Ajax
Eu estava feliz pelo meu garoto ter acordado, mesmo que seu retorno tenha sido em meio à confusão com Megan. Mas quando soube, pela Angel, do surto que ele teve, senti vontade de rasgar meu peito, trocar de lugar com ele, carregar toda aquela dor e peso sobre mim. Sabia que isso não era possível, mas ainda assim, havia um alívio: ele tinha Isabella. Aquela garota possuía uma força indescritível. Era exatamente o que Logan precisava.
Desde que voltei de Londres, tudo desmorona antes mesmo de eu conseguir juntar os cacos. Não há tempo para respirar, para processar, para encontrar um maldito segundo de paz. Quando penso que finalmente teremos um respiro, vem outra revelação, outro golpe, outro inimigo à espreita. É como se o destino estivesse decidido a nos manter no inferno. E agora, descobrir que minha sobrinha esteve viva esse tempo todo, que fomos feitos de idiotas mais uma vez... Eu não sei se consigo suportar mais isso.
Olhar para Lúcia só me causava náuseas. Suas mentiras, o modo como tratou Logan por todos esses anos, e pior, o que ela sentia por Athena... era nojento. Se dependesse de mim, acabaria com sua vida neste instante. Mas Logan estava certo. Precisávamos encontrar minha sobrinha. E aquela m*****a era a única que sabia onde ela estava.
— Vou perguntar mais uma vez, Lúcia, e desta vez não vou parar até que me convença de que está falando a verdade. — Meu tom era assassino, carregado de ódio. Ódio por todos eles: Atlas, meu pai, e essa loba asquerosa diante de mim.
— Eu já disse, Ajax. Lexa não quer ver vocês. — Assim que as palavras saíram de sua boca, ela se contorceu de dor. Um sorriso satisfeito surgiu em meus lábios. Logan me deu autoridade, e agora meus comandos tinham o mesmo efeito que os dele.
— OK, PARE, POR FAVOR! — Lúcia gritou, o desespero palpável em sua voz.
Caminhei até ela, agarrei seus cabelos e puxei-a para que ficasse frente a frente comigo.
— Boa menina. — Sorri satisfeito e a soltei, mas mantive meus olhos fixos nos dela.
— Diga!
Ela se ajeitou e foi até uma das poltronas. Ravena, que se mantinha ao meu lado, ficou atenta. Parecia ter captado algo que passou despercebido por mim. Olhei para ela de canto e a chamei mentalmente.
— Qual o problema, querida? — perguntei através da nossa conexão.
— Observe. — Sua resposta foi firme.
Voltei minha atenção para Lúcia, tentando entender, e então percebi. Mas Ravena foi mais rápida. Num instante, já segurava a m*****a pelo pescoço.
— Achou que eu não perceberia? — O sarcasmo gotejava em cada sílaba de sua voz.
— Rainha... — Lúcia começou, mas antes que pudesse concluir, Ravena mostrou as presas e as afundou em seu ombro.
Avancei, sem entender. Os olhos de Ravena eram como duas pedras de rubi, a fúria irradiava dela.
— Ravena? — Perguntei, ainda espantado.
Ela me olhou, e por um instante, vi Lina misturada a ela.
— Ela estava avisando Anthony sobre nós. Ela mentiu. Lexa não sabe toda a verdade.
Olhei incrédulo para Ravena. Num movimento ágil, ela jogou Lúcia contra a parede, fazendo-a desmaiar no mesmo instante.
— Como sabe disso? — Minha voz carregava uma dúvida genuína.
— Percebi a conexão. Lina me permitiu encostar em Lúcia.
Os olhos de Ravena começaram a voltar ao azul intenso, uma cor que estava se tornando minha preferida.
Ela limpou o sangue da boca antes de continuar:
— Antes que ela encerrasse a conexão, eu a mordi. Isso me permite acessar suas últimas memórias.
Eu a ouvia, mas era como se as palavras não fizessem sentido. Do que mais esses Lycans eram capazes?
Agora eu entendia por que o rei Alexander não queria Lycans no reino.
— Ajax? — Ravena me chamou me tirando dos meus pensamentos.
— Desculpa querida, me diga por favor o que você pegou na conexão. — Ela se aproximou de mim, com cautela, como se soubesse que o que estava prestes a me dizer fosse me tirar do sério.
— Lexa não está em Londres. — Ela segurou minhas mãos, o arrepio que sentia todas as vezes que nos tocávamos era indescritíveis.
— Ela está aqui, mas precisamente na Alcateia Crescent Moon. — O rugido que soltei foi ensurdecedor, Ravena soltou minhas mãos para tampar os ouvidos. Senti Dusk, ele ia emergir e matar todos eles. E eu estava disposto a deixar.
— Ajax por favor, se acalme! — Ravena dizia, mas suas palavras não surtiam efeitos. Comecei sentir os pelos do meu corpo se arrepiarem, e sentia um peso diferente em meus olhos, como se não fossem mais meus olhos e sim os de Dusk. Minhas unhas crescerem levemente, e minhas presas estavam prestes a sair. Até que senti uma mão em meu rosto e logo em seguida, os lábios de Ravena nos meus.
O toque dela foi como um choque direto no meu peito, um instante de calor que rasgou a fúria em que eu estava mergulhado. Seus lábios nos meus eram, firmes e quentes, mas não havia urgência ali. Era um chamado. Um laço invisível me puxando de volta da beira do abismo.
Por um momento, meu corpo enrijeceu. O peso em meus olhos ainda estava lá, Dusk ainda rugia dentro de mim, mas algo mais forte começava a se sobrepor. O cheiro dela me envolveu, frutas silvestres e algo viciante que eu não conseguia nomear. Meus sentidos estavam aguçados, mas não para a batalha. Para ela.
Minhas unhas, que haviam começado a crescer, voltaram ao normal. O rosnado que ecoava em minha garganta se dissipou em um suspiro pesado. Minhas mãos, antes cerradas em punhos, deslizaram para seu corpo, segurando-a como se fosse a única coisa me ancorando à realidade.
Meu coração, que pulsava com raiva, agora batia por outro motivo. Um motivo que me assustava quase tanto quanto a fera dentro de mim.
Eu cedi.
Pressionei seus lábios com mais firmeza, sentindo a suavidade e o calor da boca dela contra a minha. Ravena não recuou, mas também não me incitou. Seu toque era um equilíbrio perfeito entre força e controle, entre provocação e redenção. Ela não queria me dominar, nem me dobrar. Ela queria me trazer de volta.
E conseguiu.
Me afastei devagar, os olhos fixos nos dela, minha respiração ainda pesada, mas agora por um motivo diferente.
Ravena manteve o olhar em mim, sua expressão era séria, mas eu vi. Aquele brilho discreto, aquela faísca que entregava mais do que suas palavras jamais confessariam.
Ela sentiu tanto quanto eu.
E isso... era um problema.
Prometi uma conversa a ela depois do nosso momento no bar. Mas, com os últimos acontecimentos, essa conversa foi adiada. E, depois do que acabou de acontecer, eu devia isso a Ravena. Ela merecia mais.
Passei o polegar em seu rosto e encostei minha testa na dela.
— Obrigado. — Sussurrei, mantendo os carinhos em sua pele. Levantei levemente minha cabeça para encontrar seus olhos, que brilhavam. Mas não consegui decifrar o motivo, pois percebi que ela estava bloqueando suas emoções. Franzi a testa ao notar isso.
— Agora não. Teremos tempo para essa conversa. — Ela murmurou antes de deixar um beijo suave em meus lábios. Suspirei, sentindo a ternura do momento. Envolvi meus braços em sua cintura, puxando-a para mais perto e enterrando meu nariz em seus cabelos.
— Será em breve, eu prometo. — Minha voz saiu firme, sincera. Ela estava certa, agora não era o momento. Mas assim que essa história com Lúcia se resolvesse, eu resolveria a minha com Ravena.
Ficamos alguns minutos ali, apenas sentindo a presença um do outro, até que notei um movimento no chão. Lúcia estava acordando.
— Precisamos falar com Logan. Lucas não é amigo como ele pensou. — A voz de Ravena cortou o silêncio, e meu corpo enrijeceu ao ouvir suas palavras. Mais uma vez, meu garoto levava uma punhalada.
— E o que faremos com essa aí? — Apontei para Lúcia, ainda caída, mas agora retomando a consciência.
— Tenho planos para ela. — O sorriso de Ravena me causou arrepios. Eu sabia como os Lycans podiam ser cruéis, impiedosos, muitas vezes sem qualquer vestígio de sentimento. Mas vê-la assim… algo me incomodou.
Ela percebeu. O brilho em seus olhos mudou, e por um instante, vi um vislumbre de dor. Dei um passo em sua direção, mas ela recuou.
— Vou me conectar com Dandara, pedir para que venha ficar com Lúcia. — Disse, se virando para se afastar ainda mais de mim. Mas eu não permitiria que criasse barreiras entre nós.
Envolvi meus braços em sua cintura, puxando-a para trás até que suas costas encostassem em meu peito. Segurei-a com firmeza, deixando claro que não a deixaria escapar.
— Desculpe, querida, ainda não me acostumei com essa coisa de dividir pensamentos e emoções. — Murmurei em seu ouvido, depositando um beijo ali.
Senti o efeito que causei nela. Era o mesmo que ela causava em mim.
— Tudo bem, Ajax. Já chamei Dandara. Ela estará aqui em alguns minutos. — Seu tom era seco, sem emoção. Aquilo mexeu comigo. Mas eu estava decidido a não deixá-la se fechar para mim.
— Rav. — Ela endureceu em meus braços ao ouvir o apelido que Dandara e Angel a chamavam carinhosamente.
— De verdade, eu sinto muito. Eu amo essa sua força, sua inteligência e astúcia. — Abaixei a cabeça, aproximando meus lábios de seu ouvido.
— E sei que está aprendendo algumas coisas, assim como eu estou. — Passei meu nariz por seu pescoço.
— Você me disse, naquele dia, que eu não precisava carregar nada sozinho. E você também não precisa. — Virei-a para que nossos olhos se encontrassem e segurei seu rosto entre as mãos.
— Eu vou estar aqui por você, e iremos reaprender tudo juntos. Eu prometo.

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