PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Por um momento, o mundo parou entre eles, incluindo o zumbido dos motores, o farfalhar do ar noturno e até mesmo a pequena mão do Daniel na minha.
Tudo que existia eram os dois braços estendidos e os dois olhares contrastantes, um caloroso e outro penetrante.
Eu me sentia em uma verdadeira encruzilhada, como se a escolha à minha frente tivesse um peso muito maior do que apenas decidir em qual carro eu ia embora.
Droga, eu deveria ter vindo com o meu próprio carro. Revendo a decisão agora, ter caminhado até a SDS para que o ar fresco da manhã acalmasse os meus nervos antes do desafio final foi uma ideia idiota.
Fiquei parada e indecisa por tempo demais.
Então, o Daniel puxou levemente a minha mão e inclinou a cabeça em direção ao pai.
"Mãe, a gente pode ir pra casa primeiro? Tenho mais uma surpresa pra você."
E, assim, a decisão se tomou sozinha.
Sorri, apesar da tensão no ar, como um raio prestes a cair.
"Claro, meu amor."
Me virei para o Kieran. "Vamos com você."
Dei um sorriso de desculpas para o Lucian e fiquei preocupada que ele se sentisse rejeitado. Por mais que quisesse passar um tempo com ele após tantos dias separados, o Daniel sempre seria minha prioridade.
O sorriso do Lucian não vacilou, mas percebi um rápido relance de decepção. Os olhos dele de repente ficaram mais frios, fazendo o meu peito doer de culpa.
"Acho que nos vemos na festa," ele disse suavemente, baixando a mão.
"Foi um prazer te conhecer, de verdade, Senhor," Daniel disse, sorrindo calorosamente para o Lucian.
O sorriso do Lucian se alargou. "Pode me chamar de Lucian."
"Lucian," repetiu o Daniel animadamente, e eu tive quase certeza de que o som de dentes rangendo veio do maxilar travado do Kieran.
Quando o Lucian olhou para mim novamente, ele piscou, e o nó apertado no meu peito se afrouxou um pouco. Nos veríamos na festa. Conversaríamos e tudo voltaria a ser como era antes do Torneio.
Certo?
Não nos movemos até que o carro do Lucian desapareceu do estacionamento.
"Bom," Kieran pigarreou, com a mão ainda estendida e a expressão indecifrável, "vamos?"
O fato de não conseguir entender exatamente o que ele estava sentindo estava me enlouquecendo. Mas isso não me impediu de tentar.
Não era triunfo que eu via na expressão dele. Nem satisfação. Era algo mais... desalinhado? Como se o chão sob ele tivesse mudado e ele não confiasse mais na própria firmeza.
Ou talvez eu estivesse apenas projetando os meus próprios sentimentos.
"Sim." Apertei a mão do Daniel. "Vamos lá."
O caminho até em casa foi majoritariamente silencioso, exceto pelo som suave do Daniel cantarolando no banco de trás. A felicidade dele preencheu o espaço pequeno e aqueceu o ambiente. Pela primeira vez, o silêncio entre o Kieran e eu não estava pesado e tenso.
Quando estacionamos na frente de casa, quase esperei que a situação ficasse constrangedora, mas o Daniel saiu do carro com tanta empolgação que qualquer sentimento negativo foi ofuscado.
"Lar, doce lar!" ele exclamou, enquanto girava na entrada.
Vê-lo enchia o meu coração até quase explodir. Ele tinha morado aqui apenas algumas semanas antes de se mudar para a Ilha do Kieran, então o fato de ver a casa como um lar fez os meus olhos se encherem de lágrimas de alegria.
"Vamos, Mãe!" ele disse, puxando o meu pulso. "Você não pode usar essa roupa na sua festa!"
O riso baixo do Kieran nos seguiu. "Ele tem razão," murmurou, com aquele tom profundo que sempre conseguia me deixar sem jeito.
Lancei um olhar para ele por cima do ombro e parei, erguendo uma sobrancelha. Não foquei na mala do Daniel, que ele arrastava atrás de si, mas sim na caixa de presente que ele segurava com a outra mão.
Ele a estendeu para mim solenemente, como uma oferenda a uma divindade. "Foi o Daniel que escolheu."
Pisquei. "Eu... não entendi."
"A Vovó Leona me levou pra fazer compras," o Daniel explicou, pegando a caixa da mão do Kieran e me entregando com muito menos reverência. "É o seu vestido de comemoração!"
Meu fôlego falhou.
"Danny, você não precisava..."
"Ah, só abre logo!" ele disse, cheio de entusiasmo.
Peguei a caixa, rindo. Lentamente, abri a tampa... e fiquei paralisada.
Dentro, havia um vestido simplesmente deslumbrante: de um cetim preto tão suave que refletia a luz como tinta líquida e entrelaçado com um delicado filigrana dourado que brilhava na barra e no decote.
O contraste era ao mesmo tempo visível e discreto, como algo esculpido da união da noite com a luz. Sapatos de salto elegantes e com tiras douradas estavam acomodados sob uma camada de papel macio.
Coloquei a mão na boca. "Oh, querido."
Lágrimas arderam nos meus olhos antes que eu pudesse contê-las. Estendi a mão para o Daniel, mas ele se esquivou, rindo. "Chega de abraços! Precisamos nos arrumar."
Ri suavemente e o som se desfez do meu peito. "Seu mini Alfa mandão."
Ele ergueu o queixo com orgulho. "Só quero que tudo seja perfeito."
Eu me ajoelhei, dando um abraço rápido nele de qualquer maneira, e beijei a sua testa. "Obrigada, meu amor."
Quando ergui o olhar, encontrei o do Kieran por cima da cabeça do Daniel.
'Obrigada,' gesticulei com os lábios.
Ele deu de ombros, mas seu olhar suavizou. "Eu não comprei o vestido."
Meu sorriso se alargou. "Não é pelo vestido."
***

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei