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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 184

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

Tudo começou com a água. A agua fria e escura batendo nos meus tornozelos, embora eu não conseguisse sentir o frio nos meus pés descalços.

Então veio o som. Um gotejar constante. Gotejo. Gotejo. Cada gota ecoava como se caísse em um recipiente profundo e oco.

O ar à minha frente estava enevoado, brumoso e irregular, e mesmo assim eu não sentia a minha respiração.

Meus pés estavam se movendo. Mas... eu não estava no controle deles.

Eu não resisti. Deixei que eles me guiassem adiante até que a névoa se dissipou, revelando uma escada estreita iluminada por uma lâmpada oscilante.

Os degraus de metal gemiam enquanto eu descia e percebi que o meu coração foi acelerando e que cada respiração era mais pesada do que a anterior.

Então eu ouvi... sussurros. Ou... murmúrios? Cantos? O som era estranho, vacilante, como se viesse de alguém que tinha esquecido como era o som de uma voz.

O porão surgiu à vista, sombrio e frio, com água empoçada em alguns cantos e correntes penduradas de forma descuidada ao longo de uma parede. E, no canto mais escuro e distante...

Celeste.

Ou pelo menos... uma versão distorcida dela.

O cabelo dela, outrora brilhante, agora pendia em tufos emaranhados ao redor do seu rosto como cipós murchos. As bochechas dela estavam encovadas e as suas clavículas salientes, angulares e muito definidas.

Ela usava uma camisa social rasgada, suja e esfarrapada perto da barra. Hematomas, antigos e novos, pintavam a sua pele.

O ar ficou preso na minha garganta.

"Celeste?" Minha voz ecoou na sala vazia. Estendi a mão, mas não consegui me aproximar. Agora, o meu corpo não se mexia.

Ela não olhou para cima, apenas se enroscou mais em si mesma e se balançou, com os joelhos puxados contra o peito como uma criança assustada se escondendo de monstros.

"Celeste!" Tentei de novo, o pânico marcando cada sílaba. "Sou eu, a Sera!"

Ela estremeceu e se abraçou ainda mais forte.

"Celeste, olha pra mim," eu sussurrei, com a voz falhando.

Lentamente, ela olhou.

Engoli em seco, surpresa.

Os olhos dela... Deuses.

Não estavam com raiva, nem convencidos, nem frios. Não eram nada do que eu estava acostumada.

Estavam apenas... vazios. Como se tudo o que ela era tivesse sido drenado por uma fenda em algum lugar que eu não conseguia ver.

Os lábios rachados dela se moveram, formando duas palavras silenciosas: 'Me ajuda'.

Meu corpo inteiro congelou de horror e de algo que eu não conseguia nomear, algo primitivo, visceral e avassalador.

"Celeste!" Eu gritei.

Acordei com um sobressalto.

Meus pulmões travaram como se eu tivesse inalado gelo e o meu coração martelava tão violentamente que achei que poderia estar morrendo.

Meu quarto estava escuro, exceto pela luz fraca da lua que se espalhava pelo chão através das cortinas.

Então...

Calor. Braços pequenos se enrolaram sonolentos ao redor da minha cintura.

"Mãe?" A voz do Daniel soou grossa e sonolenta. Ele ainda não tinha dormido no quarto dele desde que voltou e, essa noite, eu estava mais do que grata por isso.

"Você teve um pesadelo?"

A palma da mão dele pressionou suavemente o meu coração, sentindo o seu ritmo frenético, e as sobrancelhas dele se franziram. "Seu coração tá batendo muito rápido."

Eu forcei uma respiração. E depois outra.

Passei a mão pelo cabelo cacheado dele com um suspiro trêmulo.

"Foi só um sonho ruim," eu sussurrei, embora chamar de sonho parecesse um erro.

Aquilo foi real demais, como se eu estivesse lá, respirando a umidade daquele quarto e sentindo o medo da Celeste como se fosse meu.

"Você quer me contar?" ele murmurou, já quase dormindo de novo.

Se eu queria contar?

Eu queria explicar ao meu jovem filho o quão aterrorizante foi ver alguém tão ostensivo e extrovertido como a Celeste ser reduzida à... aquilo...

O que era aquilo?

"Não," murmurei, beijando a testa do Daniel. "Tô bem. Volta a dormir, querido."

Ele emitiu um som sonolento de concordância e se aconchegou mais perto de mim. Eu envolvi um braço ao redor dele, me sentindo ancorada pela batida constante do seu coraçãozinho.

Eventualmente, deitei de novo.

E não dormi.

***

A luz da manhã, suave e dourada, invadiu a cozinha pelas janelas como um pedido de desculpas silencioso pela madrugada.

Daniel bocejou e continuou a comer a sua aveia enquanto eu preparava lanches para o treinamento de Alfa dele. Ele já comia bastante na casa dos avós, mas os lanches eram como a minha pequena contribuição.

Ele não parava de me observar.

"Você tá muito quieta," ele disse finalmente, com a colher a meio caminho da boca.

"Eu sempre sou quieta," dei de ombros, descascando uma maçã.

"É," ele resmungou, "mas é aquele silêncio tão alto que até consigo ouvir os seus pensamentos."

Parei por um instante.

Não pude evitar um sorriso. "Você presta mais atenção nas coisas do que deveria."

Ele abriu um sorriso. "Com certeza."

Dessa vez, ri de verdade enquanto cortava a maçã. “Termina logo o seu café da manhã.”

Ele enfiou outra colherada na boca, exageradamente rápido e com uma careta como se estivesse me fazendo um favor grande e heroico.

Revirei os olhos carinhosamente e empurrei a água na direção dele. “Mastiga, Daniel. Tô criando um filhote de lobo, não um monstrinho.”

Ele deu uma risada pelo nariz, quase cuspindo a água. “Ou sou rápido ou sou comportado.”

Sacudi a cabeça, guardando as fatias de maçã em um pote.

Mas ele conseguiu instalar um sorriso no meu rosto. O calor e a luz dele afinaram a ansiedade que eu tinha carregado desde que acordei. Eu ainda estava quieta, mas os meus pensamentos já não eram tão barulhentos e caóticos quanto antes.

Finalmente consegui ouvir o baixo zumbido da geladeira e o Daniel balançando os pés contra a perna da cadeira, fora de ritmo, mas constante.

Quando ele terminou de comer, levou a tigela até a pia. “Você vai me buscar depois do treino?”

“Claro,” eu disse, fechando a lancheira.

“Beleza. Legal.” Ele hesitou, depois se aproximou. “E... você tá bem, né?”

Inalei devagar. “Vou ficar.”

Daniel não disse nada, apenas fez que sim com a cabeça como se acreditasse em mim.

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