PERSPECTIVA DO KIERAN
A voz áspera e ofegante da Margaret ainda ecoava na minha mente muito tempo depois do fim da ligação, o som de uma mãe que acabara de ter o chão arrancado sob os seus pés.
'Ela sumiu, Kieran.'
Por um momento, fiquei parado com o telefone pressionado no ouvido e o coração batendo no peito como se quisesse sair à força através das minhas costelas machucadas.
Sumiu. Racionalmente, disse a mim mesmo que a Celeste estava sendo dramática, impulsiva.
Poderia ser mais uma encenação, uma tentativa de chamar atenção, a maneira dela nos punir por não orbitarmos em torno do sua dor.
Nada disso me impediu de sair do meu escritório correndo e dirigir pelas ruas de Los Angeles como um louco.
Ethan e Margaret estavam no saguão do hotel quando cheguei.
Eles estava com a mandíbula travada, os ombros tensos e um braço em volta da mãe, como se estivesse tentando fisicamente impedi-la de desmoronar, enquanto ela agarrava a bolsa da Celeste como uma tábua de salvação.
O gerente nos olhava nervosamente enquanto repetia as informações pela décima vez: “Sim, a Senhorita Lockwood fez check-in há uma semana. Sim, há registros dela entrando e saindo do prédio. Não, não a vemos há um tempo... Estávamos sob a impressão de que ela não queria ser incomodada...”
Fui pessoalmente ver o quarto.
Estava exatamente como a Margaret tinha descrito. Lençóis mal tocados. Nada de malas, roupas ou cosméticos.
Os registros diziam que ela entrou e saiu do hotel.
Os alertas do meu cartão diziam que ela entrou e saiu de lojas de departamentos e spas.
Mas o quarto dela contava uma história diferente.
A inconsistência era evidente.
Agarrei a cômoda com tanta força que os nós meus dos dedos ficaram brancos. Um frio lentamente tomou conta de mim, cortante e penetrante.
Não era apenas um ataque de raiva.
Alguma coisa estava errado.
Quando voltamos para o saguão, o Ethan sentou a Margaret no sofá e colocou uma mão no ombro dela em um gesto de conforto, mas a sua expressão estava tensa.
"É culpa minha," Margaret disse de repente, abraçando a si mesma. "Aquele dia... Eu dei um tapa nela. Gritei com ela. Disse que ela era egoísta e ingrata. Eu nunca tinha batido na minha filha antes. Eu estava tão... furiosa..."
A voz dela se partiu e se transformou em um soluço ofegante.
Ethan se agachou e segurou as mãos trêmulas dela. "Não, Mãe. A culpa é minha. Sou o irmão mais velho dela, eu deveria ter feito mais. Eu deveria ter percebido o quanto ela estava mal. Eu deveria ter protegido ela."
Eu fiquei de lado, observando-os desmoronar até que as vozes deles se tornaram um ruído de fundo.
A culpa que pairava entre eles parecia contagiosa, deixando o ar mais denso.
A verdade pesava no meu peito.
A Margaret pode ter batido nela. O Ethan pode ter negligenciado ela. Mas a gota d'água fui eu quem colocou.
O término. Ele foi o catalisador dessa reação.
Eu explodi a ilusão de controle da Celeste, destruí os sonhos dela de se tornar a minha Luna e provavelmente a empurrei para um abismo.
Mas…
Eu não conseguia me arrepender da minha decisão. Nem mesmo com o desaparecimento dela.
Ainda assim, eu não podia negar que ela não teria chegado a esse ponto tão rapidamente se eu não tivesse terminado o relacionamento. Então, eu tinha que assumir a responsabilidade.
“Já tô organizando uma busca”, disse finalmente com um tom firme enquanto digitava instruções para o Gavin. “Os rastreadores da NightFang estão sendo informados. Vamos escanear os perímetros da cidade e dos territórios vizinhos. Vou mobilizar todos os recursos que tenho pra encontrá-la.”
Ethan virou a cabeça para mim de repente. “Não.”
Margaret olhou para cima e nós dois compartilhamos a mesma expressão de espanto.
Ethan se levantou com os ombros retos. A expressão dele endureceu, se tornando cortante: “Você não pode fazer isso agora, Kieran. Você não vai bancar o herói, não quando é parte do motivo de estarmos nessa situação.”
Eu mantive o olhar dele. Nesse momento, ele não era o meu melhor amigo. Ele era o irmão da Celeste.
“Independentemente de como você se sente sobre as minhas decisões,” eu disse, mantendo a voz calma, “a Celeste tá desaparecida. Ela pode estar em perigo.”
“E você acha que vou confiar em você pra liderar uma busca pela minha irmã depois do que fez com ela?” O tom do Ethan era de aço frio.
“Ethan...”
“Eu te avisei,” ele estava fervendo. “Eu te disse desde o começo que o caminho que você estava seguindo machucaria as minhas irmãs.”
“Você não pode colocar tudo isso nas minhas costas...”
“Isto é assunto dos Lockwood.” O tom dele ficou gelado, mesmo que os seus olhos ardessem. “Nós vamos cuidar disso. Você deve ir embora. Já fez o suficiente.”
Margaret estremeceu, mas não o contradisse.
Minha garganta se apertou. Não por estar na defensiva, mas por uma dor pesada e maçante. Culpa estava aqui, sim. O arrependimento também estava presente, mas pelo resultado, não pela decisão.
"Eu não tô tentando me absolver," eu disse baixinho. "Só quero encontrá-la."
"E eu tô te dizendo pra ir embora," Ethan repetiu. "E, de agora em diante, fique fora dos nossos assuntos."
Suspirei. "Ethan..."
"Tô falando sério, Kieran," ele interrompeu. "Podemos ser melhores amigos, mas a minha família vem em primeiro lugar, e não vou deixar ela desmoronar por sua causa."
Abri a boca, talvez para me defender mais, talvez para insistir em ficar e usar os meus recursos para encontrar a Celeste, não sei.
Porque, naquele momento, as portas do saguão se abriram e todos os meus pensamentos se esvaíram quando a Sera entrou.
***
PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Ao entrar no saguão do hotel, a tensão apertou em volta do meu pescoço como um laço de carrasco.
Todos congelaram quando me viram e forcei um leve e casual sorriso, tomando cuidado para não trair a inquietação que fervia dentro de mim.
"Oi," eu disse de leve, apesar da minha voz soar estranha até para mim mesma.
"Sera!" minha mãe ofegou, alívio e surpresa misturando-se no seu olhar enquanto ela tremia no sofá. "Você veio."
"Hum..." Virei-me para a Maya, que estava ao meu lado como uma sentinela silenciosa, observando a cena.
"A Maya disse que tinha um encontro com o Ethan," expliquei, tentando dar de ombros de forma casual. "Ela insistiu que eu viesse junto."
Ethan cerrou o maxilar, percebendo imediatamente a minha mentira. Afinal, ele tinha sido o responsável por mandar a mensagem para remarcar o encontro deles.
Ele arqueou uma sobrancelha para a Maya e ela imitou o meu gesto de dar de ombros sem se afastar de mim.
“Então,” disse eu, tentando soar despreocupada, “qual é a da Celeste?”
Eu sabia que não deveria me meter voluntariamente no que cheirava a drama da Celeste, mas depois daquele sonho, eu simplesmente não conseguia não me meter.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei