Ao vê-la se acalmar, Helder Casimiro soltou um riso desdenhoso.
— Percebeu o seu erro?
Alita Pires permaneceu em silêncio.
De repente, ela partiu para cima dele, agarrando seu braço e puxando a manga da camisa para cima, com a urgência de quem precisava desesperadamente confirmar algo. Ela se lembrava de que Kaique tinha uma cicatriz no braço, perto da articulação. No entanto, quando a manga foi erguida, não havia cicatriz alguma. Em seu lugar, havia uma enorme tatuagem. O desenho de um Qilin mítico. Tão detalhado que parecia ganhar vida.
A última gota de esperança em seu coração evaporou. Aquele homem não era o Kaique. Era difícil descrever o que ela sentia naquele momento: tristeza, frustração ou, talvez, um ínfimo traço de alívio. Ele não era o Kaique. O seu Kaique continuava amando-a profundamente.
— Tem certeza agora? Eu não sou ele.
— Eu... me desculpe. — A voz dela soou fraca, quase inaudível.
— Você e o Kaique... são idênticos...
— Tão parecidos assim, e nem a mulher dele consegue perceber a diferença? — Ele curvou os lábios em um sorriso zombeteiro. — Pelo visto, o casamento de vocês não é grande coisa.
Aquelas palavras perfuraram o coração de Alita Pires como uma lâmina afiada. Imediatamente, a vergonha deu lugar à fúria.
— Não é da sua conta! Já que você não é o Kaique, por que me prendeu aqui?!
Ele não respondeu. Levantou-se, caminhou até a janela e, de costas para ela, acendeu um cigarro. A luz do luar contornava sua silhueta imponente, sobrepondo-se com perfeição à imagem que Alita Pires guardava na memória. Mas, quando ele se virou, a frieza em seu olhar serviu como um cruel lembrete de que aquele não era o seu marido. Seu marido não fumava.
— Amanhã, mandarei alguém levá-la embora. — Ele soltou um anel de fumaça. — Sugiro que procure meu irmão e exija explicações. No entanto... — Um sorriso cruel surgiu em seus lábios. — Ouvi dizer que ele perdeu a memória, não é? Então, ele provavelmente não sabe de nada, nem mesmo da existência do próprio irmão.
Alita Pires demorou um pouco para processar a informação.
— Espere, então você já sabia que o Kaique...
— Ivair Casimiro.
Ela acreditava estar atuando perfeitamente, sem desconfiar que Helder Casimiro já havia notado o brilho assassino em seus olhos. Aquilo aqueceu o peito dele na mesma hora. Mesmo após ter sido enganada e acreditado em suas mentiras, a primeira reação dela ao perceber que ele representava uma ameaça para o 'Ivair Casimiro' foi tentar eliminar o perigo em prol do marido.
Tão ingênua. Mesmo naquela situação vulnerável, o instinto dela era protegê-lo. Ele sentiu uma vontade avassaladora de puxá-la para um abraço e beijá-la com paixão. Mas não podia.
Ela havia deixado a máscara cair no banquete daquela noite, revelando seu verdadeiro rosto. Se ele demonstrasse qualquer sinal de afeto e descobrissem a ligação profunda entre os dois, ela seria exposta a perigos incalculáveis. Ser a mulher ao lado dele significava viver sem paz. Ele a levaria para casa, mas não agora.
— É melhor garantir que ele nunca cruze o meu caminho. Quem sabe assim, em um momento de misericórdia, eu permita que ele continue vivo.
Alita Pires estava a ponto de explodir de raiva. Aquele homem era um canalha! Mesmo assim, forçou um sorriso submisso.
— Tudo bem, eu entendi.
Helder Casimiro a encarou por alguns segundos antes de apagar o cigarro e avançar com passos firmes. Alita Pires recuou por instinto, mas ele foi mais rápido e agarrou o queixo dela com firmeza.
— Grave bem este rosto.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Flores Que Florescem Na Lama
Gostaria de ler mais não consigo porque tenho que pagar...