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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 190

PERSPECTIVA DO KIERAN

Meu celular vibrou logo que terminei de revisar as gravações do treinamento do Daniel para o dia. Minha mente ainda estava meio focada na forma como o meu filho tinha endireitado os ombros depois de ser derrubado, recusando-se a ficar no chão mesmo quando estava exausto, então eu não estava prestando muita atenção.

Quando vi o nome dela na tela, o meu coração bateu forte contra as costelas.

Sera.

Abri a mensagem, esperando que fosse alguma coisa sobre o Daniel, talvez uma preocupação de última hora, uma pergunta, um lembrete.

Mas, em vez disso…

Sera: ‘Estou te avisando caso aconteça alguma coisa com o Daniel e você não consiga entrar em contato comigo. Vou sair da cidade por alguns dias para visitar a Alcateia do Lucian no sul. Se surgir algum imprevisto, entre em contato com a Maya que ela sabe como me encontrar.’

Eu li de novo. Três vezes. Dez vezes.

Cada palavra se afiou no meu peito até que pareceu que os meus pulmões estavam funcionando em torno de uma lâmina alojada em algum lugar entre eles.

'Alcateia do Lucian.'

Ela estava indo para a alcateia do Lucian Reed.

Essa informação não deveria ter me afetado tanto assim.

Eu sabia o quão próximos eles eram e sabia que era só uma questão de tempo. Mas saber uma coisa e sentir isso se tornar real eram coisas completamente diferentes.

Ela estava indo para o território dele, para o mundo dele.

O povo dele a receberia. Diferente dos meus, eles não seriam cegos e ignorantes. Eles a acolheriam. Aceitariam ela.

Soltei um suspiro lento.

Ela não me devia nada. Nem explicações, nem conforto, nem permissão.

E ainda assim...

Ela mandou aquela mensagem.

Objetiva. Distante. Pelo bem do Daniel. Mas ainda assim mandou.

Isso tinha que significar alguma coisa. Certo?

Meus dedos pairaram sobre a tela. Uma dúzia de respostas se formaram e morreram nas pontas dos meus dedos.

‘Boa viagem.’

‘Isso é mesmo necessário?’

‘Entendo.’

‘Você conhece o Lucian bem o bastante? Tem certeza que pode confiar nele?’

‘Obrigado por me informar.’

‘Por favor, não vá.’

Travei o telefone antes que pudesse enviar uma resposta da qual eu me arrependesse.

Meu peito se apertou, um aperto lento e gelado. Ashar mal tinha falado comigo desde aquela noite na casa da Sera. Eu não precisava que ele me repreendesse, eu mesmo conseguia fazer isso muito bem.

'Você não tem o direito de prendê-la. Você perdeu esse direito anos atrás.'

'Deixe-a ir. Deixe-a encontrar o que você não pôde dar a ela.'

Daniel já tinha começado a parte mais intensa do treinamento e precisava da minha presença, da minha orientação, do meu suporte.

Eu não podia ir embora. Não podia ficar rodeando ela como uma sombra. Não podia segui-la para o sul.

E, na minha tentativa de consertar o que eu tinha estragado, eu não interferiria nas escolhas dela.

Eu não ia sabotar nada. Não ia enfrentar o Lucian.

O que não significava que eu confiava no desgraçado.

Não com a vida dela sendo um imã para o perigo. Não depois de tantos encontros próximos com a morte. Não depois de quase perdê-la mais vezes do que eu conseguia lembrar.

Desbloqueei o meu celular novamente e abri uma conversa diferente.

Reencaminhei a mensagem da Sera, e então digitei.

Kieran: ‘Monte uma vigilância discreta no perímetro. Algo totalmente furtivo. Sem insígnia da Alcateia. Operem fora das fronteiras da Shadowveil. Não interfiram mandem relatórios a menos que ela esteja em perigo. Escolha pessoal leal e discreto.’

Gavin respondeu em segundos.

Gavin: ‘Deixa comigo.’

Gavin: ‘...você tá bem?’

Kieran: ‘Apenas obedeça.’

Gavin: ‘Entendido... Alfa Rabugento.’

Revirei os olhos, encerrando a conversa.

Então, abri a mensagem da Sera novamente e fiquei olhando para ela por um longo momento.

Desta vez, escrevi a resposta com cuidado, mesmo que cada palavra parecesse pesada contra a tempestade silenciosa dentro de mim.

'Entendido. Obrigado por me avisar. Você não precisa se preocupar com o Daniel enquanto estiver fora. Boa viagem.'

Meu dedo pairou sobre o botão de enviar.

Parecia formal demais. Frio demais. Distante demais.

Mas qualquer coisa mais calorosa seria egoísta.

Apertei enviar.

Por alguns segundos, apenas fiquei ali, imóvel, em silêncio, respirando através de uma dor que não era exatamente luto, mas algo muito mais doloroso.

***

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

Quando cruzamos a crista sul e o dossel da floresta se abriu revelando o território da Shadowveil, minha respiração já tinha travado na garganta duas vezes.

Não porque a jornada foi longa, o que de fato foi, nem porque eu estava nervosa, o que de fato estava, mas porque nada neste lugar era como eu tinha imaginado.

O Lucian falava pouco sobre a sua Alcateia, e com as quase nulas informações que a Maya e eu conseguimos de nossa sessão de investigação online, eu esperava fortalezas frias de pedra enterradas em uma cadeia montanhosa envoltas em um isolamento quase mítico.

Algo claustrofóbico. Remoto. Intocável.

Mas, conforme o carro seguia o caminho sinuoso de pedra, senti os meus ombros relaxarem lentamente.

"É Lucian," ele resmungou, com o suspiro exasperado de alguém que já fez a correção um centena de vezes. Mesmo assim, percebi o canto da boca dele ameaçando um sorriso.

Em minutos, a Sabrina me guiava pelo coração da Alcateia.

"Esse campo de treinamento," ela disse, apontando para uma grande área de terra batida e pedra desgastada, "foi onde o Lucian tentou testar uma nova formação durante a temporada de chuvas. Só que esqueceu de considerar o terreno escorregadio. Metade da equipe caiu numa sincronia perfeita. Muito majestoso."

"Foi um experimento tático." O Lucian, que nos seguia em uma vigilância silenciosa, deu a ela um olhar sério. "A gente testa essas coisas e escolhe o que funciona e o que não funciona."

"Uhum," Sabrina disse. "Você provou que a gravidade funciona."

Lucian suspirou. "Foi um erro."

Eu segurei o riso.

Enquanto continuávamos a nossa caminhada, a Sabrina compartilhou histórias não apenas sobre o Lucian, mas também sobre a Alcateia.

Ela apontou para a ponte de pedra que se arqueava sobre um riacho estreito e contou como, após uma enchente que a havia levado embora dois anos antes, o Lucian e os seus guerreiros mais graduados a reconstruíram à mão, pedra por pedra, para que os fazendeiros do outro lado não ficassem isolados da Alcateia.

Ela me contou que a Shadowveil quase foi invadida quatro anos antes e disse que foram as mulheres que lideraram o contra-ataque. Informou que, aqui, a confiança não era concedida por linhagem, mas por perseverança e bondade.

Pouco a pouco, através das sinceras narrativas da Sabrina, o passado do Lucian, que antes parecia uma sala trancada, começou a tomar forma na minha mente como um mosaico.

Eventualmente, paramos em um jardim tranquilo esculpido contra um penhasco, onde um único banco dava vista para o vale extenso. Sabrina sentou-se primeiro, indicando o espaço ao seu lado para que eu me sentasse.

Juntei-me a ela e só então percebi que, em algum momento, o Lucian tinha respeitosamente se afastado, nos dando espaço. Sabrina deixou o vento carregar o silêncio por um momento antes de falar novamente, desta vez com mais suavidade: “Eu sei que você sabe sobre a Zara.”

Minha respiração falhou.

Ela continuou, sem hesitação: “A maioria das pessoas fica inquieta quando o assunto surge, alguns até o evitam como se fosse uma maldição. Eu não. Ela foi uma Luna fenomenal pelo breve período do seu reinado. Mas ela se foi e nada pode trazê-la de volta.”

Respirei fundo, com dificuldade. “Não tô aqui pra substituir ninguém.”

“Eu sei”, ela disse gentilmente. Então, os olhos dela, calorosos e firmes, encontraram os meus. Eram como os do irmão dela. “A Zara era fogo, aço, uma tempestade com propósito. Você...” ela deu um leve sorriso, “é gentil. Firme. Uma força silenciosa, muitas vezes mais poderosa.”

Um aperto se formou no meu peito.

Ela respirou fundo. “Depois que a Zara morreu, eu fiquei apavorada, achando que o Lucian viveria preso entre o luto e a culpa pra sempre. Pensei que todos os que tentassem se aproximar acabariam virando um fantasma que ele comparava a ela. Não era isso que nenhum de nós queria. Nem mesmo a Zara.”

Engoli em seco, incapaz de formar uma resposta. "Então, quero que você saiba de uma coisa," Sabrina continuou, com uma convicção feroz na voz. "Desde o momento em que você saiu daquele carro, eu percebi que você não é a Zara. Você nem mesmo me lembra ela, nem um pouco. E o Lucian não é cego. Ele não é um homem que confunde o passado com o presente."

Ela piscou para mim, quase como se soubesse de alguma coisa. "Ou com o futuro."

Soltei um suspiro, lembrando da pergunta que fiz a ele naquele dia, no salão de exposições: ‘Como você pode enfrentar o futuro quando o passado ainda tem um domínio tão forte sobre você?'

Sabrina se recostou e deixou o olhar vagar pelo céu. "A Shadowveil é uma Alcateia muito amigável. Toda a gentileza, toda a admiração, todo o companheirismo que você encontrar aqui... são por quem você é, Sera. Não porque você é a sombra de alguém que perdemos. Se não acreditar nisso, pode perder algo lindo."

Uma brisa suave passou pelas árvores e a presença da Alina me tocou com um murmúrio silencioso de reconhecimento.

Lentamente, exalei. "Obrigada," murmurei. "Vou me lembrar disso."

A expressão da Sabrina se suavizou em um alívio.

"Ótimo," disse ela animadamente, batendo palmas uma vez. "Agora, vamos. Se demorarmos mais, o Lucy vai aparecer com um sermão sobre a importância da pontualidade."

Me levantei, sorrindo levemente enquanto ela me puxava novamente.

E, enquanto caminhávamos de volta pelo coração da Shadowveil, me peguei olhando ao redor com novos olhos, não como uma estranha de passagem, mas como alguém sendo convidada.

Não perseguida, não reivindicada, não comparada.

Apenas... acolhida.

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