Ravena
Lembro-me de ter sido atacada, mas não consigo recordar como cheguei até aqui. Durante a noite, ouvi vozes ao longe e procurei por Lina, mas, como sempre, ela só me respondia quando queria. A porta se abriu e Angel entrou, sempre com aquele sorriso capaz de despertar o melhor nas pessoas. Ainda não entendia como isso era possível. Estávamos construindo algo, uma amizade, uma parceria, algo que eu não sabia rotular.
Como sempre, ela me convenceu a me juntar a eles, O aroma no quarto era inconfundível, uma mistura suave de lavanda com algo amadeirado que parecia preencher cada canto. Perguntei se Angel o sentia, ela respondeu:
— Ajax se recusou a sair do seu lado — disse Angel, sorrindo com suavidade. — É dele que você sente o cheiro.
A revelação me desestabilizou. Um calor inesperado percorreu meu corpo, e Lina reagiu, inquieta dentro de mim, como se fosse afetada de forma ainda mais intensa.
Enquanto descia as escadas com Angel ao meu lado, sentia a inquietação de Lina, e meu coração batia descontroladamente. Quando cheguei lá embaixo, alguém se levantou, e eu percebi que era Ajax. Uma força inexplicável me puxava em sua direção.
— Companheiro — as palavras saíram de minha boca sem que eu pudesse controlá-las.
Mas antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, o caos tomou conta. Lycans atacavam outras alcateias. Meu coração disparou ao imaginar Ajax indo onde os Lycans estavam. Não consegui conter o medo que tomou conta de mim.
No meio disso tudo, Logan e Isabella discutiam de forma acalorada, suas vozes ecoando acima do tumulto e atraindo a atenção de todos. Por um breve instante, parecia que até o caos parou para ouvi-los.
Então, como se um comando invisível fosse dado, cada um seguiu rapidamente para suas designações, deixando apenas eu e Angel para trás, encarando o rastro de tensão que permanecia no ar.
— Parece que seremos só nós duas — disse Angel de forma carinhosa, mas via o medo em seus olhos refletindo o meu. Nossos companheiros indo para uma batalha, e nossa filha também.
— Eles ficarão bem — tentei passar segurança em minha voz, mesmo que a dúvida estivesse ali.
Ainda tentava entender o conceito de segunda chance. Mason sempre foi meu companheiro, mas algo no cheiro de Ajax me atraía. Pensar nele fazia Lina se agitar, como se ela já tivesse aceitado a ideia antes de mim.
Passaram-se um tempo, Angel e eu estávamos na sacada de Isabella, que dava para frente da casa. Olhávamos para o horizonte, na esperança de que todos retornassem em segurança e o mais rápido possível, quando ouvi uma voz me chamando através da conexão. Alguém que nunca pensei ouvir.
— Isabella? Algum problema? — Só devia haver um problema, pois ela nunca me procuraria se não fosse tal situação.
— Minha mãe Angel corre perigo. Preciso da sua ajuda.
Por um instante fiquei parada sem entender. Angel estava bem ao meu lado. Não via nenhum perigo iminente.
— Se acalme, Isabella, e me explique, por favor. — Decidi sair por um instante de perto de Angel. Eu não sabia como ela fazia isso, mas ela era muito perspicaz até mesmo quando usávamos a conexão.
Isabella rapidamente me explicou sobre Noah, filho de Vincent. Dandara e eu já havíamos colhido todas as informações deles, estávamos em seu rastro já há algum tempo.
— E ele mencionou o motivo de Vincent querer Angel? — Nesse instante, a preocupação já havia tomado conta de todo o meu ser, não só por Isabella, mas por Angel, uma pessoa que tem ganhado um papel importante em minha vida e em meu coração.
— Não. — Ela suspirou em derrota.
— Se conecte com Gabriel, para que ele te acompanhe até Crescente Moon. — Nesse instante, já havia entrado em meu modo Rainha. — Avisarei Apolo e ordenarei para Dandara retornar. Ninguém levará Angel.
Lina rugiu ao final de minhas palavras. Ela também admirava Angel. Isabella assentiu, sentia seu medo, e tentei tranquilizá-la. Antes de encerrar a conexão, disse:
— Tenha cuidado, minha filha.
Não esperava que ela me aceitasse ou me chamasse de mãe, mas queria que soubesse que meu amor e preocupação eram genuínos.
Ela agradeceu e logo encerrou a conexão. Me lembrei que não tinha vínculo com Apolo, não poderia contatá-lo. Pensei em Ajax, com o vínculo de companheiro, tínhamos essa conexão. Por um instante, seu cheiro amadeirado tomou conta dos meus sentidos, como se ele estivesse bem ali. Seus olhos azuis, que refletiam a tormenta que eram nossas vidas, seus cabelos loiros bem cortados, sua barba que moldava seu rosto. Afastei esses pensamentos, criei coragem e me conectei a ele.
— Ajax. — Minha voz era quase um sussurro, a vulnerabilidade exposta nela. Minha Deusa, eu sou a Rainha Lycan! Como falar com um simples lobo me desarmaria dessa forma?
— Ravena? — A surpresa e felicidade em sua voz não passaram despercebidas. Ouvi-lo mexeu comigo de diferentes maneiras. Senti um arrepio que desceu da nuca até os pés.
— Sim. — Respirei fundo e continuei: — Preciso de sua ajuda.
Nossas emoções estavam entrelaçadas assim que me ouviu pedir ajuda. Senti seu coração acelerar. Tentei acalmá-lo contando o que Isabella disse. Tentei passar as informações da mesma forma que as recebi. Assim que acabamos, decidi encerrar a conexão o mais rápido possível, pois não conseguia controlar minhas emoções. Sem a ajuda de Lina para inibi-las, ele sentiria tudo. Foi aí que ele disse:
— Tenha cuidado, querida. Estarei aí em alguns minutos.
E então ele encerrou. Suas palavras ficaram ecoando em minha mente: querida.
Mas algo me tirou dos meus pensamentos. Era Angel. Ela gritava com a mão na cabeça. Corri até ela.
— Angel, o que houve? Por favor, fale comigo.
As lágrimas escorriam de seus olhos, que antes eram verdes e agora estavam azuis. Como isso era possível?
— Ele está chegando, Rav. — Nesse instante, ouvimos um uivo, e ele estava próximo.
— Angel, me escute. Vincent não vai colocar as mãos em você.
Ela levantou seus olhos para me olhar, a confusão estampada neles.
— Rav, estou chegando. Apolo disse que tem um esconderijo no escritório. Os lobos dele já foram avisados — Dandara disse através do link. Peguei Angel e corremos pelo corredor, em direção às escadas. Assim que chegamos à sala, fomos surpreendidas por Lycans, mas ainda estavam em forma humana.
Coloquei Angel atrás de mim, e Lina encostou, me permitindo expor minhas garras e presas. Olhei bem nos olhos daqueles malditos e disse:
— Venham. E mostrarei a vocês por que me chamam de Rainha Implacável. — Minha voz ecoou como um rugido suave, carregada de autoridade.
Os homens hesitaram por um momento, trocando olhares incertos, mas logo se espalharam pela sala, formando um semicírculo ao meu redor. Suas garras e presas estavam expostas, os olhos vermelhos brilhando em um misto de raiva e excitação pela luta.
Lina estava em alerta dentro de mim, pronta para agir. Sentia sua energia pulsando em cada fibra do meu ser, me tornando mais rápida, mais forte, mais letal.
O primeiro atacou, avançando pela lateral em uma tentativa óbvia de me pegar de surpresa. Ele era alto, mas lento demais. Girei o corpo, desviando de suas garras, e com um golpe certeiro, cravei as minhas em seu ombro. Um grunhido de dor escapou de seus lábios enquanto o jogava contra a parede com facilidade.
O segundo veio logo em seguida, mais ágil que o primeiro, suas garras mirando meu pescoço. Lina rugiu dentro de mim, guiando meus movimentos. Abaixei-me no último segundo, agarrando sua perna e o derrubando no chão com força. Antes que ele pudesse se levantar, chutei seu peito, enviando-o para o outro lado da sala.
— É só isso que têm? — provoquei, limpando o sangue das garras contra minha roupa.
O terceiro hesitou, mas sabia que não poderia recuar. Ele rosnou, suas presas à mostra enquanto dava um passo à frente. Decidiu atacar com estratégia, avançando direto enquanto os outros dois tentavam se recompor e cercar-me novamente.
— Erro fatal — murmurei.
Quando ele chegou perto o suficiente, joguei meu corpo para trás, desviando de seu ataque, e o chutei com força no estômago. O impacto o fez dobrar de dor, e antes que pudesse reagir, agarrei seus cabelos e cravei minhas garras em sua garganta, terminando a luta antes mesmo de começar.
Os outros dois, agora cientes de que eu não estava para brincadeiras, decidiram atacar juntos. Lina e eu agimos como uma só.
Desviei das garras de um, enquanto desferia um golpe direto no peito do outro. Meu punho acertou com precisão, quebrando costelas. O primeiro tentou me pegar por trás, mas Lina já havia sentido o movimento. Girei o corpo rapidamente, usando o próprio peso dele contra ele, e o joguei sobre o companheiro ferido.
Ambos estavam no chão, ofegantes, derrotados. Caminhei até eles, meus olhos vermelhos brilhando intensamente, a respiração pesada, mas controlada. Acabamos com eles em segundos.
Aproximando-me de Angel, percebi que seus olhos estavam fixos em algo atrás de mim. Quando me virei, eram mais Lycans.
— São muitos, não vamos conseguir sozinhas — falei para Lina em minha mente.
— Sinto nosso companheiro se aproximar — Lina me respondeu.

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