto a mensagem.
Ele vai me matar.
De repente, o celular vibrou.
— Quem é? Tá escondendo alguma coisa? — perguntou Leonidas, curioso.
— Do que você tá falando? — respondi.

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