PERSPECTIVA DO KIERAN
Meu celular vibrou logo que terminei de revisar as gravações do treinamento do Daniel para o dia. Minha mente ainda estava meio focada na forma como o meu filho tinha endireitado os ombros depois de ser derrubado, recusando-se a ficar no chão mesmo quando estava exausto, então eu não estava prestando muita atenção.
Quando vi o nome dela na tela, o meu coração bateu forte contra as costelas.
Sera.
Abri a mensagem, esperando que fosse alguma coisa sobre o Daniel, talvez uma preocupação de última hora, uma pergunta, um lembrete.
Mas, em vez disso…
Sera: ‘Estou te avisando caso aconteça alguma coisa com o Daniel e você não consiga entrar em contato comigo. Vou sair da cidade por alguns dias para visitar a Alcateia do Lucian no sul. Se surgir algum imprevisto, entre em contato com a Maya que ela sabe como me encontrar.’
Eu li de novo. Três vezes. Dez vezes.
Cada palavra se afiou no meu peito até que pareceu que os meus pulmões estavam funcionando em torno de uma lâmina alojada em algum lugar entre eles.
'Alcateia do Lucian.'
Ela estava indo para a alcateia do Lucian Reed.
Essa informação não deveria ter me afetado tanto assim.
Eu sabia o quão próximos eles eram e sabia que era só uma questão de tempo. Mas saber uma coisa e sentir isso se tornar real eram coisas completamente diferentes.
Ela estava indo para o território dele, para o mundo dele.
O povo dele a receberia. Diferente dos meus, eles não seriam cegos e ignorantes. Eles a acolheriam. Aceitariam ela.
Soltei um suspiro lento.
Ela não me devia nada. Nem explicações, nem conforto, nem permissão.
E ainda assim...
Ela mandou aquela mensagem.
Objetiva. Distante. Pelo bem do Daniel. Mas ainda assim mandou.
Isso tinha que significar alguma coisa. Certo?
Meus dedos pairaram sobre a tela. Uma dúzia de respostas se formaram e morreram nas pontas dos meus dedos.
‘Boa viagem.’
‘Isso é mesmo necessário?’
‘Entendo.’
‘Você conhece o Lucian bem o bastante? Tem certeza que pode confiar nele?’
‘Obrigado por me informar.’
‘Por favor, não vá.’
Travei o telefone antes que pudesse enviar uma resposta da qual eu me arrependesse.
Meu peito se apertou, um aperto lento e gelado. Ashar mal tinha falado comigo desde aquela noite na casa da Sera. Eu não precisava que ele me repreendesse, eu mesmo conseguia fazer isso muito bem.
'Você não tem o direito de prendê-la. Você perdeu esse direito anos atrás.'
'Deixe-a ir. Deixe-a encontrar o que você não pôde dar a ela.'
Daniel já tinha começado a parte mais intensa do treinamento e precisava da minha presença, da minha orientação, do meu suporte.
Eu não podia ir embora. Não podia ficar rodeando ela como uma sombra. Não podia segui-la para o sul.
E, na minha tentativa de consertar o que eu tinha estragado, eu não interferiria nas escolhas dela.
Eu não ia sabotar nada. Não ia enfrentar o Lucian.
O que não significava que eu confiava no desgraçado.
Não com a vida dela sendo um imã para o perigo. Não depois de tantos encontros próximos com a morte. Não depois de quase perdê-la mais vezes do que eu conseguia lembrar.
Desbloqueei o meu celular novamente e abri uma conversa diferente.
Reencaminhei a mensagem da Sera, e então digitei.
Kieran: ‘Monte uma vigilância discreta no perímetro. Algo totalmente furtivo. Sem insígnia da Alcateia. Operem fora das fronteiras da Shadowveil. Não interfiram mandem relatórios a menos que ela esteja em perigo. Escolha pessoal leal e discreto.’
Gavin respondeu em segundos.
Gavin: ‘Deixa comigo.’
Gavin: ‘...você tá bem?’
Kieran: ‘Apenas obedeça.’
Gavin: ‘Entendido... Alfa Rabugento.’
Revirei os olhos, encerrando a conversa.
Então, abri a mensagem da Sera novamente e fiquei olhando para ela por um longo momento.
Desta vez, escrevi a resposta com cuidado, mesmo que cada palavra parecesse pesada contra a tempestade silenciosa dentro de mim.
'Entendido. Obrigado por me avisar. Você não precisa se preocupar com o Daniel enquanto estiver fora. Boa viagem.'
Meu dedo pairou sobre o botão de enviar.
Parecia formal demais. Frio demais. Distante demais.
Mas qualquer coisa mais calorosa seria egoísta.
Apertei enviar.
Por alguns segundos, apenas fiquei ali, imóvel, em silêncio, respirando através de uma dor que não era exatamente luto, mas algo muito mais doloroso.
***
PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Quando cruzamos a crista sul e o dossel da floresta se abriu revelando o território da Shadowveil, minha respiração já tinha travado na garganta duas vezes.
Não porque a jornada foi longa, o que de fato foi, nem porque eu estava nervosa, o que de fato estava, mas porque nada neste lugar era como eu tinha imaginado.
O Lucian falava pouco sobre a sua Alcateia, e com as quase nulas informações que a Maya e eu conseguimos de nossa sessão de investigação online, eu esperava fortalezas frias de pedra enterradas em uma cadeia montanhosa envoltas em um isolamento quase mítico.
Algo claustrofóbico. Remoto. Intocável.
Mas, conforme o carro seguia o caminho sinuoso de pedra, senti os meus ombros relaxarem lentamente.

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