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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 186

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

A última coisa que eu queria fazer com o Kieran era ‘conversar’. Eu ainda não tinha me recuperado completamente da nossa última conversa.

O sensato seria soltar a minha mão da dele, dar um passo para trás e acabar com isso antes que repetíssemos aquela noite na minha calçada bem aqui, no saguão chique do hotel.

Mas...

E lá estava: aquela hesitação, aquele fiozinho irritante que, por alguma razão absurda, ainda me mantinha ligada ao Kieran, tornando impossível me afastar completamente dele.

Eu odiava isso com todas as minhas forças.

Só percebi quanto tempo fiquei ali parada, com o peito apertado de indecisão, quando o toque suave da Maya roçou o meu pulso livre. "Te espero no carro", ela murmurou.

Depois, ela olhou entre o Kieran e eu de um jeito carregado que me dizia que eu teria que encarar uma sessão de perguntas nem seguida, seja lá qual fosse o tema da conversa.

Maya seguiu em direção à saída, me deixando ali em frente ao Kieran, com os dedos dele ainda levemente enrolados no meu pulso. "Só quero conversar", ele disse.

A voz dele estava mais baixa do que de costume e tinha aquele tom áspero e carregado de desespero que eu ouviu naquela noite na minha calçada.

"A última vez que nós... conversamos, não deu muito certo", eu disse, a voz saindo mais suave do que eu queria.

Um músculo se contraiu na mandíbula dele. "Sim, mas isso não tem nada a ver com aquilo. Eu prometo."

Engoli em seco contra o nó que estava se formando na minha garganta e olhei para ele sob o brilho suave e quase etéreo dos lustres.

Ele era o mesmo Kieran forte, alto e imponente, mas havia uma tensão quase invisível na maneira como ele se comportava agora. Seus ombros, que costumavam estar eretos como aço, caíram levemente, como se suportassem um peso que só ele podia sentir.

Uma rigidez o percorria. Ele se mantinha excessivamente ereto, como se relaxar um pouco fosse suficiente para que tudo dentro dele desmoronasse. Era diferente da exaustão do Lucian. O Kieran não parecia estar privado de sono, ele parecia estar sendo consumido por algo que o sono não poderia aliviar.

Por um instante, pensei que talvez tudo isso fosse por causa da Celeste. Quem sabe o término deles tenha deixado marcas nele?

Mas, no fundo, eu sabia que não era isso.

E então, de forma ainda mais surpreendente, me permiti imaginar que ele estava assim por minha causa, por causa de como havíamos deixado as coisas da última vez.

Sustentei o olhar dele por mais tempo do que pretendia, depois gentilmente soltei o pulso da sua mão, tentando ignorar a sensação de formigamento que o toque dele deixava ao longo do meu braço.

"Tudo bem." Evitei olhar nos olhos dele. "Mas realmente não tenho muito tempo. Preciso buscar o Daniel na casa dos seus pais."

Ele não conseguiu esconder bem o alívio por eu ter aceitado conversar com ele. Então, assentiu e apontou para uma área mais tranquila perto das janelas. Quando nos sentamos, certifiquei-me de manter uma distância razoável entre nós. O silêncio estendeu-se, pesado, mas ainda não sufocante.

Kieran respirou fundo, como se juntando coragem. "Sobre aquela noite..."

"Não." Minha interrupção foi mais brusca do que eu pretendia e não pude deixar de notar como a mandíbula dele se contraiu. "Nós não vamos falar sobre isso de novo."

Ele franziu as sobrancelhas.

Segui ignorando o frêmito de nervosismo que surgiu imediatamente quando ele mencionou 'aquela noite.'

"Você disse o que precisava dizer. Eu disse o que precisava dizer. Garanto que a minha posição não mudou desde então, então não há necessidade de repetir o discurso." Apertei as mãos firmemente no colo e soltei um suspiro. "Não tô interessada em abrir a mesma ferida de novo."

Kieran desviou o olhar, engoliu seco e os seus dedos se curvaram levemente sobre o joelho. Franzi a testa. A pele sobre os nós dos dedos dele estava machucada e com crostas, como se ele tivesse se metido em uma briga.

Mas eu não ligava. O que ele fazia no tempo livre era problema dele.

"Não tô tentando te machucar de novo, Sera, juro. Só que eu..."

"Kieran." Muito brusco. Muito alto. Do fundo do meu coração, eu não queria falar sobre isso de novo. Nunca mais.

"Tá bom." Ele exalou. "Tá bom."

Havia algo tão... vulnerável na forma como ele recuou, aceitando aquele limite. Os ombros dele caíram e percebi um leve tremor, quase invisível. Eu me vi desviando o olhar para esconder a ferroada atrás dos meus próprios olhos.

"Sobre o que você quer conversar então?" finalmente perguntei, tentando deixar a minha voz um pouco mais suave.

"É sobre o Daniel."

Me enrijeci imediatamente. "O que tem ele?"

Kieran hesitou só o suficiente para o meu coração começar a pulsar mais forte. "Como você sabe, meu pai começou o condicionamento e o treinamento de Alfa dele enquanto estavam na Ilha."

Cerrei os dentes. "Sim."

Ele suspirou. "Ele deveria ter pedido a sua permissão antes de fazer isso."

"Aposto que pediu a sua." Meu tom voltou a ficar afiado.

Não era uma pergunta. O silêncio dele confirmou a minha suspeita.

"Sinto muito," ele disse baixinho.

Eu franzi os lábios. "Tudo bem. O Daniel tá se divertindo, então tá tudo certo."

Ele hesitou. "Tem mais."

Prendi a respiração enquanto ele continuava. "O Daniel vai fazer dez anos em breve."

"Eu tô ciente do aniversário do meu filho, muito obrigada."

Ele revirou os olhos.

Algo naquele movimento fez o ar preso nos meus pulmões sair. Era tão... natural. Irritante, com certeza, mas...

"Meus pais querem fazer uma cerimônia de herdeiro para ele."

Fiquei olhando para o Kieran.

As palavras demoraram uns cinco segundos para fazer sentido. "Uma... cerimônia de herdeiro? Aos dez anos?"

"E me dá tempo..." A mão dele se estendeu, lenta e cautelosamente. "...pra consertar o que estraguei."

Essa última frase não se referia apenas à Alcateia, e nós dois sabíamos disso.

Minha respiração ficou presa ao ver nos olhos dele um arrependimento bruto misturado com um pedido de desculpas e algo parecido com... esperança.

Por um breve instante, os anos desapareceram, e ele não era o Kieran, meu ex-marido frio e distante. Era o Kieran, o homem que eu havia amado em um silêncio sufocante.

Mas esse instante passou e uma década de dor tomou conta de mim como um raio.

Pisquei, recuando metafórica e fisicamente.

A mão do Kieran ficou suspensa no ar entre nós.

Uma pequena, quase imperceptível fissura atravessou a expressão dele antes que ele a controlasse. Ele assentiu uma vez lentamente, como quem aceita um veredicto.

E puxou a mão de volta.

"Não tô pedindo que você concorde agora,” ele disse suavemente. “Apenas… pense sobre o assunto.”

Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma pequena caixa de veludo preto de dentro, segurando-a com uma reverência que fez o meu coração disparar.

“Este é o anel do herdeiro,” ele disse. "Eu o usei na minha cerimônia de herdeiro. Quero que você dê a ele quando, e se, ele estiver pronto."

Peguei a caixa antes mesmo de perceber que a minha mão estava se movendo.

Era pesada, não apenas no sentido literal, mas também de significado.

Duas versões do Daniel passavam pela minha mente como uma apresentação de slides. O rosto dele iluminado de entusiasmo e admiração pela honra. E confusão, medo e culpa, caso as expectativas não correspondessem com a realidade.

Mas o Daniel não seria uma criança para sempre.

E se, na tentativa de protegê-lo, eu acabasse machucando-o, nunca me perdoaria.

"É escolha dele," eu disse suavemente. "Faremos o que ele quiser." Olhei para o Kieran. "É escolha dele," repeti. "Me promete, Kieran."

Ele assentiu imediatamente. Um alívio suave e cansado, mas ainda assim um alívio, brilhou nos seus olhos. “Eu prometo. Eu nunca o obrigaria a fazer alguma coisa que ele não queira.”

Levantei-me. A caixa do anel parecia quente demais na minha mão. "Preciso ir."

Ele também se levantou, mas não se moveu, nem tentou me alcançar novamente quando me virei.

"Sera," ele disse calmamente, com a voz trêmula, "Sei que você não quer ouvir isso, mas... sinto muito. Por… tudo. E sou grato. Pelo Daniel. E à você, por ser a mãe dele."

Cada sílaba arranhou aquela ferida que eu não queria tocar.

Não olhei para trás.

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