Ele me olhou demoradamente, como quem pesa cada sílaba antes de soltar.
— Não é da sua conta.
A frieza de sua voz foi como um balde de água gelada despejado sobre mim. Parte de mim queria responder, gritar, jogar de volta cada migalha de desprezo que ele me oferecia. Mas não fiz nada. Apenas respirei fundo e engoli o gosto amargo que subia pela garganta. Gael virou as costas e saiu, batendo a porta com força suficiente para fazer o berço tremer.
O barulho acordou Bruno, que começou a chorar. Peguei-o nos braços, balançando suavemente.
— Ei, meu amor, não chora… a culpa não é sua. É daquele seu pai… idiota e… e… — minha frase se perdeu quando ele soltou uma risadinha inesperada, como se tivesse entendido e acabei rindo com ele.
A madrugada foi um borrão de mamadeiras, choros e silêncio. Quando finalmente amanheceu, percebi que não tinha saído do quarto dos meninos. Dormi mal, encolhida na poltrona, com o baby doll amarrotado e manchado de leite. Um perfume adocicado, ainda pairava no ar provavelmente trazido por Gael na noite anterior. A ironia era cruel: minha primeira noite como esposa foi passada cuidando de dois bebês que nem eram meus, enquanto meu marido se divertia com outra mulher.
Depois de um banho rápido, vesti um vestido simples que havia trazido da casa da minha avó. Desci as escadas guiada pelo som de vozes vindo da sala de jantar.
Gael estava sentado à cabeceira da longa mesa de mármore, concentrado em algo no tablet. Ao lado dele, Paulina Vieira impecável, como se já estivesse pronta para uma sessão de fotos. Uma blusa branca justa, maquiagem perfeita e aquele sorriso satisfeito que parecia feito sob medida.
Por um instante, pensei em voltar para o quarto e fingir que tinha me perdido no caminho. Mas não podia viver me escondendo.
— Bom dia. — Minha voz saiu firme, ainda que baixa.
Paulina me analisou de cima a baixo, como quem avalia um produto defeituoso. O sorriso dela se contraiu, tornando-se algo quase imperceptível, mas carregado de veneno.
— Que surpresa ver você acordada tão cedo. Achei que estivesse… ocupada com as crianças.
Gael não levantou os olhos.
— Francisca vai cuidar deles esta manhã — disse, seco, como se eu fosse apenas mais um detalhe sem importância.
Sentei-me na extremidade oposta da mesa. Uma das empregadas trouxe café e pão fresco. Paulina continuou:
— Você sabe trocar fraldas? — perguntou, como se estivesse me entrevistando para um emprego. — Bebês sentem quando a pessoa não tem jeito… e choram ainda mais.
Levantei os olhos e sorri com calma, sem me deixar atingir.
— Estou aprendendo. Ontem à noite nos entendemos muito bem. Eles dormiram tranquilos.
— Bom dia, meu amor… — falei, pegando-o no colo.
Breno acordou logo depois, esfregando os olhos com as mãozinhas fechadas. Equilibrei os dois nos braços, sentindo aquele calorzinho de vida contra meu peito. Foi quando aconteceu.
— Mamã… — Breno murmurou, ainda meio sonolento.
Fiquei estática e senti meu coração errar uma batida.
— O que você disse? — perguntei, quase sussurrando.
— Mamã… — repetiu, e então encostou a cabeça no meu ombro, como se buscasse abrigo.
Não sei explicar o que senti naquele momento. Talvez fosse amor, talvez fosse apenas um instinto de proteção. Mas foi como se, em um único segundo, todos os olhares frios, as humilhações e o desprezo de Gael perdessem importância.
Aquele bebê, que mal me conhecia, me chamou de mãe. Talvez por confusão, talvez por carência… mas, para mim, soou como um pedido silencioso: Fica comigo.
Foi então que ouvi passos firmes no corredor. Quando me virei, Gael estava parado na porta, observando a cena.

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