PERSPECTIVA DO KIERAN
Acordei ofegante.
O sonho me perseguiu até a vigília, grudando em mim como uma febre. A Sera perto de uma fogueira, usando uma coroa de flores azuis claras que brilhavam sob o luar, o Lucian se inclinando para beijá-la.
O fogo rugia como se os abençoasse, e o sorriso dela… Deuses, aquele sorriso! Ele penetrou em mim, cru e cortante como ácido em carne exposta.
Uma dor pesada e oca irrompeu no meu peito. Por um momento, pensei que fosse apenas o eco do sonho, mas então a fisgada familiar das minhas costelas me fez estremecer.
Afastei o cobertor e me sentei, esfregando o meu peito onde os curativos escondiam as marcas ainda não tão cicatrizadas da fúria do Ashar.
Não estava cicatrizando rápido o suficiente.
Ele estava me punindo e eu sabia.
Os ferimentos daquela noite na floresta já deveriam ter cicatrizado há muito tempo. A maioria tinha, pelo menos os visíveis.
Mas aqueles escondidos sob a roupa, os piores... o meu lobo estava atrasando a cicatrização. Ele fazia questão de me fazer senti-los a cada maldito movimento ou respiração.
Como se a dor no meu coração não fosse suficiente.
Tentei argumentar com ele no início. Tecnicamente, foi ele quem perdeu a cabeça, destruiu a floresta ao redor do nosso território e quase matou nosso o Beta, então eu não merecia sofrer as consequências.
Mas o Ashar nem falava e nem ouvia.
Desde aquela noite, ele mal se mexia, exceto quando eu precisava de força para o treinamento do Daniel ou para resolver assuntos da Alcateia.
O silêncio entre nós era mais pesado que qualquer rugido.
Essa noite, o silêncio estava ainda pior, fechando-se e intensificando a angústia que eu sentia. Passei a mão pelos cabelos de forma agressiva, como se pudesse afastar os resquícios do sonho da minha mente, mas as imagens permaneceram: o riso da Sera, a maneira leve, sem preocupações e livre como ela olhava para o Lucian. Era um jeito que ela nunca olhou para mim.
A culpa rapidamente me atingiu junto com o ciúme. Eu tinha passado anos sendo um peso contrário à felicidade dela. Que direito eu tinha agora de sofrer quando ela finalmente estava feliz?
Tateei à procura do meu celular e, quando finalmente o encontrei, a tela brilhante mostrava 2:07 da manhã.
Merda. Ainda faltavam horas para qualquer um além dos guardas do turno da noite acordarem.
A noite me pressionava como um peso. Tentei deitar novamente, mas toda vez que fechava os olhos, via aquela fogueira e as mãos do Lucian nela de novo.
Finalmente, levantei, peguei um moletom da cadeira e puxei-o sobre a cabeça, tomando cuidado para não forçar muito o lado machucado. O tecido frio roçou nos curativos e eu sibilei de dor.
A voz do Ashar apareceu de forma tênue: 'Deixa doer.'
Eu congelei. Era o primeiro som dele em dias, mais uma sensação do que uma voz de fato. Quando tentei alcançá-lo, ele já tinha sumido.
"Idiota," murmurei.
Meus passos me levaram quase inconscientemente pelo corredor, em direção ao quarto do Daniel. Eu não questionei a minha necessidade de vê-lo, apenas sabia que a visão do meu filho me daria algum conforto.
A porta rangeu quando a empurrei para abrir. Daniel estava dormindo, com um braço jogado sobre a cabeça e o outro abraçando seu lobo de pelúcia. Seus cabelos estavam espalhados em tufos desordenados, e por um momento, fiquei parado apenas observando sua respiração.
Havia tanto da Sera nele: a mesma expressão serena, o mesmo jeito com que os lábios se moviam levemente quando ele sonhava... Mesmo acordado, ele carregava o sorriso dela, a sua força tranquila, o brilho teimoso nos olhos...
Talvez esse fosse o motivo de eu estar ali. Além do frágil vínculo que tínhamos, o Daniel era a única coisa que me ligava à Sera e a urgência desesperada de estar ao lado dela doía quase tanto quanto as minhas costelas.
Me sentei no sofá ao lado da janela e soltei um suspiro longo. A luz do luar atravessava as cortinas, lançando um brilho etéreo sobre o Daniel.
Eu não pretendia dormir, mas o cansaço foi chegando enquanto eu vigiava o meu filho e, em algum momento, devo ter cochilado.
Quando abri os olhos novamente, o quarto estava mais claro, as faixas de luz da manhã entrando pelas persianas.
"Pai?"
"Oi, campeão," respondi, com a voz rouca.
Daniel se sentou na cama, piscando. "O que você tá fazendo aqui?"
Esfreguei os olhos. "Não consegui dormir."
Ele piscou, processando a informação. "Então... você decidiu acampar no meu quarto?"
O tom sonolento e genuinamente confuso dele quase me fez rir. "Algo assim."
Ele inclinou a cabeça. "Você tá estranho. Tá doente?"
"Não," eu disse. Então, continuei após uma pausa: "Só precisava te ver."
Ele franziu a testa levemente, como se não soubesse bem como reagir à afirmação. "A minha mãe também faz isso, sabia? Fica me vendo dormir."
Meus lábios se curvaram, mesmo sem querer. "É." Inclinei-me para a frente, com os cotovelos apoiados sobre os joelhos. "Eu fazia isso o tempo todo quando você era pequeno, sabe. Sempre que os negócios da Alcateia ficavam difíceis demais, eu ia pro seu quarto, e te ver dormir sempre me acalmava."
As sobrancelhas do Daniel subiram até a raiz do cabelo. "Sério?"
Eu ri. "É tão inacreditável assim?"
Ele deu de ombros. "Não sei o que é mais difícil de acreditar. Você admitindo que é meio esquisito como a minha mãe..." eu revirei os olhos, "ou você expressando emoções."
Isso me fez parar e pensar.
"Não faço isso há muito tempo," eu disse baixinho. "Expressar as minhas emoções verdadeiras, quero dizer."
"É coisa de Alfa?" A curiosidade brilhava nos olhos grandes e impressionáveis do Daniel. "É porque expressar emoções é demonstrar fraqueza?"
Balancei a cabeça com tanta força que o meu pescoço estalou. "Claro que não. Na verdade, é o contrário. Guardar as coisas pra si é que te enfraquece e te separa das pessoas que se importam com você." Suspirei. "Faz de você uma ilha."
Ele bocejou e esfregou os olhos. "Você é uma ilha, Pai?"
Um suspiro dolorido ficou preso entre as minhas costelas machucadas.
"Eu..." Passei a mão pelo cabelo, organizando os meus pensamentos antes de apresentá-los ao meu filho intuitivo. "Não quero mais ser uma," eu admiti.
Algo se suavizou no rosto dele. "Você tá sendo estranhamente honesto esta manhã."
Estendi a mão e, ignorando a dor aguda, puxei-o para o meu colo. Retribuí o gesto passando a mão pelo cabelo dele. “Você é esperto demais pra sua idade.”
Ele sorriu sonolento e com os olhos brilhando. “A Mamãe diz isso também.”
Claro que diz.
Ficamos ali em silêncio, aproveitando a companhia um do outro por um tempo.
A luz da manhã estava ficando mais quente e já tocava as bordas da mesa dele, a pilha de livros perto da janela e o equipamento de treino do dia anterior jogado de qualquer jeito na outra extremidade do quarto.
"Eu vou tentar reconquistá-la," eu disse finalmente, mais para mim mesmo do que para ele. "Mas também vou respeitar o que ela quiser. Se a felicidade dela não me incluir..."
Depois de tudo que aconteceu, por mais que eu quisesse, não tinha certeza se o amor ainda era possível entre a Sera e eu. Talvez eu tivesse que me contentar com o arrependimento. "... então vou aprender a viver com isso."
O sorriso do Daniel tinha um traço de pena. "Você tá falando sério?"
A palavra saiu com dificuldade. "Tô."
Ele assentiu, então pulou do meu colo.
Eu observei, curioso, enquanto ele vasculhava a gaveta ao lado da cama até encontrar uma caneta permanente preta. "Então você vai precisar disso."
"O que é isso?"
"Fica quieto." Ele pegou a minha mão, tirou a tampa da caneta e desenhou cuidadosamente na minha pele uma pequena lua crescente curvada ao redor de uma estrela de cinco pontas.
"Pronto," ele disse com satisfação, levantando a mão para inspecionar o desenho.
Eu pisquei para o símbolo simples e prendi a respiração.
Aquela forma. As linhas entrelaçadas da estrela. A curva da lua.
"O que é isso?"
"O amuleto da sorte da Mamãe," ele disse com orgulho. "A Vovó me mostrou. Ela me ensinou pra eu ter sorte no meu treinamento. E agora você tem a bênção da Deusa da Lua e de todas as estrelas no céu."
Por um momento, o quarto girou e a minha visão se concentrou naquele pequeno marca de tinta na minha mão.
“Pai, tá tudo bem?” Daniel perguntou.
Assenti lentamente, embora o meu coração estivesse batendo forte nos meus ouvidos. “Sim. É só que... parece familiar.”
Ele deu de ombros. “Talvez você já tenha visto antes?”
“Talvez.” Minha voz saiu meio rouca.
Não. Não era um ‘talvez’.
Era um ‘com certeza’.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...