O casal insistiu tão fervorosamente que ela não teve alternativa a não ser ficar para jantar.
Sentindo-se acolhida, fartou-se de comer.
Casualmente, tinha negócios que a manteriam na cidade pelos próximos dois dias, então optou por não retornar à área de mineração. Antes de ir, deixou claro ao pequeno Gildo que se os marginais ousassem aparecer novamente, ele deveria avisá-la pelo relógio no mesmo instante.
— Pode deixar! Irmã Alita, muito obrigado!
Ela esticou a mão e apertou as bochechas gorduchas do menino, satisfeita. Subiu em sua chamativa moto e foi embora.
Gildo observou-a afastar-se, com os olhos brilhando de admiração.
— Como eu queria ter uma irmãzona assim.
Seus pais, contudo, trocaram um olhar inquieto, reconhecendo a preocupação que dividiam.
— A família dos novos amigos de Gildo não parece ser de pessoas comuns.
— É a primeira vez que ele faz amigos, vamos apenas deixar para lá.
— É verdade.
Logo, a alegria retornou ao seio familiar, apagando qualquer vestígio do pavor que viveram à tarde durante a invasão.
Com um otimismo tão genuíno, não era surpresa que Heitor e Anan gostassem tanto de ter Gildo como amigo.
Para facilitar as operações, Adriana Pires havia comprado uma casa na cidade, mas Alita Pires preferiu se hospedar no hotel mais próximo e reservou um quarto.
Dirigiu-se ao seu alojamento enquanto maquinava soluções para as pequenas pendências recentes na área de mineração.
De repente, como se tivesse sentido algo, virou-se e encarou o corredor vazio.
Fez meia-volta e prosseguiu sua caminhada, dobrando a esquina do corredor.
Um vulto surgiu inesperadamente e a seguiu. Mas, ao virar a curva, o perseguidor encontrou a lâmina de uma faca encostada em seu próprio pescoço.
— Quem mandou você me seguir?
O rapaz responsável pela entrega quase perdeu a força nas pernas de tanto susto. Agarrando-se ao buquê de flores, balbuciou:
— A-a-as suas flores...
Alita Pires piscou, confusa. Examinou as rosas vermelhas vibrantes e então olhou para o entregador, cujas lágrimas de medo já escorriam pelo rosto. Só lhe faltava levantar as mãos em rendição.
Ela recolheu a faca.
— Quem mandou?
— Eu não sei de nada. Só me pagaram para fazer a entrega, e a única condição era que a senhora não percebesse.
— Deixe aí e suma.
O garoto pousou o arranjo apressadamente e sumiu dali num piscar de olhos.
Helder Casimiro soltou um longo suspiro e bebeu sua taça de champanhe de um único gole.
Não se atreveria jamais a tentar confiná-la novamente. A única alternativa era cortejá-la até reconquistar sua alegria.
Enviar mimos era a estratégia mais óbvia.
Todos os artigos de luxo que ele oferecera foram impiedosamente vendidos sem sequer um vislumbre da parte dela, e o dinheiro doado para a caridade. As flores, no entanto, eram a única coisa que não eram rejeitadas.
Diante dessa constatação, passou a focar sua atenção apenas em lhe enviar buquês.
Todos os dias caminhões e mais caminhões carregados de pétalas cheirosas adentravam o acampamento de mineração.
Mesmo assim, a fúria dela não dava indícios de aplacar.
Helder Casimiro fechou os olhos com força, resmungando consigo mesmo:
— Adriana Pires, você errou. Ela não é alguém que resiste à força, mas cede à gentileza. A verdade é que ela é imune a tudo.
O arrependimento começava a tomar conta dele.
Talvez jamais devesse ter mentido para ela desde o início.
Com os olhos cerrados, procurou suprimir a angústia antes de voltar sua atenção para a turbulência em seu país natal.
Ele contatou Ezequiel Assis, utilizando uma linha secreta que apenas ambos conheciam, assegurando a absoluta impossibilidade de qualquer tipo de escuta.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Flores Que Florescem Na Lama
Gostaria de ler mais não consigo porque tenho que pagar...