POV WADE
Era segunda-feira. Leonidas e eu fomos à casa de Ismael para passar um tempo juntos. Jogamos videogame, sinuca, pebolim, futebol e assistimos a vídeos no YouTube. Ali, o irmão mais novo de Ismael, que tinha catorze anos, juntou-se a nós.
Estávamos assistindo a vlogs de viagem no YouTube, no quarto de Ismael, na TV de 89 polegadas dele, quando Ali me perguntou em segredo:
— Posso pedir o número da Esmeralda?
— Não. Se ela souber que passei o número, vai estourar uma guerra civil lá em casa — respondi.
— Ah, tá. — Ali deu de ombros. — Como é ter uma irmã tão bonita?
Franzi a testa. Esmeralda? Muito bonita?
— Nada. Acho ela chata.
— Sério? Eu acho ela fofa.
Balancei a cabeça. Está apaixonado. Que azar. Ela vai acabar com a tua vida. Ali é bom demais para Esmeralda.
Leonidas se sentou do nosso lado, fazendo Ali parar de falar.
— Ei, Ali, traz pra gente mais um pote de Tostitos com queijo?
— Claro. Vou pegar mais uma tigela de tacos também. — Ali se levantou e saiu do quarto.
— Valeu, mano — gritou Leonidas para ele.
— O que ele tá fazendo? — perguntei a Ismael, que de repente ficou muito quieto. Estava concentrado no que fazia no iMac.
— Não sei. Talvez vendo pornô — riu Leonidas.
Me levantei e fui até Ismael. Ele estava no F******k, olhando a foto da Carla.
Senti meu coração parar. Ela estava tão linda. Seus olhos castanhos brilhavam como fogo. Seu cabelo longo e escuro e a franja se moviam com o vento, revelando o rosto oval bonito.
Uma onda repentina de emoções me atingiu. Inveja. Tristeza. Um peso no peito, como se eu carregasse um caminhão cheio de pedras.
Carla e eu nem éramos amigos no F******k. Nunca fui muito ativo em redes sociais. Preferia dedicar meu tempo ao esporte.
Mas me perguntei o que aconteceria se eu mandasse um pedido de amizade. Ismael faria muitas perguntas e começaria a desconfiar.
— Vou mandar uma mensagem pra ela. Ela tá online — disse Ismael, digitando “Oi” no chat do F******k Messenger.
Vi Carla respondendo.
— Oi — para Ismael.
Me afastei. O desconforto era insuportável. Era demais.
— Preciso ir — falei, me levantando. Leonidas levantou a cabeça.
— Por quê? Ainda tá cedo — disse ele, olhando pro relógio na parede.
— O Charles mandou mensagem. Vamos sair pra comprar jogos — inventei, mas era meio verdade.
— Faz isso amanhã. Teu primo vai ficar contigo, né? — disse Ismael.
— Sim, mas tenho que ir, meu pai vai com a gente. Vejo vocês depois.
— Você tá bem? — perguntou meu pai quando levava Charles e eu à loja de videogames.
— Tô sim.
— Não parece — insistiu meu pai.
— Ele tá assim desde que chegou em casa. Parece cansado e não fala — disse Charles, que estava no banco de trás e se inclinou pra frente. — Deve ter pego um vírus.
— Que vírus? — A voz de papai ficou aguda.
— O vírus do amor — disse Charles como se eu não estivesse ali. — Tem todos os sintomas. Olhar perdido. Desorientado. Calado.
— Cala a boca, Charles — rosnei, rangendo os dentes.
Meu pai riu.
— Isso aí, puxou ao pai.

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