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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 181

PERSPECTIVA DO LUCIAN

Já fazia dois dias que eu não dormia.

Não que alguém fosse perceber. Com o tempo, eu tinha me tornado especialista em esconder o cansaço, camuflando-o atrás de uma fachada bem treinada.

Mas, quando vi a Sera parada no limite do acampamento, congelada de choque por causa da minha presença, eu soube que compostura nenhuma poderia disfarçar o que estava estampado no meu rosto.

Agora, havia uma barreira entre nós que eu podia sentir tão certamente quanto o calor do fogo contra a minha pele.

Contudo, além da distância, o que mais me abalou não foi a hostilidade. Foi a tranquilidade dela, inquietante e serena.

Não era raiva. Não era ressentimento. Era algo mais frio, mais silencioso.

Aceitação.

Ela já tinha aceitado a minha ausência antes mesmo que eu pudesse compreender o que isso significava. Quando a Judy a chamou de lado mais cedo, eu não precisei ouvir as palavras para adivinhar a conversa.

E, quando a Talia, sem saber, nos colocou juntos, a decisão da Sera de concordar, de trabalhar comigo, parecia ao mesmo tempo um gesto de misericórdia e uma punição.

Eu sabia o que ela estava fazendo: mantendo a paz, tentando não arruinar a experiência para os outros.

Essa era a Sera: infinitamente altruísta e atenciosa, mesmo em detrimento de si mesma.

Ainda assim, a sua disposição para trabalhar comigo acendeu uma fagulha perigosa e frágil dentro de mim. Esperança.

Enquanto trabalhávamos lado a lado, me permiti imaginar, só por um instante, que nada tinha mudado entre nós e que o silêncio era amigável em vez de tenso.

O fogo chiava enquanto a gordura pingava nas chamas e as risadas ecoavam em algum lugar atrás de nós. Eu quase acreditei que estavam tudo bem, até que ela estendeu a mão para a pilha de guardanapos balançando na beira da mesa.

Antes que eu pudesse pensar, a minha mão se estendeu para estabilizar a pilha e os nossos dedos se tocaram de leve.

Nós dois congelamos.

"Toma", eu disse, um pouco rígido.

Os olhos dela se levantaram, surpreendidos, como se ela não esperasse que eu dissesse alguma coisa.

"Obrigada", ela murmurou, pegando os guardanapos.

"De nada", consegui responder suavemente.

Ela me ofereceu um pequeno sorriso, breve e quase imperceptível, que ainda assim me atingiu como um soco no peito.

Não era perdão. Mas talvez... uma trégua.

Pela primeira vez em dias, senti que podia respirar.

Mas aquele momento breve e delicado destravou alguma coisa que eu mantinha bem guardada. As memórias escaparam antes que eu pudesse detê-las e estávamos de volta ao salão de exposições, pairando sobre as palavras que destruíram tudo.

Meu primeiro instinto foi me arrepender de ter dito a verdade para ela.

Mas, no fundo, eu me arrependi verdadeiramente de não ter contado tudo antes.

Eu tinha sido cego. Arrogante. Convencido de que, ao controlar o que ela sabia, eu poderia controlar o que a machucava. Acreditei que a ignorância poderia protegê-la da dor.

No fim, tudo o que eu fiz foi privá-la de escolha.

A Sera nunca precisou ser salva. Ela precisava de honestidade. Transparência.

E, ao negar isso a ela, tornei-me exatamente o que eu desprezava no Kieran.

Pecados diferentes, mesmo resultado: a perda dela.

O pensamento pesava no meu peito. Eu desejava poder voltar no tempo, rebobinar tudo e consertar o nosso relacionamento antes que se quebrasse. Mas eu não podia.

Então, me agarrei à única coisa que restava, aquele sentimento frágil e perigoso: a esperança. Porque a alternativa, a ideia de que ela tinha realmente saído da minha vida, era insuportável.

Eu finalmente entendi: eu não queria a Sera por causa da sua descendência ou porque ela se encaixava na ideia do que eu achava que precisava.

Naquela sala de exposição, a minha confissão nasceu do desespero e foi uma tentativa imprudente de impedi-la de ir embora. Mas, no silêncio que se seguiu, nas noites em que a saudade dela me esvaziava, percebi outra coisa.

Eu não menti. Eu a amava.

Em algum momento, não sei dizer quando, eu realmente e verdadeiramente me apaixonei pela Sera.

Eu não ia pressioná-la, não até que ela estivesse pronta. Mas também não ia desaparecer. E eu nunca pararia de tentar me tornar alguém digno da sua escolha.

***

Os olhos dela percorreram os dois lados da carta e se arregalaram. "Ah."

"O que tá escrito?" Judy perguntou.

"Beije a pessoa que você acha mais atraente do grupo, ou..." ela virou a carta, "revele o seu maior arrependimento."

A respiração da Sera ficou presa.

Um silêncio constrangedor pairou sobre o grupo e eu tive certeza de que todos sabiam o que tinha acontecido entre a Sera e eu.

Sera fixou o olho nas chamas com determinação, fingindo não perceber os olhares que passavam entre nós. No brilho do fogo, eu podia ver o rubor subir nas suas bochechas.

O jogo era bobo, infantil e alguém do meu nível social não tinha brincar com aquilo.

Mas eu também não tinha que ter ido nesse acampamento. Eu abusei do meu poder como fundador da SDS para me convidar, pensando que seria uma oportunidade de ver a Sera.

Engoli em seco e o meu olhar demorando um pouco mais do que deveria nela.

Houve um tempo em que eu não hesitaria, um tempo em que eu aceitaria o desafio só para deixá-la sem graça, só para ver ela tentar esconder aquele sorriso tímido atrás do cabelo.

Mas aquele tempo já tinha passado e eu vi a situação como uma nova oportunidade. Então, limpei a garganta. "Verdade."

Sera finalmente olhou para mim. Foi apenas um olhar rápido, mas era o suficiente. Havia uma leve ruga entre as suas sobrancelhas, algo indiscernível brilhando por trás dos olhos.

Talvez alívio. Ou curiosidade.

“Certo, então,” a Roxy disse, um pouco mais calma. “Capricha. Qual é o seu maior arrependimento, Lucian?”

Até mesmo o fogo pareceu se acalmar, crepitando de forma suave e constante. O grupo se mexeu e trocou olhares em silêncio enquanto esperava pela minha resposta.

Eu poderia ter feito uma piada ou dito algo seguro, algo distante.

Mas, depois de tudo o que tinha acontecido, a ideia de fingir novamente fez o meu peito doer.

Então, não fingi.

"Meu maior arrependimento..." comecei, com a voz mais áspera do que pretendia, "foi não ter sido honesto quando importava."

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