PERSPECTIVA DA CELESTE
Frio.
Essa foi a primeira sensação que atravessou a névoa na minha cabeça.
Não era aquela mordida aguda do ar de inverno, mas um frio úmido e mofado que se infiltrava nas minhas roupas e grudava na minha pele.
Meu corpo se sacudiu e o metal chacoalhou com o movimento. Então, eu percebi…
Meus pulsos não se moveram. Estavam presos por ferro frio.
O-o que?
Meus cílios piscaram e a minha visão estava embaçada. Por um momento, achei que ainda estava na suíte do hotel, com seus lençóis de seda, lustres brilhantes e a voz monótona do Brett torcendo na minha mente como um sonho cruel.
Mas suítes de hotéis não tinham esse cheiro de ferrugem, gasolina, suor e urina.
O meu entorno começou a ficar nítido. Junto com as imagens, veio um frio e um medo pesado.
Eu não estava em uma cama.
Eu estava sentada no chão de metal ondulado e estriado que balançava levemente embaixo de mim como se...
Como se eu estivesse em movimento.
Um caminhão.
Eu estava em um maldito caminhão.
Pisquei, assimilando o ambiente. O espaço era iluminado por finas frestas de luz que escapavam pelas rachaduras das portas traseiras fechadas. Sombras duras dançavam a cada solavanco na estrada. O teto era baixo. Minhas pernas estavam dobradas de forma desconfortável junto ao peito, já que não havia espaço para eu me esticar.
Meus pulsos estavam presos com grossas algemas conectadas a uma corrente fixada ao chão. Algo pesado envolvia os meus tornozelos também.
Ao meu redor, formas agachadas se moviam com respirações fracas e trêmulas. Mulheres. Moças. Algumas mal tinham chegado à adolescência. Todas usavam coleiras no pescoço e correntes que chacoalhavam a cada movimento. Os rostos delas estavam manchados de sujeira e lágrimas e algumas olhavam fixamente para frente como se suas almas já tivessem partido.
Um grito estrangulado saiu da minha garganta, rouco de pânico. Meu pescoço também estava sobrecarregado por uma coleira.
“Não,” sussurrei, com a voz rouca. “Não, não, não...”
O pânico me atingiu como uma onda gigante. Puxei as algemas dos meus pulsos e senti o metal cortando a pele. “EI! O QUE É ISSO? ME SOLTEM! ME DEIXEM...”
Uma bota acertou as minhas costelas tão depressa que nem a vi chegando.
O ar saiu dos meus pulmões enquanto o meu corpo se desmoronava de lado e a minha visão se enchia de estrelas brilhantes. A dor ardia como fogo sob a pele.
“Cala a boca”, rosnou uma voz masculina rude.
Uma sombra se ergueu sobre mim e precisei piscar para afastar as estrelas e poder vê-lo claramente. Ele vestia um casaco escuro e era de porte grande, com traços duros e cruéis na luz fraca.
As outras mulheres se encolheram para trás.
Arfei, lutando para puxar o ar. Choque e fúria batalhavam contra a descrença dentro de mim.
“Faça isso de novo,” eu disse, com as palavras carregadas de raiva, “e o meu noivo vai...”
Um estalo agudo cortou o ar.
Algo chicoteou o meu braço. Um chicote? Um cinto? Deuses, aquilo queimou e rasgou a minha pele com uma dor tão cruel que eu gritei antes de conseguir me conter.
"Olha a cara dela, idiota!" uma outra voz gritou da frente do caminhão. "As bonitinhas valem mais. Não estraga a mercadoria."
Mercadoria.
Mercadoria.
A palavra ecoou na minha cabeça como uma piada de mau gosto.
Um arrepio tomou conta de mim. Eu tremia, paralisada, e senti os pulmões sufocando com as tentativas frenéticas e inúteis de respirar.
Uma das garotas ao meu lado gemia baixinho, com os ombros contraídos.
O homem que tinha me golpeado bufou e deu um passo para trás. "Assim é melhor," murmurou, satisfeito agora que eu tinha me calado.
Meu coração batia descompassado no peito em um ritmo selvagem e caótico que nada tinha a ver com o frio.
Mercadoria.
Não.
Não, de jeito nenhum!
"Eu não sou..." Minha voz tremeu. Engoli as lágrimas e me forcei a falar com mais firmeza: "Eu sou Celeste Lockwood, filha de Edward e Margaret Lockwood da Alcateia Frostbane. Meu noivo é o Alfa Kieran Blackthorne da Alcateia NightFang. Se vocês não me soltarem dessas correntes agora..."
Risos.
Risos duros e zombeteiros.
"Você a acertou com força demais, idiota," alguém que eu não conseguia ver murmurou, com diversão na voz.
O homem que me agrediu cuspiu no chão. “Ah, claro, princesa,” ele debochou. “E eu sou o Rei da Corte.”
A piada os fez cair em outra rodada de gargalhadas grotescas.
“Você tá me ouvindo?” eu sibilei, agora mais irritada do que assustada. “Eu sou da realeza, caramba!”
“Aqui não tem realeza,” outro respondeu preguiçosamente. “Só vira-latas, Ômegas e gente sem lobo que ninguém liga.”
“Eu...” Minha voz tremia de fúria. Primeiro fui sequestrada e agora estava sendo classificada como a escória? “Eu não sou uma Ômega. Eu tenho uma loba. Eu sou...”
“Maluca, querida,” ele riu. “Você é maluca.”
“Seu desgraçado...”
O caminhão sacudiu violentamente ao atingir um buraco, nos jogando de lado. Meus pulsos doíam por cauda das correntes que me mantinham no lugar.
“Patético,” ele bufou.
Minha língua parecia pesada na boca e suor escorria pelas minhas costas, apesar do frio.
Eles não acreditaram em mim.
Ou pior, eles não se importavam.
Tentei superar o pânico e raciocinar.
Certo, o que eu sabia?
Eu lembrava do corredor. Lembrava de correr atrás do Brett. Das portas do elevador se fechando. Então... braços me agarrando. Mão sobre a minha boca. Sem chance de gritar. Nenhum cheiro para me apegar porque...
Porque a Kharis estava bloqueada.
Um tremor percorreu o meu corpo.
Se ela não estivesse trancada... se o vínculo entre nós não estivesse abafado... talvez eu tivesse sentido o perigo antes. Talvez eu pudesse ter reagido.
Mas eu a tinha enjaulado, sufocado a sua voz até que ela mal arranhasse a minha mente.
A voz do Brett, de mais cedo, cortou os meus pensamentos como uma lâmina quente:
‘Pare de manter a Kharis trancada como se ela fosse um incômodo que você gostaria que nunca tivesse existido.’
O pânico vacilou e a culpa rastejou para dentro de mim.
Não.
Afastei aquele pânico com uma vontade feroz. Me recusei a me entregar. Me recusei a me tornar mais uma daquelas mulheres de olhos vazios.
Pense, Celeste. Você é uma Lockwood. Foi criada para o poder e ensinada a sobreviver à política, aos jogos mentais, à guerra social...
Mas isso não era política. Eram correntes. Medo. Perigo real.
O caminhão desacelerou de repente.
Prendi a respiração.
Um murmúrio se espalhou pelas garotas ao meu redor, pequenos sons entrecortados, mais parecendo soluços sufocados pelo medo.
O guarda bateu duas vezes na parede de metal. "Chegamos!"
Chegamos. Onde diabos chegamos?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei