PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Maya estava me esperando nos degraus da minha varanda quando voltei para casa.
"Então," começou ela, em um tom casual que mascarava a tensão da manhã enquanto eu caminhava na sua direção, "você sobreviveu à partida dele." Ela abriu os braços. "Como tá o seu coração?"
Ri baixinho, oscilando entre o alívio e a ansiedade persistente enquanto me aconchegava no abraço dela, repousando a cabeça no seu ombro. "Inteiro, eu acho. Em geral."
Ela acariciou as minhas costas com movimentos circulares e suaves. "Aposto que uma parte tá guardada na mochila dele."
Consegui sorrir. "Pode apostar."
"Bom," ela disse, forçando um entusiasmo extra na voz ao se afastar. "Reservei o dia todo pra você e até cancelei o meu encontro com o Ethan. Comprinhas pra te dar ânimo?"
Ri, grata pela mudança de assunto. "Comprinhas, sim. Com certeza, vamos."
Nem me dei ao trabalho de entrar em casa.
Eu não estava pronta para encarar o silêncio da casa vazia sem o Daniel, então voltei direto para o carro.
***
Comprinhas não eram apenas a minha atividade favorita com Maya, eram uma mudança bem-vinda de ritmo e uma chance de respirar fundo, de deixar o peso da manhã se dissipar.
Enquanto passávamos pelos cabides de roupas e pelas prateleiras de decoração, a Maya me atualizou sobre as últimas fofocas da SDS.
"A Jessica saiu," ela disse despreocupadamente, passando os olhos por uma fileira de suéteres. "Oficialmente. Ela entregou a carta de desligamento na semana passada."
Fiquei paralisada, encarando-a. "A Jessica? Ela saiu? Mas..." Dei uma risadinha. "Ela tá tão ressentida assim por ter ficado no terceiro lugar?"
"Na verdade, é o contrário," a Maya respondeu. "Não sei se você sabe, mas ela nunca fez parte da Shadowveil."
"Não?"
"Não." Maya puxou um suéter coral e o colocou na altura do meu pescoço, franzindo a testa enquanto se concentrava.
"Os sentinelas da Shadowveil a resgataram de um ataque enquanto ela viajava sozinha. Ela tava perto do território dos renegados, acho, mas eu não sei todos os detalhes da história. Aí o Lucian deu anistia pra que ela pudesse se recuperar dos ferimentos em segurança. Era pra ele ter supervisionado a entrada oficial dela pra Alcateia depois que ela melhorou, mas parece que ele tava enrolando pra fazer isso."
Ela balançou a cabeça e devolveu o suéter ao cabide. "Enfim, como ela não era oficialmente da Shadowveil, a posição dela no TFL atraiu propostas de outras Alcateias. Tanto ela quanto os colegas de equipe receberam muitas propostas, então ela se aproveitou da situação rapidinho." Maya baixou a voz. "Acho que ela fez isso pra não ficar mal se o Lucian a rejeitasse."
Assenti lentamente, assimilando as informações.
Parte de mim estava surpresa que a Jessica decidira se afastar completamente da Alcateia do Lucian ao invés de tentar garantir o seu lugar nela. Outra parte de mim estava preocupada com a Roxy e como (ou se) a saída da Jessica a afetaria.
Maya percebeu o meu silêncio e colocou uma mão suave no meu ombro. "Ei," ela disse gentilmente. "A ideia de fazer compras é tirar você daqui," ela deu um toquinho na minha têmpora, "então fica comigo, tá?"
Soltei uma risada baixa, sentindo a tensão nos meus ombros diminuir um pouco. "Sim, Senhorita Cartridge."
Continuamos passeando pelas lojas, examinando roupas, comparando cores e rindo de acessórios engraçados.
A Maya me provocava sempre que eu caía na melancolia e cada risada vinha mais fácil que a anterior.
Depois de um tempo, nos acomodamos em um café pequeno para comer um lanche rápido. Os olhos da Maya brilharam enquanto ela se recostava na cadeira, saboreando o seu latte.
"Então," ela começou, com os olhos cintilando. "Quais são os próximos passos pra indomável Sera?"
Dei uma risadinha com o apelido. "O que você quer dizer com isso?"
Ela deu de ombros. "O Daniel tá seguindo o caminho dele. Você não pode simplesmente ficar esperando por ele. Você em que viver a sua vida." Ela se inclinou para frente. "Que tal começar um novo livro?"
Quase engasguei com o meu latte. "Q-quê?"
Maya sorriu com malícia. "Senti tanto a sua falta durante o TFL que acabei lendo um monte dos seus livros."
Meus olhos se arregalaram e um riso incrédulo escapou de mim. "Você leu?"
Ela assentiu, ainda sorrindo. "Pra alguém que não tem sorte no amor, você com certeza sabe como escrever protagonistas masculinos cativantes e uma química incrível."
Senti as minhas bochechas queimarem. "Ah, deuses."
Ela riu, me cutucando. "Então, tem algo novo em andamento?"
Exalei. Minha carreira de escritora, a Elaine, a sequência de 300 palavras que abandonei quando entrei para a SDS... tudo isso parecia ter acontecido há séculos.
"Sinceramente, eu não tenho pensado..."
"Sera?"
Eu me virei.
A alguns passos da nossa mesa, elegante em um vestido azul-oceano esvoaçante, estava a Luna Selene, da Alcateia Seabreeze.
"Luna Selene," eu disse, surpresa, mas sorrindo enquanto me levantava rapidamente para cumprimentá-la.
"Por favor," ela riu suavemente, "já te disse que é só Selene. Somos amigas, lembra?"
Eu ri. "Certo. Oi, Selene."
O sorriso dela se iluminou. "Ah, tô tão feliz em te ver. Eu queria mesmo te encontrar antes de ir embora da cidade."
Maya arqueou uma sobrancelha e se inclinou para trás na cadeira com um sorriso curioso.
Selene se aproximou, com os olhos cheios de uma sinceridade acolhedora. “Você foi sensacional, Sera,” ela disse, e o meu peito se encheu de orgulho enquanto os meus olhos eram tomados por lágrimas. “Não consigo pensar em alguém mais merecedora da vitória.”
“Obrigada,” sussurrei, com a voz trêmula.
Pequenas covinhas apareceram nas bochechas dela à medida que o seu sorriso se aprofundava. “Queria te lembrar que o meu convite ainda tá de pé.”
Minha boca se abriu, mas nenhum som saiu.
Eu realmente não tinha pensado na oferta dela pra me juntar à Seabreeze desde que ela a fez, mas agora, a ideia de partir, de ingressar em uma nova Alcateia quando o meu filho estava dando os primeiros passos para se tornar Alfa, me deixou animada.
Eu não tinha certeza do que o meu coração queria ainda, e essa incerteza me mantinha parada.
Selene percebeu a minha hesitação e riu suavemente.
“O convite pra você nos visitar,” ela esclareceu com uma piscadela. “Minha filha... deuses, ela te adora. Depois de assistir ao Torneio, ela disse que você é a ‘Lua de inspiração’ dela.”

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei