PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Eu estava exausta. Só podia ser isso. Ou talvez a enxurrada de sentimentos do dia tivesse criado essa alucinação absurda.
Porque não existia a menor possibilidade nesse universo de Margaret Lockwood estar na minha varanda com uma torta nas mãos, estranhamente idêntica à que a Sra. Barnes tinha me dado, como uma mãe carinhosa saída de um conto de fadas.
Não quando a dor da última vez que eu a vi ainda estava fresca, como uma ferida nova.
A imagem voltou à minha mente: o rosto dela esculpido em desdém, as suas palavras me cortando naquele sufocante quarto de hospital. 'Ela tentou matar a minha filha!'
Ela nem pestanejou ao lançar aquela acusação devastadora.
Conscientemente ou não, naquele exato momento, com os pedaços desconexos da minha família como testemunhas, minha mãe jogou o último punhado de terra na cova do nosso relacionamento já morto.
Ela escolheu a Celeste. E me deixou de lado.
E não havia mais nada entre Margaret Lockwood e eu.
Então, tentei ignorá-la.
Meus braços doíam com o peso dos recipientes cheios de tortas e quitutes embrulhados em celofane, mas apertei firmemente as sacolas e as ajeitei contra o meu quadril enquanto respirava fundo para me acalmar.
Talvez, se me apressasse, conseguiria chegar à porta, entrar e fingir que Margaret Lockwood não passava de uma cruel alucinação, fruto do cansaço e de um sentimento bobo.
"Seraphina." A voz soou como sempre tinha soado: muito composta, muito cuidadosa.
Ela estendeu a mão para mim, mas eu me movi rapidamente antes que ela pudesse me tocar.
"Eu te conheço?" Perguntei, minha voz tão composta e cuidadosa quanto a dela.
A mágoa passou rapidamente pelo rosto dela antes que ela habilmente a escondesse. "Eu sou a sua mãe, Sera."
Soltei um riso de desdém antes mesmo de retrucar. "Não. Não vou fazer isso."
"Sera..."
"Você fez a sua escolha, lembra?" Disparei, amaldiçoando-me quando a minha voz falhou. "A Celeste é a sua única filha."
Os lábios dela se entreabriram e aquela máscara desmanchou um pouco, fazendo-a, de repente, parecer... mais velha. Muito mais velha.
E cansada.
A coluna dela ainda estava ereta como uma régua e a postura gritava controle, mas os olhos dela, aqueles olhos penetrantes e inabaláveis dos Lockwood, vacilaram.
Detestei-me por sentir uma súbita vontade de largar as sacolas que carregava e abraçá-la.
E então, enquanto eu ainda tentava apagar aquele sentimento ridículo, ela suspirou. "Eu estava errada."
O sentimento desapareceu.
"Errada?" Minha risada foi amarga e sem graça. "Isso não chega nem perto de descrever todos os seus erros."
"Você tem todo o direito de estar chateada comigo," ela admitiu, abaixando um pouco o queixo.
Fiquei surpresa com aquele gesto, semelhante à abaixar uma coroa da cabeça. "Eu fui... irracional no hospital. Deixei a minha raiva, o meu luto, me cegarem."
Assenti. "Por favor, não tire a venda por minha causa. Mantenha os olhos na sua única filha, tá?"
Ajustei as sacolas e estendi a mão para a maçaneta da porta.
"Mas eu vim aqui porque ouvi que você avançou no Torneio. Queria te parabenizar."
Me virei para ela, piscando. "Você... assistiu?"
Ela sorriu suavemente. "Claro, querida. As minhas filhas estão participando."
Claro.
Por alguma razão ridícula e absurda, a Celeste fazia parte do time da Frostbane no TFL. Eu só podia agradecer à minha sorte por ainda não ter trombado com ela. Mas eu não era boba e sabia que o nosso inevitável confronto estava cada vez mais próximo.
E, claro, a participação da Celeste seria a razão pela qual a minha mãe acharia adequado assistir ao Torneio.
Olhei para a torta na mão da Margaret.
Minhas palavras saíram como um sussurro áspero: "E eu deveria acreditar que isso não é só sobra da Celeste?"
Ela realmente teve a ousadia de se retrair. "Não," disse rapidamente, segurando firme a caixa da torta como se fosse uma prova preciosa que ela precisava apresentar. "Não são sobras, Sera. Eu preparei essa separadamente para você. Especialmente para você."
A caixa tremeu levemente nas mãos dela enquanto ela a estendia para mim e reparei que o seu olhar era uma mistura contrastante de desafio e vergonha.
"É a sua favorita." Seu sorriso autoirônico parecia calculado para despertar simpatia ou indulgência da minha parte. "Eu me certifiquei desta vez."
Quase não peguei a caixa. Meu instinto gritava para deixá-la no ar, para ver o seu rosto se contrair com o mesmo orgulho ferido que ela tinha infligido em mim durante toda a minha vida.
Mas os meus dedos traidores tocaram a borda da caixa antes que eu pudesse impedi-los. Disse a mim mesma que era apenas curiosidade, que eu queria ver se ela tinha acertado mesmo qual era a minha torta favorita.
O alívio da Margaret foi representado por um suspiro frágil. Ela colocou a caixa com cuidado no corrimão da varanda, como se não confiasse que eu fosse segurá-la.
"Eu vou embora." Ela deu um passo trêmulo para trás. A voz dela mal passou de um sussurro. "Eu não vim para me intrometer na sua vida ou pressionar você, querida. Apenas... para te dar os parabéns. Espero que você saiba que me fez..." Ela parou, engolindo em seco, como se as palavras fossem difíceis de pronunciar. "Você me fez sentir orgulho."
Sem esperar por uma resposta, ela se virou e desceu os degraus. Os saltos dela ressoavam contra o pavimento, firmes como o ritmo de um metrônomo, até que a noite engoliu a sua silhueta inteira.

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