PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Mesmo depois que o carro da Maya se afastou do estacionamento do hotel, o brilho dos lustres ainda pairava na minha mente como um sonho do qual eu não havia despertado completamente.
Não os lustres, mais especificamente... o rosto do Kieran.
E o jeito que a voz dele soou quando ele disse: ‘E sou grato. Pelo Daniel. E à você, por ser a mãe dele.’
Não era só tristeza. Não era só culpa. Era algo cru, vulnerável, como se ele estivesse revelando partes obscuras de si mesmo, partes que eu nunca soube que existiam.
Virei-me para a janela, pressionando a testa contra o vidro frio enquanto as luzes da cidade passavam como constelações borradas.
Eu me afastei. Calmamente. Com dignidade. Eu não chorei. Eu não gritei. Eu não vacilei.
Eu deveria me sentir vitoriosa.
Então, por que uma pequena e traiçoeira parte de mim doía com a memória daquela esperança desesperada morrendo nos olhos dele quando me afastei?
“Tá bom," a Maya disse depois de alguns minutos em silêncio, com a voz enganadoramente casual. “Eu juro que quero te dar um tempo pra se livrar essa vibe de diva de clipe melancólico que você tá fazendo. Mas tenho medo que, se você mergulhar fundo demais nos seus pensamentos, eu não vou conseguir te tirar deles.”
Pisquei, sendo arrancada dos meus pensamentos espirais.
A Maya dirigia com uma mão só, lançando-me olhares suspeitos.
A outra mão dela estava aberta no console entre nós.
Eu não precisei pensar duas vezes antes de deslizar a minha mão sobre a dela e entrelaçar os nossos dedos.
“Eu tô bem,” menti.
“Mentira,” ela respondeu alegremente, apertando a minha mão. “Sua 'conversa' com o Kieran durou um pouco demais pra ser um bate-papo rápido, mas não o suficiente pra ser sexo por vingança. Vai, conta logo.”
Fiquei boquiaberta. "Por que você pensaria em sexo vingança... Quer saber, deixa pra lá."
"E aí?" ela insistiu, me olhando de novo. "O que aconteceu?"
Soltei um suspiro.
Eu queria conversar não apenas sobre Kieran e sobre a história com o Lucian, como resumi para a Judy. Eu queria conversar sobre tudo.
Toda a minha guerra emocional.
Quanto mais eu guardava tudo para mim, mais parecia que o meu peito estava se enchendo de algodão e fogo ao mesmo tempo.
E não tinha ninguém no mundo que eu quisesse compartilhar tudo isso mais do que com a 'Poderosa Maya Cartridge.'
E porque a Maya era a Maya, ela sabia quando insistir. E quando esperar.
Hoje, ela esperou... até que eu começasse a falar.
E eu falei. E falei. E falei.
Contei tudo para ela. Falei sobre o parque de diversões. Falei sobre o jantar com o Lucian, a conversa depois, a exposição da SDS.
Falei sobre a casa da minha mãe. Falei como o Kieran apareceu na frente da minha casa depois, com o coração aberto. Falei sobre a confissão desesperada dele, o seu pedido de desculpas, a sua alegação sobre o vínculo de companheiros que eu não queria reconhecer. Falei sobre a minha rejeição. Sobre como eu me afastei sem olhar para trás.
Então, contei sobre hoje.
Como ele parecia cansado e exausto. Como ele não tentou me fazer perdoá-lo. Como ele falou com tanto peso na voz que os meus ossos parecia que pesavam uma tonelada.
E então, porque eu tinha aberto a torneira e não queria fechá-la até que o reservatório estivesse vazio, contei para a Maya sobre a Alina, desde o momento em que ela me salvou do urso na Arena Campo de Neve até quando me disse que eu não poderia ter certeza sobre o Kieran ser o meu companheiro até que eu pudesse me transformar.
Quando terminei, a minha voz estava mais suave e senti um alívio misturado ao cansaço e à catarse.
O carro tinha parado. As luzes da mansão dos Blackthorne brilhavam próximas de nós.
“Caramba,” a Maya suspirou. “É... muita coisa.”
“Pois é,” suspirei, “nem me fala.”
Com as nossas mãos entrelaçadas, ela me puxou para perto, envolvendo o seu braço livre nos meus ombros.
Fechei os olhos e me entreguei ao seu abraço, inalando aquele cheiro familiar e reconfortante. Depois de desabafar tudo, me senti leve, como se fosse flutuar caso ela não estivesse ali, me segurando.
Finalmente, ela se afastou, mas ainda segurava minha mão.
“Primeiro de tudo,” ela começou, com a voz inusitadamente carregada de emoção, “tô tão, tão feliz que a sua loba tenha se apresentado.” Ela me deu um sorriso emocionado. “Demorou bastante. Preguiçosa.”
‘Eu não sou preguiçosa,’ Alina protestou na minha mente, indignada. ‘Ela tem sorte que eu gosto dela.’
Sorri. “Ela gosta de você. Relutantemente.”
Maya ofegou dramaticamente, colocando a mão no peito. “Fico honrada. A Nyra disse que mal pode esperar pra conhecê-la.”
Eu soltei uma risada engasgada. Eu ainda ia viver tantas alegrias com a minha loba e a minha família... Deuses, mal podia esperar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei