PERSPECTIVA DA SERAPHINA
A resposta do Lucian pairava no ar noturno, tão carregada que até a floresta parecia tensa e prendia a respiração.
E ele não tinha terminado.
"Se eu tivesse sido honesto desde o começo, se eu tivesse confiado em alguém o suficiente para compartilhar a verdade em vez de controlar a narrativa, talvez as coisas tivessem sido diferentes."
"Quem?" A voz suave do Finn flutuou pelo ar.
O olhar do Lucian permaneceu fixo no fogo e o reflexo do brilho tremulou nos seus olhos.
"Alguém que merecia mais," ele disse, em voz baixa. "Alguém que eu machuquei quando achei que tava protegendo."
Ninguém falou nada. O riso fácil habitual que enchia o acampamento desvaneceu-se em um silêncio reverente, interrompido apenas pelo estalar agudo das chamas.
Até mesmo o fogo parecia queimar mais baixo e o seu brilho alaranjado pintava os rostos de todos com uma luz contemplativa.
Eu meio que esperava que o Lucian dissesse algo enigmático ou charmoso, o tipo de frase polida que os Alfas costumam usar para salvar a própria imagem. Mas isso... Isso não era para impressionar.
O peso na voz cautelosa e arrependida dele carregava uma honestidade que não era performática. Ele não disse aquilo por simpatia ou atenção, ele estava assumindo o seu erro.
Um nó se formou na minha garganta.
Eu sabia que não deveria aprofundar a interpretação da fala dele, não deveria pressupor que todo arrependimento que ele mencionou era sobre mim, mas cada sílaba que ele falou pareceu abrir caminho diretamente através das minhas defesas.
Percebi então que o Lucian não tinha escolhido a verdade por orgulho ou arrogância. Ele fez isso por mim.
Ele não queria me deixar desconfortável com o desafio. Ele escolheu o caminho mais difícil, da honestidade, sabendo que isso poderia expô-lo de uma forma com a qual ele certamente não estava acostumado.
A luz do fogo iluminou a expressão sombria, desprotegida e tão crua dele que o meu peito se apertou. Ele não estava apenas falando de culpa. Ele estava falando de arrependimento, do tipo que te consome muito tempo depois que a poeira abaixou.
A voz da Alina soou levemente no fundo da minha mente, gentil e comedida: 'Ele fala sério. Ele é um bom Alfa. Imperfeito, mas bom. Não é de se admirar que ele já tenha conquistado o seu afeto.'
Engoli em seco e fixei o olhar nas chamas dançantes.
“Tá bom,” Roxy exalou, inclinando-se para girar a garrafa. “Proíbo qualquer um de escolher verdade.”
Risos espalhados ecoaram pelo grupo enquanto a garrafa parava na Talia.
O Lucian não olhou para mim nenhuma vez durante o resto do jogo e, de alguma forma, isso tornou tudo pior. Enquanto isso, os outros faziam ao contrário e me olhava, alguns abertamente, outros lançando olhares quando achavam que eu não via, mas os olhos arregalados e sobrancelhas franzidas demonstravam uma curiosidade sufocante.
Logo se tornou insuportável.
“Vou pegar um ar,” murmurei, embora estivéssemos literalmente ao ar livre.
Judy me deu um olhar compreensivo, mas não me deteve enquanto eu me levantava, limpando as cinzas e migalhas de biscoito da minha bermuda.
Caminhei alguns passos na direção do lago.
O ar da noite estava fresco e o cheiro de pinho era revigorante. Eu não percebi o quanto estava respirando superficialmente até me afastar da luz do fogo e o ar frio e fresco encher os meus pulmões com uma respiração profunda.
Um minuto depois, ouvi passos atrás de mim, e não precisei me virar para saber de quem eram.
“Eu… falei demais?” A voz do Lucian quebrou o silêncio, cuidadosa e hesitante.
Me virei. Ele estava a poucos passos de mim, com as mãos nos bolsos e a luz do fogo tremeluzindo atrás dele como uma aura.
A autoconfiança dele, que sempre foi a sua marca registrada, tinha desaparecido, dando lugar a um nervosismo pouco característico que estava se tornando cada vez mais frequente.
Suspirei. "Você não fez de propósito. Só... pegou todo mundo de surpresa."
Ele assentiu lentamente. "Todo mundo... ou só você?"
Exato.
Cruzei os braços, sentindo um arrepio inesperado. "Você não precisava ter respondido daquele jeito. Poderia ter sido mais vago."
Em um piscar de olhos, ele tirou o casaco e, antes que eu pudesse protestar, senti o peso da peça nos meus ombros. O calor do cheiro dele me envolveu e uma sensação de nostalgia tomou conta de mim.
"Eu não queria fazer isso," ele disse simplesmente. "Passei muito tempo me escondendo atrás de respostas vagas. Aliás, foi isso que nos trouxe a esta situação. Não vou mais fazer isso, Sera."
O tom dele mexeu comigo de uma forma profunda. De perto, era mais fácil perceber o cansaço gravado nas linhas do rosto dele e as sombras suaves sob os seus olhos.
Ele vinha mantendo uma fachada firme e aguentando as pontas. Mas, sob a luz da lua, aquela máscara não se sustentava tão bem.
"Você parece cansado," murmurei, antes que pudesse evitar.
Lucian soltou uma risada suave e baixa. "Numa escala de zero a dez, o quão clichê é ‘Não consigo dormir porque você não sai da minha cabeça’?"
Minha risada me pegou de surpresa. Mas, deuses, foi um riso bom.
Dois dias. Já ficamos sem nos falar por mais tempo do que isso, mas eu nunca percebi o quanto sentia falta do Lucian até este momento.
"Doze," respondi, com a voz mais leve do que eu esperava.
Ele assentiu. "É, era disso que eu tinha medo."
Ele deu um passo hesitante mais para perto. "Sera… sobre antes. Eu tava falando sério."
Afastei o olhar, observando o reflexo da luz da lua na superfície do lago. "Que você machucou alguém importante para você?"
"Que eu fui um idiota arrogante que achou que tava protegendo ela quando, na verdade, eu só estava controlando." As palavras dele estavam carregadas de emoção. "Não percebi os danos que causei até que fosse tarde demais."
A confissão foi como um golpe leve. Não tinha desculpas, nenhuma justificativa... apenas remorso.
"Você não precisa se desculpar novamente," eu disse calmamente.
"Eu preciso," ele insistiu. "Não porque espero que me perdoe ou..." ele suspirou, " que volte pra mim. Mas porque você merece ouvir. Eu sinto muito, Sera."
A sinceridade nos olhos dele me desarmou. Acho que eu esperava uma atitude defensiva ou orgulhosa de macho alfa. Mas isso... era diferente.
Por um breve momento, eu vi o Lucian por quem eu estava me apaixonando, aquele que tinha salvado a minha vida, que acreditou em mim antes de qualquer outra pessoa e que, acima de tudo, havia sido meu amigo.
Sorri levemente. "Desculpas aceitas."
As sobrancelhas dele se levantaram levemente, quase em descrença.
"Mas," acrescentei, "isso não significa que vamos… retomar alguma coisa. Vamos ser apenas amigos. Por enquanto."
Ele sorriu, mas não aquele sorriso encantador e ensaiado que exibia em eventos públicos, mas a curva pequena e honesta nos lábios que enrugou os cantos dos seus olhos.
"Amigos," ele repetiu, apenas um pouco resignado. "Posso lidar com isso."

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei