Logan
Depois do link de Isabella, me senti mais confiante. Olhava fixo para Lúcia e, só hoje, entendia por que não tinha semelhança nenhuma com ela. Não era minha mãe, não tínhamos laços sanguíneos.
Sempre busquei conforto nela quando meu pai me batia, mas tudo que encontrava era indiferença. Ela não foi uma mãe ruim, mas também não era das boas. Todas as vezes, meu consolo estava em Ajax, nunca em Lúcia.
Eu entendo. Não era seu filho de sangue e ainda era fruto de uma relação que nem sei como nominar. Estou tentando enxergar seu lado, olhar com seus olhos, mas então me lembro da relação de Isabella com os pais. Mesmo não sendo biológicos, o amor vai além do sangue.
Poderíamos ter sido assim… mas não fomos.
— Por que aceitou o filho de outra pessoa? — Meu tom era firme.
— Descobri antes de acasalar com seu pai que não podia gerar filhos — ela disse em um tom sério, sem desviar o olhar. Mas eu conseguia ouvir seu coração, e ele batia acelerado.
— Não era segredo para ninguém que ele não me amava. Depois que foi rejeitado, tornou-se instável, e o conselho só o permitiria assumir se tivesse uma Luna. — Ela foi até uma das poltronas e se sentou. Eu ainda não estava preparado para isso. Por isso, permaneci de pé.
— Você o amava? — Ela sorriu, mas sem humor nenhum.
— Seu pai era um homem atraente. No começo, me encantei por ele — apertou as mãos e continuou — mas o encanto acabou no instante em que o conheci de verdade.
— Nunca pensou em ir embora? — Minha pergunta era genuína. Por que alguém aguentaria tudo aquilo sem nem mesmo haver amor?
— Pensei, no dia em que descobri o que ele fez com sua mãe. — Senti meu corpo enrijecer. “Minha mãe.” Ela dizia com naturalidade, deixando claro que não era ela.
— Seu avô, Hélio, me convenceu a ficar assim que descobriu que Athena estava grávida. — Sua expressão endureceu. A verdade doía para mim, mas as lembranças também a destruíam.
— Hélio é tão culpado quanto seu pai. Ele via os olhares de Atlas para Athena, sabia que ele tinha sentimentos por ela. — Uma lágrima escorreu de seu rosto, mas ela a secou rapidamente.
Depois de ver a forma como meu avô tratou a mim e a meu tio após mentir por anos e a frieza com que lidou com a história do meu nascimento, só conseguia acreditar que um monstro havia gerado outro.
— Não sei o que Hélio te contou sobre Athena, mas saiba que ela nunca quis te abandonar. — Suas palavras me pegaram de surpresa. Sentei-me ao seu lado. Quantas mentiras eu ainda tinha para descobrir.
— Athena sofreu, claro que sim. Quem não sofreria sendo violentada pelo próprio irmão? — Cada vez que me lembrava disso, sentia vontade de vomitar. Lúcia também demonstrava repulsa ao dizer aquelas palavras.
— Descobrimos que eram dois, e seu avô decidiu que seria justo que seu pai criasse um e sua mãe, o outro. — Levantei-me bruscamente. Eu tinha um irmão? Como nunca soube disso?
— Athena queria criar os dois, você e sua irmã, Lexa. “Filho é filho”, ela dizia, indiferente de como foi gerado. — Lúcia abaixou a cabeça e, dessa vez, deixou as lágrimas caírem livremente.
— Hélio e Atlas fizeram um acordo e levaram você para mim. Athena ficou destruída. — Minhas mãos suavam de nervoso. Eu queria matar meu avô. Queria ressuscitar meu pai só para ter o prazer de matá-lo novamente.
— O que aconteceu com minha irmã? — Minha voz saiu trêmula. Eu já imaginava a resposta.
— Sua mãe a criava com todo amor, e eu o levava escondido para que ela pudesse te ver. — Um sorriso tênue brincou em seus lábios, como se a lembrança trouxesse algum conforto.
— Athena e eu nos tornamos grandes amigas. — Ela virou o rosto, desviando o olhar do meu.
— Mas, na guerra dos rogues, a casa de seus avós foi atacada. — Passei as mãos pelos cabelos, revivendo na mente o que aconteceu.
De repente, uma sensação estranha se apoderou de Lúcia, como se houvesse algo que ela ainda não estivesse pronta para me contar. Me aproximei e segurei suas mãos.
— Mãe... — Disse, a palavra saindo suave, quase num sussurro. Assim que a proferi, seu rosto se virou para mim, seus olhos encontrando os meus.
— O que a senhora não está me contando? — Perguntei, a voz mais firme, embora pudesse sentir o tremor nas suas mãos sobre as minhas. Ela engoliu em seco.
Nesse exato momento, uma chuva torrencial começou a cair lá fora, o barulho ecoando no quarto. O vento forte entrava pela varanda, que havia deixado aberta. Me levantei para fechar a porta, mas, ao me virar, vi que ela estava em pé, observando-me. Seu olhar estava cheio de pavor.
Me aproximei, segurando suas mãos novamente.
— Por favor, eu preciso saber tudo. — Minha voz saiu como um murmúrio suplicante.
Sentia não apenas seu medo, mas a dúvida que a consumia, como se não soubesse se podia me contar a verdade. Senti Ajax se aproximando; sabia que não demoraria para ele aparecer. Ele me enviou um link, perguntando se poderia entrar, e eu assenti. Assim que a porta se abriu, o corpo de Lúcia se tendeu.
— Fui eu quem permiti que ele entrasse. — Ela olhou para mim, acenando com a cabeça, soltou minhas mãos e se dirigiu até as janelas. Ficou em silêncio por alguns minutos. Ajax e eu nos entreolhamos, ambos sentindo que o que viria seria um novo baque. Mas eu estava pronto para o que fosse.
— Chovia na noite em que os rogues atacaram nossa alcateia. — Sua voz estava embargada pelas lágrimas.
— Atlas me mandou para o abrigo com você, mas eu precisava ir buscar Athena e Lexa. — Ajax se enrijeceu com a menção de minha mãe e irmã.
— Me conectei com Athena, e combinamos de nos encontrar no rio. — A dor em suas palavras era palpável, mas ela permaneceu firme.
— Quando cheguei, ela já estava lá com Lexa e Anthony, seu companheiro. — O choque foi instantâneo, tanto em mim quanto em Ajax. Minha mãe tinha um companheiro?
— Fomos emboscados. Anthony lutou corajosamente. Athena era incrível. — Ela se virou para me olhar, antes de continuar. — Você tem muito dela. Ela tinha dons, um deles era sentir sua loba, mesmo sem ela ter emergido, assim como os lycans.
A revelação parecia não afetar Ajax. Eu vinha notando mudanças no comportamento de Orion, mas nunca imaginei que isso viesse da minha mãe. Lúcia virou-se para a janela novamente e continuou.
— Eu segurava as duas crianças, enquanto eles lutavam. Achamos que todos estavam mortos. — Ouvi-a suspirar.
— O lobo avançou e eu caí com vocês. Fui até Lexa e Athena foi até você. — Sua voz saiu trêmula.
— Ele foi rápido, e te puxou. Mas Athena não te deixaria, mesmo com Anthony e eu gritando. — Sua voz carregava ressentimento. Então era isso? Ela me culpava?
— Ela te salvou, e todos nós suspiramos aliviados. Mas, assim que ela virou, uma adaga de prata a atingiu nas costas. — Ajax rosnou, e eu olhei para ele, confuso. Lúcia o encarou, estufando o peito antes de dizer:
— Foi ele quem a matou. — O rugido de Ajax ecoou pela sala. Senti a presença de Dusk em sua fúria. De quem estavam falando?
— Seu pai, Logan, seu pai matou sua mãe. — O chão parecia desabar sob meus pés, me puxando para baixo. Por que sempre ele?
— Anthony me mandou entrar no barco, mas eu não queria deixar Athena. — Ela chorava copiosamente.
— Ele partiu com Lexa, e eu fiquei com você e sua mãe. Antes dela morrer nos meus braços, ela me pediu para cuidar de você. — Ela fechou as mãos ao lado do corpo.
— Menti para Atlas assim que ele chegou, disse que Lexa caiu no rio e se afogou.

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