POV WADE
Não conseguia dormir. Estava muito animado para ver a Carla amanhã. Faziam três dias desde a última vez que a vi e era meio estranho. Sinto falta dela.
O sorriso dela. Os olhos dela. O cabelo dela. As expressões dela. Tudo nela.
Queria mostrar a ela os lugares onde estive com meus pais, para fazê-la feliz. Não queria que ela se sentisse sozinha. Me incomodava saber que ela estava sozinha em casa.
Fui até a cozinha beber leite. Esmeralda estava lá com Athena. Estavam fazendo churros.
— Oi, achei que você já estivesse dormindo. Quer provar um? — disse Esmeralda, apontando para o prato de churros.
Peguei um e tirei o excesso de canela e açúcar antes de comer.
— Não está bem cozido por dentro.
— Oh! Experimenta este — Esmeralda pegou um churro recém-feito e enfiou na minha boca.
Estava tão quente que queimou minha língua. Cuspi imediatamente.
— Por que você fez isso?
— Ops... desculpa. Não está uma delícia?
— Nem tanto. Está muito passado — respondi, abrindo a geladeira e pegando a garrafa de leite.
— Uau, aconteceu um milagre. Você não ficou bravo comigo — disse Esmeralda.
— Não me provoca — falei, colocando a caneca de leite no micro-ondas.
Fui até a varanda para ficar sozinho e limpar a bagunça da mesa.
— Está tudo bem? — perguntou minha mãe.
— Tudo ótimo — respondi sorrindo.
— Você parece feliz.
— Estou feliz — me recostei e apoiei os pés na mesa.
— Hmm... E aquele seu amigo? Conseguiu resolver o problema?
— Ah, isso — dei de ombros e sorri largo. — Acho que sim.
— Que bom — minha mãe retribuiu o sorriso e piscou antes de sair da varanda.
Balancei a cabeça, sorrindo. Minha mãe e seu olhar brincalhão. Era verdade. As mães sempre têm razão.
Lembrei de quando contei para minha mãe sobre meu problema com Carla e o conselho que ela me deu. Foi aí que percebi que gostava muito da Carla. Sentia culpa por trair meu melhor amigo, Ismael. Estava muito confuso e isso me levou a dar vários foras na Carla. Foi uma péssima ideia. Me senti muito mal.
[Flashback]
— Por que ainda está acordado? É tarde. Amanhã tem aula cedo — disse minha mãe quando me viu descendo correndo as escadas.
— Não consigo dormir — respondi, passando por ela e indo até a varanda para pegar um pouco de ar fresco. Talvez ajudasse a clarear a mente.
— Por quê? — perguntou minha mãe, me seguindo.
— Não sei — respondi.
— Aconteceu alguma coisa?
Dei de ombros e me sentei numa cadeira de vime, apoiando os pés na mesa central.
— Vou trazer um pouco de leite. Vai te ajudar a dormir — disse, se virando e saindo.
A verdade? Estava muito preocupado. Já fazia dias.
Não conseguia parar de pensar na Carla... e isso estava ficando estranho.
Tudo começou no quadro de avisos, quando nossos olhares se cruzaram por um segundo. Fiquei surpreso com a rapidez com que meu coração disparou. Senti algo despertar dentro de mim.
O episódio na cafeteria me fez pensar ainda mais nela. Eu estava acenando para a Lara quando meus olhos encontraram os dela. Não consegui desviar o olhar. Ela estava tão linda, sentada, comendo e me lançando olhares rápidos.
O dia que a vi dormindo na sala de teatro, fiquei ali parado por vários minutos só olhando. Percebi que poderia ficar observando ela para sempre. E quando a salvei no corredor, senti que era meu dever protegê-la. A sensação de não querer soltá-la era muito forte. Queria que ela ficasse... nos meus braços, para sempre.
Mas tive que soltá-la. Rápido. Por Ismael.
Ismael não gostou de eu ter salvado a Carla. Era para ele ser o herói dela. Não eu.
Por isso evitei a Carla. Não gostava do que sentia por ela. Parecia errado. Como trair meu melhor amigo, Ismael.
— Aqui está o leite — voltei ao presente quando ouvi a voz da minha mãe atrás de mim. Ela colocou o copo de leite na mesinha. — Cuidado, está quente.
— Obrigado, mãe.
Ela bagunçou meu cabelo com carinho.

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