PERSPECTIVA DA SERAPHINA
"Sera! Cadê você?"
Parecia que uma eternidade havia passado antes que a voz da Judy ecoasse pelas árvores, irregular e carregada de preocupação.
Logo depois, outra voz se juntou, a da Roxy, mais irritada do que preocupada. "Se você decidiu congelar o traseiro aqui fora, eu juro..."
"Tô aqui!" Eu gritei, com a voz falhando.
Minha garganta ainda ardia e eu não tinha certeza se a tensão no meu peito era do pânico persistente ou da onda de emoções por ouvir a Alina.
Minhas pernas bambearam enquanto eu descia a encosta e a minha respiração criava nuvens no ar gelado. Cada passo, cada apoio, parecia uma luta para sair da minha própria sepultura.
Quando finalmente alcancei as lanternas fracas dos outros competidores cintilando entre as árvores, meus braços tremiam sob o peso da lenha que eu havia recolhido novamente.
A maioria estava tão molhada que não servia para fazer uma fogueira, e eu me amaldiçoei por ter desapontado os meus colegas.
Judy quase me derrubou. "Deuses, Sera! Você me fez pensar que..." Ela se interrompeu, olhando para os cortes ensanguentados nas minhas mãos e para a lenha que eu segurava como se fosse uma tábua de salvação. "O que aconteceu?"
"Eu tô bem," menti, forçando um sorriso trêmulo. "Só demorei mais do que esperava porque escolhi um caminho mais longo."
Roxy cruzou os braços. "E qual foi esse caminho mais longo, pelo submundo? Parece que você viu um fantasma."
Segurei a minha língua. Eu não podia contar a elas sobre o urso sem explicar como escapei, o que significaria revelar a existência da Alina.
Ainda não.
"Vamos acender essa fogueira antes que todo mundo vire uma estátua de gelo, né?" Eu disse, começando a caminhada de volta para a caverna.
"É," Judy concordou. Ela estendeu a mão e pegou algumas das lenhas de mim. "O Finn e a Talia não estão nada bem."
Fiz uma careta. "É grave?"
Ela e a Roxy trocaram um olhar que fez a culpa e a preocupação se enrolarem no meu estômago.
"Vamos agilizar," Roxy murmurou.
O caminho de volta para a caverna foi mais curto do que eu lembrava e fiquei grata por isso. Durante todo o trajeto, permaneci alerta, vasculhando as árvores em busca de qualquer sinal do urso.
Mas, felizmente, chegamos sem nenhum incidente.
"Droga," sussurrei.
O Finn e a Talia estavam entrelaçados. Suas peles tinham assumido um tom azul-gelo e eu não conseguia distinguir de quem eram os tremores violentos.
Eu demorei demais. Se não os aquecêssemos logo, o frio os levaria antes do amanhecer.
Imediatamente começamos a trabalhar e, em pouco tempo, uma fogueira crepitava dentro da caverna, as chamas lambendo ansiosamente a lenha que empilhei.
A fumaça subia em direção ao teto rochoso, escapando por aberturas invisíveis, enquanto a luz nos banhava em um brilho frágil.
Frágil era mesmo a palavra certa, porque, mesmo perto das chamas, os tremores violentos do Finn e da Talia mal diminuíam.
Seus corpos sacudiam em solavancos, como marionetes com fios desgastados. Judy esfregava as mãos da Talia entre as dela, murmurando palavras que eu não conseguia ouvir.
Roxy levantou os braços. "Isso é loucura. O Lucian deve saber que os Ômegas não sobreviveriam a essa situação. O que ele tava pensando? Quer nos fazer lutar contra a hipotermia ao invés de procurar um talismã?"
O som rachado na voz dela atingiu um ponto sensível em mim. Porque, uma parte de mim, já tinha se perguntado o mesmo.
"Roxy," Judy interrompeu, "não começa."
"Não começa? Olha pra eles!" Roxy apontou para a Talia, depois para o Finn. "A gente devia provar o nosso valor, não se arrastar pra covas rasas! Você realmente acha que não fomos colocados em desvantagem desde o início nessa Arena?"
Silêncio. Suas palavras ecoaram pelas paredes da caverna.
Eu apertei as mãos em punhos sobre o meu colo. "Já chega, Roxy."
A cabeça dela se virou bruscamente para mim, desafiadora: "Me diz que tô errada, nascida-Alfa. Me diz que você não vê isso também."
Enfrentei o olhar dela firmemente, mesmo sem sentir tal firmeza. "Eu tô vendo os meus companheiros congelando, mas discutir não vai mantê-los vivos. Lembra do primeiro desafio? Lembra como nos sentimos invencíveis enquanto os lobos mais fortes caíam com a névoa? Não te ouvi reclamar aquele dia."
A boca da Roxy se abriu, depois se fechou. Ela murmurou algo baixinho, mas se virou.
"Tudo nesses desafios tem um motivo," acrescentei calmamente. "Confie nisso." Pelo menos era o que eu estava tentando fazer.
Foi então que a Alina se moveu dentro de mim, a sua voz roçando as bordas da minha mente como veludo: 'Mais fundo na caverna, Sera. Tem algo lá que pode ajudar.'
Prendi a respiração: 'O quê?'
'Um fruto. Duro e pequeno, pendurado nas videiras. Eles foram colocados aqui pra vocês, pra lobos que não conseguem suportar o frio como vocês. Encontre-os.'
Não hesitei. A Judy e a Roxy franziram a testa para mim enquanto eu me levantava de um salto. "Fiquem aqui. Mantenham a fogueira acesa."
Peguei a minha mochila. "Volto já."
"Sério?"
"De novo?"
Eu assenti. "Dessa vez, não vou sair, vou mais pra dentro."
Roxy arqueou a sobrancelha. "E isso é melhor?"
Cruzei os braços. "Prefere congelar até a morte?"
Roxy voltou-se para o fogo. "Divirta-se."

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