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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 162

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

Por um momento, o mundo parou entre eles, incluindo o zumbido dos motores, o farfalhar do ar noturno e até mesmo a pequena mão do Daniel na minha.

Tudo que existia eram os dois braços estendidos e os dois olhares contrastantes, um caloroso e outro penetrante.

Eu me sentia em uma verdadeira encruzilhada, como se a escolha à minha frente tivesse um peso muito maior do que apenas decidir em qual carro eu ia embora.

Droga, eu deveria ter vindo com o meu próprio carro. Revendo a decisão agora, ter caminhado até a SDS para que o ar fresco da manhã acalmasse os meus nervos antes do desafio final foi uma ideia idiota.

Fiquei parada e indecisa por tempo demais.

Então, o Daniel puxou levemente a minha mão e inclinou a cabeça em direção ao pai.

"Mãe, a gente pode ir pra casa primeiro? Tenho mais uma surpresa pra você."

E, assim, a decisão se tomou sozinha.

Sorri, apesar da tensão no ar, como um raio prestes a cair.

"Claro, meu amor."

Me virei para o Kieran. "Vamos com você."

Dei um sorriso de desculpas para o Lucian e fiquei preocupada que ele se sentisse rejeitado. Por mais que quisesse passar um tempo com ele após tantos dias separados, o Daniel sempre seria minha prioridade.

O sorriso do Lucian não vacilou, mas percebi um rápido relance de decepção. Os olhos dele de repente ficaram mais frios, fazendo o meu peito doer de culpa.

"Acho que nos vemos na festa," ele disse suavemente, baixando a mão.

"Foi um prazer te conhecer, de verdade, Senhor," Daniel disse, sorrindo calorosamente para o Lucian.

O sorriso do Lucian se alargou. "Pode me chamar de Lucian."

"Lucian," repetiu o Daniel animadamente, e eu tive quase certeza de que o som de dentes rangendo veio do maxilar travado do Kieran.

Quando o Lucian olhou para mim novamente, ele piscou, e o nó apertado no meu peito se afrouxou um pouco. Nos veríamos na festa. Conversaríamos e tudo voltaria a ser como era antes do Torneio.

Certo?

Não nos movemos até que o carro do Lucian desapareceu do estacionamento.

"Bom," Kieran pigarreou, com a mão ainda estendida e a expressão indecifrável, "vamos?"

O fato de não conseguir entender exatamente o que ele estava sentindo estava me enlouquecendo. Mas isso não me impediu de tentar.

Não era triunfo que eu via na expressão dele. Nem satisfação. Era algo mais... desalinhado? Como se o chão sob ele tivesse mudado e ele não confiasse mais na própria firmeza.

Ou talvez eu estivesse apenas projetando os meus próprios sentimentos.

"Sim." Apertei a mão do Daniel. "Vamos lá."

O caminho até em casa foi majoritariamente silencioso, exceto pelo som suave do Daniel cantarolando no banco de trás. A felicidade dele preencheu o espaço pequeno e aqueceu o ambiente. Pela primeira vez, o silêncio entre o Kieran e eu não estava pesado e tenso.

Quando estacionamos na frente de casa, quase esperei que a situação ficasse constrangedora, mas o Daniel saiu do carro com tanta empolgação que qualquer sentimento negativo foi ofuscado.

"Lar, doce lar!" ele exclamou, enquanto girava na entrada.

Vê-lo enchia o meu coração até quase explodir. Ele tinha morado aqui apenas algumas semanas antes de se mudar para a Ilha do Kieran, então o fato de ver a casa como um lar fez os meus olhos se encherem de lágrimas de alegria.

"Vamos, Mãe!" ele disse, puxando o meu pulso. "Você não pode usar essa roupa na sua festa!"

O riso baixo do Kieran nos seguiu. "Ele tem razão," murmurou, com aquele tom profundo que sempre conseguia me deixar sem jeito.

Lancei um olhar para ele por cima do ombro e parei, erguendo uma sobrancelha. Não foquei na mala do Daniel, que ele arrastava atrás de si, mas sim na caixa de presente que ele segurava com a outra mão.

Ele a estendeu para mim solenemente, como uma oferenda a uma divindade. "Foi o Daniel que escolheu."

Pisquei. "Eu... não entendi."

"A Vovó Leona me levou pra fazer compras," o Daniel explicou, pegando a caixa da mão do Kieran e me entregando com muito menos reverência. "É o seu vestido de comemoração!"

Meu fôlego falhou.

"Danny, você não precisava..."

"Ah, só abre logo!" ele disse, cheio de entusiasmo.

Peguei a caixa, rindo. Lentamente, abri a tampa... e fiquei paralisada.

Dentro, havia um vestido simplesmente deslumbrante: de um cetim preto tão suave que refletia a luz como tinta líquida e entrelaçado com um delicado filigrana dourado que brilhava na barra e no decote.

O contraste era ao mesmo tempo visível e discreto, como algo esculpido da união da noite com a luz. Sapatos de salto elegantes e com tiras douradas estavam acomodados sob uma camada de papel macio.

Coloquei a mão na boca. "Oh, querido."

Lágrimas arderam nos meus olhos antes que eu pudesse contê-las. Estendi a mão para o Daniel, mas ele se esquivou, rindo. "Chega de abraços! Precisamos nos arrumar."

Ri suavemente e o som se desfez do meu peito. "Seu mini Alfa mandão."

Ele ergueu o queixo com orgulho. "Só quero que tudo seja perfeito."

Eu me ajoelhei, dando um abraço rápido nele de qualquer maneira, e beijei a sua testa. "Obrigada, meu amor."

Quando ergui o olhar, encontrei o do Kieran por cima da cabeça do Daniel.

'Obrigada,' gesticulei com os lábios.

Ele deu de ombros, mas seu olhar suavizou. "Eu não comprei o vestido."

Meu sorriso se alargou. "Não é pelo vestido."

***

E se, ao sairmos para a noite fria, uma quieta sensação de calor, a ilusão de algo completo, se instalasse no meu peito, eu deixaria que permanecesse lá. Só por esta noite.

***

PERSPECTIVA DO KIERAN

Eu não conseguia definir o sentimento que apertou o meu peito ao ver a Sera descer as escadas, com o braço do Daniel entrelaçado confiantemente na dela. O suave brilho dourado do vestido dela capturava a luz das escadas e ondulava como uma chama contra o tecido preto.

Era uma imagem silenciosa e devastadora de serenidade, de graça e de uma beleza que eu nunca me permiti apreciar.

Momentos como este poderiam ter acontecido centenas de vezes ao longo do nosso casamento, e, no entanto, nunca aconteceram.

Eu escolhi o silêncio em vez do riso, a distância em vez do calor, o controle em vez da conexão. Convenci-me de que era o dever que nos unia, não o afeto, e de que amar ela não era necessário para mantermos a paz. Que a indiferença era mais segura.

Mas agora, ao vê-la resplandecente com a alegria do nosso filho e a sua vitória, senti o peso de cada momento perdido. Cada refeição feita separadamente. Cada conversa unilateral que eu interrompia. Cada momento íntimo que deixei esfriar.

Em outra vida, talvez esse tivesse sido o nosso normal. O sorriso dela não teria aquela sutil desconfiança. O riso do Daniel não soaria como um milagre frágil. Não estaríamos na casa que ela comprou para se afastar de mim.

Enquanto dirigíamos em direção ao local do evento, o Daniel enchia o carro com a sua tagarelice incessante, a sua voz brilhando com aquele tipo de entusiasmo que me fazia pensar que ele funcionava com alguma fonte infinita de energia.

Sera ouvia com uma atenção encantada, sempre virando a cabeça para o banco de trás. Os lábios curvados em um sorriso dela pareciam me implorar para parar o carro e apenas olhar.

Ela fazia perguntas e ria suavemente das histórias dele, e me peguei participando uma ou duas vezes antes de perceber que não sabia quando foi a última vez que soamos assim, como uma família.

Não... Eu me lembrava. Na Ilha, quando éramos apenas nós, outro momento fugaz que já era uma memória desbotando, fora do meu alcance.

Enquanto os risos ecoavam entre nós, se entrelaçando em uma bela sinfonia, eu pude imaginar, por um breve e doloroso segundo, que as coisas poderiam ter sido assim se eu não a tivesse afastado.

O pensamento se retorceu no meu peito.

O que teria sido diferente se eu tivesse feito a minha parte em vez de ficar atrás das minhas muralhas de arrogância e raiva?

Se eu tivesse me permitido ver a Sera, não a sombra dela, não a culpa e a obrigação que ela representava, mas a mulher real que esteve ao meu lado, linda, ferida, corajosa e muito paciente comigo?

Minhas mãos apertaram o volante e um arrependimento demasiadamente familiar estacionou como uma pedra atrás das minhas costelas, pesado e imóvel.

Não havia como desfazer o passado, nem recuperar os anos que desperdicei fingindo que não me importava.

E, no entanto, sentado ao lado dela agora, ouvindo o riso do Daniel preencher o carro como luz, não pude deixar de desejar ter me esforçado mais, ter lutado por essa vida, seja lá como fosse, antes de ter deixado tudo escapar tão imprudentemente.

Antes que eu pudesse seguir o pensamento até o fim, as luzes do local da festa surgiram, derramando um brilho dourado sobre a calçada.

A música flutuava pela noite, misturando-se com risadas e o tilintar de copos. Reduzi a velocidade do carro e a ilusão começou a se desfazer pouco a pouco.

E então eu o vi, e tudo se despedaçou de vez.

Esperando casualmente na entrada, com uma mão no bolso e vestindo um terno azul marinho feito sob medida, estava Lucian Reed.

Meu estômago se contraiu. O calor efêmero do percurso se dissipou, qualquer frágil fantasia que existira tinha sumido e tudo o que restou foi a dura e brutal verdade: nós não éramos mais uma família.

E a culpa era toda minha.

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