Stella
Após o café da manhã fomos brincar um pouco no jardim, quando ela já estava com a bochechinha rosada eu decidi descansar um pouco. Peguei o violão e comecei a tocar músicas infantis com ela, que ria dos sons que eu fazia, com a boca e o violão.
— Titia, posso te pedir um favor?
— Claro princesa.
— Me leva para ver onde minha mãe está? — Ela me pede com a voz chorosa
— Você quer ir ao cemitério? — Pergunto confusa. Bella assente com a cabeça. — Certo, vou ver se Ernandes nos leva.
Vou procurá-lo, mas não o encontro, então pego a chave do carro menos chamativo do Edu, coloco a cadeirinha no banco traseiro e vou levar minha pequena ao cemitério, até poderia pedir permissão ao Edu antes, mas ele não olhou nenhuma das mensagens que enviei e nem atendeu minhas ligações. Estou muito preocupada com seu sumiço.
Eu e Bella fomos o caminho todo cantando músicas dos desenhos animados que ela mais gosta. Eu tentava imitar as vozes, o que fazia ela rir muito. Esse gesto era repleto de carinho e amor. Queria distraí-la, para não pensar muito em onde estamos indo, apesar de ter sido ela quem pediu para ir.
Chegamos ao cemitério e vejo o carro do Edu, o que causa uma pontada em meu coração e um desconforto na boca do meu estômago. Logo vejo outro carro com Ernandes e outro segurança, quando ele me vê, não consegue disfarçar sua surpresa. Sei que nunca dirijo, mas desta vez não tive escolha. Talvez eu escute um xingamento e tal, por ter dirigido sem segurança, mas minha pequena diabinha precisava deste momento com a mãe. Ajudo Bella descer do carro, suas mãozinhas estão suando, então me abaixo a sua frente e pergunto.
— Tem certeza que quer ir? Se quiser voltar não tem problema! — Ela diz que sim com movimento leve da cabeça. — Ok, vamos então.
Seguro em sua mão e começamos a caminhar, conforme nos aproximávamos, meu coração se apertava mais e mais, chegando vejo uma cena que não aperta meu coração, e sim o destroça inteirinho. Sinto dor em cada rachadura formada pela imagem à minha frente, Bella arregala os olhos e pergunta:
— É o meu papai? Ele está chorando tia Stella? — Engulo em seco e respondo:
— Sim, princesa, é o seu papai. — Continuo andando, mas a cada passo, meu coração quebrava mais um pedacinho.
Dava para ouvir os soluços de seu choro sofrido. E escutá-lo chorando doía em minha alma.
Em certo momento meus pés paralisaram, eu não consegui dar um passo à frente, minha cabeça estava girando, meus pensamentos gritava incessantemente a mesma frase: “Ele sente falta dela! Você não é suficiente! Eu não sou suficiente!…”
Ao nos ver, ele paralisa, como se nossa presença o tivesse assustado, olho em seus olhos que estão inchados e vermelhos. “Eu não sou suficiente! Depois da noite maravilhosa que tivemos ele se sentiu culpado e veio chorar no túmulo de sua falecida, porque eu não sou suficiente!” Ele me encara com seus olhos molhados pela lágrimas, e não faz nada, ele só fica me olhando enquanto Bella se aconchega em seu colo, “e ele… ele só me olha com seus malditos olhos encharcados de lágrimas”. Me forço a dizer o que estamos fazendo ali:
— Ela pediu para que eu a trouxesse, não sabia que estava aqui. Sinto muito estragar o seu momento! — Ele continua me encarando, continua me olhando com seus olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, e esse choro não é para mim, é para a mulher que ele ama, a mulher que ele nunca esqueceu, a mulher que ele escolheu amar para sempre, até depois de sua morte, e eu? Engulo meu choro, junto meus caquinhos, respiro fundo e me despeço.
— Estou indo, esse momento é de vocês.
Começo a andar e ele não diz nada, olho para trás e ele está na mesma posição, paralisado e mudo. Minha vontade é ir lá e bater muito nele, até ele reagir, e brigar com ele por estar chorando lá, após a noite mágica que ele me proporcionou. Mas respiro fundo e me obrigo a caminhar, acelero meus passos, olho para o ponto de ônibus, depois para o carro dele, e sem dizer nada entro no carro e dirijo para bem longe dali.
...


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