PERSPECTIVA DA SERAPHINA
O cheiro foi a primeira coisa que senti: almíscar selvagem e fome bruta.
A presença invisível me pressionou como uma parede primitiva e implacável.
Cada instinto em mim gritava: 'Perigo!'
Então eu ouvi o farfalhar de passos pesados, cautelosos e lentos, em algum lugar além da cortina de árvores.
A neve se deslocava a cada passada pesada, seguida pelo grunhido baixo e gutural de uma criatura maciça exalando vapor no ar congelante.
Eu ainda não conseguia ver, mas a sombra se projetava e eu podia adivinhar o que era: um urso. E não era pequeno.
Merda.
Desloquei o meu peso lentamente, pressionando a pilha de lenha próxima a mim como uma barreira frágil.
Meu primeiro pensamento (engraçado e estúpido) foi mudar de forma. Loba contra urso. Presa contra presa, garra contra garra.
Mas, então, a realidade me atingiu como uma porta de ferro na cara.
Eu não podia me transformar.
Eu teria rido se não estivesse tão apavorada.
Treinei rigorosamente, trabalhei tanto, para não ser definida pelo que me faltava, pela minha única deficiência.
Mas, agora, nada disso importava, e a minha fraqueza finalmente, verdadeiramente, me destruiria.
O rosnar baixo do urso reverberava pelas árvores. Meu coração disparou e começou a bater tão rápido que achei que morreria de ataque cardíaco antes que a criatura tivesse a chance de me arranhar.
A sombra se aproximou e, entre os troncos, sua forma imensa se materializou. O luar refletia como prata sobre o pelo enquanto a massa gigantesca apagava o pouco do crepúsculo que restava.
Sua pelagem era mesclada de branco e cinza, misturando-se tão bem à neve que parecia esculpida do próprio gelo. Era um predador feito para essa Arena, para esse ambiente específico.
E os seus olhos... brilharam com uma inteligência predatória, faminta, inabalável. E estavam fixos em mim, a sua presa.
Engoli em seco, sentindo a garganta tão árida quanto um osso.
Certo. Pense. Opções.
Correr? Burrice. Eu seria alcançado em segundos.
Lutar? Mais burrice ainda. Um golpe dele e o meu crânio desabaria.
Escalar? Talvez não tanta burrice, mas eu seria rápida o suficiente?
Minha mão se moveu em direção à pulseira do comunicador que estava no meu pulso. Tinha pessoas monitorando os desafio, não tinha? Eles teriam que intervir se um de nós estivesse correndo risco de vida. Certo?
Pressionei o botão de emergência na lateral do comunicador e sussurrei: "Solicitando assistência."
Nada. Apenas estática e o leve chiado de interferência.
Pressionei o outro lado para me conectar aos comunicadores dos meus colegas. "Pessoal? Vocês conseguem me ouvir? Preciso de vocês."
Mais estática.
O frio podia estar atrapalhando o sinal (caramba, eles não deveriam ter se preparado para isso?). Ou talvez as barreiras da Arena estivessem intencionalmente enfraquecendo a comunicação (nesse caso, por que diabos nos deram comunicadores para começo de conversa?).
De qualquer forma, eu estava por minha conta.
O urso avançava pesadamente e a neve se movia sob o seu peso, espalhando pó ao redor das suas patas. Cada vez que se movia, os seus ombros enormes se inclinavam e a sua respiração ficava cada vez mais alta e profunda.
Apertei a lenha com tanta força que uma casca cravou na minha pele. Meu coração batia tão rápido que doía e um ritmo descompassado preenchia o meu peito.
Era isso.
Era assim que eu ia morrer. Despedaçada em uma Arena congelada, meu corpo nem mesmo quente o suficiente para uma pira adequada.
Minhas pernas quase cederam. Uma tristeza ácida e aguda subiu pela minha garganta e as lágrimas encheram os meus olhos.
Pensei no Daniel, que esperava o meu retorno e torcia por mim com todo o coração. Pensei no meu grupo, encolhido na caverna, contando comigo para levar fogo.
E então, de forma absurda, pensei no Kieran. No calor das suas mãos em mim na noite passada, longe do perigo e do gelo. Pensei na fúria brilhante com que ele desmantelou os renegados que me sequestraram. Se ele estivesse aqui, saberia o que fazer. Ele me salvaria.
O desespero me cortou tão profundamente que quase me dobrei. E, naquele abismo de desesperança, quando pensei que nada nem ninguém poderia me ajudar...
'À esquerda, Sera.'
Uma voz.
Suave, baixa, atravessando a minha mente como a mais leve ondulação sobre água parada.
'Mova-se devagar. Não perca o contato visual.'
Minha respiração parou. Que diabos?
O urso rosnou novamente, movendo o seu peso e testando a distância entre nós.
A voz voltou a soar, mais firme desta vez. Confie em mim, Sera. Vá para a esquerda. Agora!'
Obedeci antes de questionar a mim mesma. Passo a passo, com o coração trovejando no peito, fui para a esquerda. As minhas botas esmagavam suavemente a neve e eu tomava cuidado para não fazer movimentos bruscos. O urso não investiu, ele se movia comigo, me acompanhando com os seus olhos inteligentes, mas mantendo distância.

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