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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 192

PERSPECTIVA DO KIERAN

Acordei ofegante.

O sonho me perseguiu até a vigília, grudando em mim como uma febre. A Sera perto de uma fogueira, usando uma coroa de flores azuis claras que brilhavam sob o luar, o Lucian se inclinando para beijá-la.

O fogo rugia como se os abençoasse, e o sorriso dela… Deuses, aquele sorriso! Ele penetrou em mim, cru e cortante como ácido em carne exposta.

Uma dor pesada e oca irrompeu no meu peito. Por um momento, pensei que fosse apenas o eco do sonho, mas então a fisgada familiar das minhas costelas me fez estremecer.

Afastei o cobertor e me sentei, esfregando o meu peito onde os curativos escondiam as marcas ainda não tão cicatrizadas da fúria do Ashar.

Não estava cicatrizando rápido o suficiente.

Ele estava me punindo e eu sabia.

Os ferimentos daquela noite na floresta já deveriam ter cicatrizado há muito tempo. A maioria tinha, pelo menos os visíveis.

Mas aqueles escondidos sob a roupa, os piores... o meu lobo estava atrasando a cicatrização. Ele fazia questão de me fazer senti-los a cada maldito movimento ou respiração.

Como se a dor no meu coração não fosse suficiente.

Tentei argumentar com ele no início. Tecnicamente, foi ele quem perdeu a cabeça, destruiu a floresta ao redor do nosso território e quase matou nosso o Beta, então eu não merecia sofrer as consequências.

Mas o Ashar nem falava e nem ouvia.

Desde aquela noite, ele mal se mexia, exceto quando eu precisava de força para o treinamento do Daniel ou para resolver assuntos da Alcateia.

O silêncio entre nós era mais pesado que qualquer rugido.

Essa noite, o silêncio estava ainda pior, fechando-se e intensificando a angústia que eu sentia. Passei a mão pelos cabelos de forma agressiva, como se pudesse afastar os resquícios do sonho da minha mente, mas as imagens permaneceram: o riso da Sera, a maneira leve, sem preocupações e livre como ela olhava para o Lucian. Era um jeito que ela nunca olhou para mim.

A culpa rapidamente me atingiu junto com o ciúme. Eu tinha passado anos sendo um peso contrário à felicidade dela. Que direito eu tinha agora de sofrer quando ela finalmente estava feliz?

Tateei à procura do meu celular e, quando finalmente o encontrei, a tela brilhante mostrava 2:07 da manhã.

Merda. Ainda faltavam horas para qualquer um além dos guardas do turno da noite acordarem.

A noite me pressionava como um peso. Tentei deitar novamente, mas toda vez que fechava os olhos, via aquela fogueira e as mãos do Lucian nela de novo.

Finalmente, levantei, peguei um moletom da cadeira e puxei-o sobre a cabeça, tomando cuidado para não forçar muito o lado machucado. O tecido frio roçou nos curativos e eu sibilei de dor.

A voz do Ashar apareceu de forma tênue: 'Deixa doer.'

Eu congelei. Era o primeiro som dele em dias, mais uma sensação do que uma voz de fato. Quando tentei alcançá-lo, ele já tinha sumido.

"Idiota," murmurei.

Meus passos me levaram quase inconscientemente pelo corredor, em direção ao quarto do Daniel. Eu não questionei a minha necessidade de vê-lo, apenas sabia que a visão do meu filho me daria algum conforto.

A porta rangeu quando a empurrei para abrir. Daniel estava dormindo, com um braço jogado sobre a cabeça e o outro abraçando seu lobo de pelúcia. Seus cabelos estavam espalhados em tufos desordenados, e por um momento, fiquei parado apenas observando sua respiração.

Havia tanto da Sera nele: a mesma expressão serena, o mesmo jeito com que os lábios se moviam levemente quando ele sonhava... Mesmo acordado, ele carregava o sorriso dela, a sua força tranquila, o brilho teimoso nos olhos...

Talvez esse fosse o motivo de eu estar ali. Além do frágil vínculo que tínhamos, o Daniel era a única coisa que me ligava à Sera e a urgência desesperada de estar ao lado dela doía quase tanto quanto as minhas costelas.

Me sentei no sofá ao lado da janela e soltei um suspiro longo. A luz do luar atravessava as cortinas, lançando um brilho etéreo sobre o Daniel.

Eu não pretendia dormir, mas o cansaço foi chegando enquanto eu vigiava o meu filho e, em algum momento, devo ter cochilado.

Quando abri os olhos novamente, o quarto estava mais claro, as faixas de luz da manhã entrando pelas persianas.

"Pai?"

"Oi, campeão," respondi, com a voz rouca.

Daniel se sentou na cama, piscando. "O que você tá fazendo aqui?"

Esfreguei os olhos. "Não consegui dormir."

Ele piscou, processando a informação. "Então... você decidiu acampar no meu quarto?"

O tom sonolento e genuinamente confuso dele quase me fez rir. "Algo assim."

Ele inclinou a cabeça. "Você tá estranho. Tá doente?"

"Não," eu disse. Então, continuei após uma pausa: "Só precisava te ver."

Ele franziu a testa levemente, como se não soubesse bem como reagir à afirmação. "A minha mãe também faz isso, sabia? Fica me vendo dormir."

Meus lábios se curvaram, mesmo sem querer. "É." Inclinei-me para a frente, com os cotovelos apoiados sobre os joelhos. "Eu fazia isso o tempo todo quando você era pequeno, sabe. Sempre que os negócios da Alcateia ficavam difíceis demais, eu ia pro seu quarto, e te ver dormir sempre me acalmava."

As sobrancelhas do Daniel subiram até a raiz do cabelo. "Sério?"

Eu ri. "É tão inacreditável assim?"

Ele deu de ombros. "Não sei o que é mais difícil de acreditar. Você admitindo que é meio esquisito como a minha mãe..." eu revirei os olhos, "ou você expressando emoções."

Isso me fez parar e pensar.

"Não faço isso há muito tempo," eu disse baixinho. "Expressar as minhas emoções verdadeiras, quero dizer."

"É coisa de Alfa?" A curiosidade brilhava nos olhos grandes e impressionáveis do Daniel. "É porque expressar emoções é demonstrar fraqueza?"

Balancei a cabeça com tanta força que o meu pescoço estalou. "Claro que não. Na verdade, é o contrário. Guardar as coisas pra si é que te enfraquece e te separa das pessoas que se importam com você." Suspirei. "Faz de você uma ilha."

Ele bocejou e esfregou os olhos. "Você é uma ilha, Pai?"

Um suspiro dolorido ficou preso entre as minhas costelas machucadas.

"Eu..." Passei a mão pelo cabelo, organizando os meus pensamentos antes de apresentá-los ao meu filho intuitivo. "Não quero mais ser uma," eu admiti.

Algo se suavizou no rosto dele. "Você tá sendo estranhamente honesto esta manhã."

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