PERSPECTIVA DO LUCIAN
Já fazia dois dias que eu não dormia.
Não que alguém fosse perceber. Com o tempo, eu tinha me tornado especialista em esconder o cansaço, camuflando-o atrás de uma fachada bem treinada.
Mas, quando vi a Sera parada no limite do acampamento, congelada de choque por causa da minha presença, eu soube que compostura nenhuma poderia disfarçar o que estava estampado no meu rosto.
Agora, havia uma barreira entre nós que eu podia sentir tão certamente quanto o calor do fogo contra a minha pele.
Contudo, além da distância, o que mais me abalou não foi a hostilidade. Foi a tranquilidade dela, inquietante e serena.
Não era raiva. Não era ressentimento. Era algo mais frio, mais silencioso.
Aceitação.
Ela já tinha aceitado a minha ausência antes mesmo que eu pudesse compreender o que isso significava. Quando a Judy a chamou de lado mais cedo, eu não precisei ouvir as palavras para adivinhar a conversa.
E, quando a Talia, sem saber, nos colocou juntos, a decisão da Sera de concordar, de trabalhar comigo, parecia ao mesmo tempo um gesto de misericórdia e uma punição.
Eu sabia o que ela estava fazendo: mantendo a paz, tentando não arruinar a experiência para os outros.
Essa era a Sera: infinitamente altruísta e atenciosa, mesmo em detrimento de si mesma.
Ainda assim, a sua disposição para trabalhar comigo acendeu uma fagulha perigosa e frágil dentro de mim. Esperança.
Enquanto trabalhávamos lado a lado, me permiti imaginar, só por um instante, que nada tinha mudado entre nós e que o silêncio era amigável em vez de tenso.
O fogo chiava enquanto a gordura pingava nas chamas e as risadas ecoavam em algum lugar atrás de nós. Eu quase acreditei que estavam tudo bem, até que ela estendeu a mão para a pilha de guardanapos balançando na beira da mesa.
Antes que eu pudesse pensar, a minha mão se estendeu para estabilizar a pilha e os nossos dedos se tocaram de leve.
Nós dois congelamos.
"Toma", eu disse, um pouco rígido.
Os olhos dela se levantaram, surpreendidos, como se ela não esperasse que eu dissesse alguma coisa.
"Obrigada", ela murmurou, pegando os guardanapos.
"De nada", consegui responder suavemente.
Ela me ofereceu um pequeno sorriso, breve e quase imperceptível, que ainda assim me atingiu como um soco no peito.
Não era perdão. Mas talvez... uma trégua.
Pela primeira vez em dias, senti que podia respirar.
Mas aquele momento breve e delicado destravou alguma coisa que eu mantinha bem guardada. As memórias escaparam antes que eu pudesse detê-las e estávamos de volta ao salão de exposições, pairando sobre as palavras que destruíram tudo.
Meu primeiro instinto foi me arrepender de ter dito a verdade para ela.
Mas, no fundo, eu me arrependi verdadeiramente de não ter contado tudo antes.
Eu tinha sido cego. Arrogante. Convencido de que, ao controlar o que ela sabia, eu poderia controlar o que a machucava. Acreditei que a ignorância poderia protegê-la da dor.
No fim, tudo o que eu fiz foi privá-la de escolha.
A Sera nunca precisou ser salva. Ela precisava de honestidade. Transparência.
E, ao negar isso a ela, tornei-me exatamente o que eu desprezava no Kieran.
Pecados diferentes, mesmo resultado: a perda dela.
O pensamento pesava no meu peito. Eu desejava poder voltar no tempo, rebobinar tudo e consertar o nosso relacionamento antes que se quebrasse. Mas eu não podia.
Então, me agarrei à única coisa que restava, aquele sentimento frágil e perigoso: a esperança. Porque a alternativa, a ideia de que ela tinha realmente saído da minha vida, era insuportável.
Eu finalmente entendi: eu não queria a Sera por causa da sua descendência ou porque ela se encaixava na ideia do que eu achava que precisava.
Naquela sala de exposição, a minha confissão nasceu do desespero e foi uma tentativa imprudente de impedi-la de ir embora. Mas, no silêncio que se seguiu, nas noites em que a saudade dela me esvaziava, percebi outra coisa.
Eu não menti. Eu a amava.
Em algum momento, não sei dizer quando, eu realmente e verdadeiramente me apaixonei pela Sera.
Eu não ia pressioná-la, não até que ela estivesse pronta. Mas também não ia desaparecer. E eu nunca pararia de tentar me tornar alguém digno da sua escolha.
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