PERSPECTIVA DA SERAPHINA
As palavras da Sabrina ficaram na minha mente muito tempo depois que ela me levou de volta ao centro da Alcateia.
‘Toda a gentileza, toda a admiração, todo o companheirismo que você encontrar aqui... são por quem você é, Sera. Se não acreditar nisso, pode perder algo lindo.’
Algo dentro de mim mudou quando ela disse isso, como se uma porta, que eu nem sabia que estava fechada, tivesse se aberto silenciosamente.
Eu tinha vivido grande parte da minha vida em modo de sobrevivência. Sempre alerta. Na defensiva. Esperando pelo próximo desastre antes mesmo de me permitir levantar.
Mas agora... Eu tinha deixado isso para trás, né? Em algum momento entre o funeral do meu pai e este ar da montanha, eu tinha entrado em algo desconhecido, frágil e lindo.
Algo que eu não precisava temer.
Alina sussurrou suavemente dentro de mim, calorosa e em aprovação: ‘Já sobrevivemos. Agora temos que aprender a viver.’
Assim, quando a noite caiu, em vez de questionar cada passo, me permiti explorar a Shadowveil com o coração mais leve.
Os preparativos para o Festival da Lua Azul estavam em andamento. Seria grandioso, como dava para sentir no ar como faíscas antes de um incêndio.
O riso ecoava pelo campo de treinamento. Crianças passavam correndo, carregando fios de tecido tingidos que brilhavam levemente sob o sol poente.
Um grupo de homens e mulheres esculpia símbolos da lua em discos de madeira e os mergulhavam em um tom azul-escuro que refletia a luz como água à meia-noite.
Perto de uma clareira aberta, vi mulheres mais velhas trançando coroas de flores, não com as cores vibrantes usuais, mas com flores de um azul pálido, quase prateado, que eu não reconhecia.
Quando perguntei para a Sabrina o que era o Festival da Lua Azul, ela ficou mais do que feliz em compartilhar a história: “É a maior celebração que temos. Acontece uma vez a cada três anos e começa essa noite.” Ela sorriu. “Você não poderia ter nos visitado em momento melhor.”
Ela explicou enquanto caminhávamos sobre como, quando a Shadowveil era apenas uma ideia esculpida de esperança selvagem, uma praga quase os destruiu antes mesmo de construírem a sua primeira casa.
Falou sobre como o Lucian e a Zara se recusaram a abandonar os demais, mesmo quando tudo parecia perdido. E como lideraram uma expedição desesperada através de vales proibidos, onde encontraram uma flor que florescia a cada três anos e cujas pétalas formavam um orvalho que possuía propriedades milagrosas de cura.
"O orvalho salvou a todos," a Sabrina disse, agora com uma voz mais suave. "Então eles construíram a Alcateia aqui, ao redor do vale onde a flor cresce. A Zara a chamou de Flor da Lua Azul, porque é azul e rara. Você já deve ter ouvido o ditado 'uma vez a cada lua azul'."
Sabrina deu uma risadinha. "Ela se orgulhava muito de ter batizado o fenômeno, como se fosse muito criativa."
E, pela primeira vez, ao ouviu alguma coisa sobre a Zara, eu ri.
Mas, então, olhei ao redor para as pessoas que riam, trabalhavam e existiam em um ritmo harmonioso e senti uma estranha pontada de tristeza. Depois de tudo que ela dedicou à esse lugar, a Zara merecia ver o que ele tinha se tornado.
Quando o crepúsculo tomou conta do céu, os terraços da casa da Alcateia brilharam com lanternas em forma de luas cheias.
As pessoas se dirigiram à clareira central, onde uma fogueira imponente estava pronta para ser acesa, o tipo de fogo planejado não apenas para aquecer corpos, mas para chamar os espíritos à vigília.
Sabrina nãos e afastou de mim em momento algum e logo estávamos de pé na borda da clareira, com as mãos levemente entrelaçadas, observando enquanto o Lucian se aproximava da pira ainda apagada, segurando uma tocha acesa.
Ele estava tão envolvido nos seus deveres de Alfa que eu mal o tinha visto desde que cheguei.
Ao desbravar o lar dele, o espaço seguro que ele tinha construído para o seu grupo, vi quem ele realmente era. Não apenas o líder poderoso e reservado que eu conhecia, mas um homem que tinha transformado a sua própria dor em algo completo. Alguém que liderava não por comando, mas por cuidado. Um homem que tinha transformado perda em pertencimento, medo em unidade.
A expressão do Lucian estava calma, mas havia algo reverente na maneira como ele se movia, como se estivesse diante da história, não das chamas.
Então, ele falou: "Esta noite, lembramos como o medo quase nos tomou, mas falhou. Lembramos que cicatrizes não significam que estamos prejudicados, mas sim sobrevivência." O olhar dele passou brevemente pela multidão e parou quando encontrou o meu.
Apenas por meio batimento. Firme. Quente. Carregado de significado.
Então, a tocha tocou a madeira e a fogueira ganhou vida com um rugido.
A Sabrina me contou que o primeiro evento se chamava "Histórias de Cicatrizes".
Qualquer um podia se apresentar e compartilhar uma ferida, física ou não, enquanto o grupo apenas escutaria.
Um homem com uma marca de queimadura até metade do braço falou sobre perder a sua mãe para a praga, mas continuar vivendo para criar a sua irmãzinha.
Uma mulher revelou uma cicatriz ao longo da lateral do seu corpo, resultado da invasão de quatro invernos antes, e disse como ela acreditava ser fraca até sobreviver à noite em que quase sucumbiu.
Uma adolescente, com a voz trêmula, confessou o medo de nunca ser forte o bastante, e foi recebida com um silêncio acolhedor quando terminou.
Cada narrador, ao descer do palco, recebia uma coroa tecida com aquela mesma flor azul-prateada: a Flor da Lua Azul. Um símbolo de cura. De sobrevivência. De ser visto e aceito.
Minhas mãos lentamente se fecharam ao meu lado.
Eu já tinha contado pedaços do meu passado para a Maya, o Lucian, a Judy, e até mesmo na frente de plateias refinadas em bailes de galas.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei